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Cirurgia29 abril 2026

Fios e suturas cirúrgicas: tipos, técnicas e como escolher

Entenda tipos de fios e suturas cirúrgicas, técnicas, critérios de escolha, complicações e cuidados pós-sutura.
Por Jader Ricco

sutura é um procedimento fundamental que tem o objetivo de manter a correta aproximação dos tecidos, orientando o processo de cicatrização e fornecendo força tênsil até que a união tecidual se complete. Para que esse procedimento flua de forma eficaz, é importante que o médico domine as características específicas dos materiais cirúrgicos, as técnicas de sutura, bem como os efeitos da interação desses materiais com os tecidos. 

Mais do que uma habilidade da prática cirúrgica, a sutura é uma habilidade técnica essencial na formação médica, independente da especialidade escolhida na profissão. Trata-se de uma competência básica, aplicada a todos os estudantes de medicina e que deve ser dominada pelo médico. 

fios e suturas cirúrgicas como escolher

Aplicações da sutura 

Em geral, a sutura é aplicada quando há rotura da integridade de um tecidoEm relação à sua aplicabilidade, as feridas traumáticas são as que mais comumente serão abordadas pelo médico em geral, não sendo, necessariamente, uma habilidade específica do cirurgião. Nesses casos, o fechamento primário, proporcionando pela sutura, facilita a cicatrização das feridas, acelerando o fechamento e reduzindo o desconforto do paciente. 

Sutura em feridas traumáticas 

O procedimento se inicia com limpeza adequada da ferida e preparação do campo cirúrgico. O próximo passo é a anestesia local para que o procedimento seja realizado sem dor e da melhor maneira possível. Também é necessário avaliar a viabilidade das bordas da ferida e desbridar, quando indicado, tecidos desvitalizados.  

Nesse momento, a escolha do fio cirúrgico e da técnica de sutura é fundamental. Devem ser considerados aspectos como força tênsil, tipo de fio, durabilidade e a melhor adaptação da sutura às características da ferida. 

Sutura no contexto cirúrgico 

No âmbito cirúrgico, a sutura é essencial para a execução de manobras que variam de anastomoses dos tratos gastrointestinal e geniturinário, ligaduras vasculares e correção de defeitos como hérnias de parede abdominal, entre outros. Nesses cenários, a escolha correta do material e técnica é decisiva para o sucesso do procedimento. 

Tipos de sutura 

Existem várias técnicas de sutura que se classificam de diferentes maneiras, com aplicabilidade direcionada a funções específicas. A escolha da técnica deve considerar, primordialmente, o papel da sutura em determinado tecido. Em algumas situações, técnicas diferentes podem apresentar resultados semelhantes, sendo a escolha, nesses casos, a critério do médico ou cirurgião. O conceito básico é que a sutura precisa manter aproximação das bordas da ferida sem tensão, o que é fundamental para a cicatrização adequada de feridas 

Técnicas mais utilizadas na prática 

A Sutura simples é a técnica mais usada na prática médica. Nela, a agulha penetra a pele, próxima à borda da ferida, em direção ao lado oposto, aproximando as bordas. 

O Ponto e U vertical (Donati) é indicado quando a sutura simples não consegue aproximação adequada das bordas, proporcionando redução do espaço morto e auxiliando a reduzir a formação de hematoma. Já o Ponto e U horizontal promove eversão das bordas da ferida, contribui para a hemostasia e permite o fechamento sob tensão moderada. 

Donati 

Ponto em U horizontal 

Ponto subdérmico é empegado para aliviar tensão nas bordas da ferida, eliminar espaço morto e otimizar resultados estéticos. A sutura contínua (chuleio) distribui a tensão por toda extensão da ferida, além de ser rápida e hemostasiante. É a técnica globalmente recomendada para o fechamento de aponeurose em cirurgia abdominal, sendo também útil para sutura no couro cabeludo. 

Ponto subdérmico 

Ponto intradérmico é realizado imediatamente abaixo da camada epidérmica, dentro da derme, sem atravessar a superfície externa da pele. É uma técnica amplamente utilizada para otimizar resultados estéticos, pois evita as marcas de do fio cirúrgico associadas às suturas transcutâneas. 

Ponto intradérmico 

Técnicas específicas do cirurgião 

Existem ainda outros tipos específicos de sutura, como sutura de LembertConnel, usadas em anastomoses do trato gastrointestinal e mais relacionadas à prática do cirurgião. Há também as suturas mecânicas, como grampeadores lineares circulares, aplicadas em situações específicas que fogem ao escopo desse estudo.  

Fios e agulhas 

A escolha do fio cirúrgico adequado é fundamental para o sucesso da sutura e deve considerar critérios específicos como: 

  • Biocompatibilidade 
  • Força tênsil 
  • Elasticidade 
  • Sítio anatômico 
  • Absorção do fio 
  • Tensão da ferida 
  • Idade do paciente 
  • Grau de contaminação da ferida 

Em conjunto, esses fatores interferem na segurança dos nós, na reação tecidual, na manutenção das bordas aproximadas acelerando a cicatrização, bem como em desfechos como infecções do sítio cirúrgico e custos. 

Em geral, os fios cirúrgicos classificam-se em absorvíveis ou inabsorvíveismonofilamentares ou multifilamentares, além de naturais ou sintéticos. 

Fios absorvíveis e inabsorvíveis 

Os fios absorvíveis são os que perdem força tênsil à medida que o organismo degrada o material, e podendo ser de rápida ou lenta absorção. Os de rápida absorção perdem a força tênsil em menos de 30 dias (poliglactina-910/Vicryl, ácido poliglicólico/Dexon, catgut). Já os de lenta absorção perdem a força t após 30 dias (polidioxanona/PDS, poligliconato/Maxon). 

Os fios inabsorvíveis permanecem por tempo indefinido em contato com os tecidos e, em geral, apresentam maior força tênsil residual. Entre eles, estão seda, algodão com poliéster, náilon, polipropileno, aço inoxidável. 

Fios monofilamentares e multifilamentares 

Quanto à configuração, os fios monofilamentares correspondem a um fio único com menor resistência à passagem pelos tecidos, com menor maleabilidade, maior memória e menor coeficiente de fricção. Entre eles, estão catgut, náilon, polidioxanona, polipropileno. Já os multifilamentares, podem ser trançados ou enrolados e têm maior força tênsil e flexibilidade, embora maior fricção tecidual e risco de formação de sinus e infecção. 

Fios naturais e sintéticos 

Em relação à origem, os fios de origem biológica foram os primeiros usados para síntese cirúrgica e tendem a causar maior reação tecidual. Entre eles, estão o catgut, derivado de colágeno de submucosa intestinal bovina ou ovina, e seda. Já os sintéticosque hoje correspondem à maioria dos fios utilizados, costumam apresentar menor custo de produção e menor reação tecidual, como polidioxanona, polipropileno, náilon, poliglatina 910. 

Agulhas cirúrgicas 

No que se refere às agulhas cirúrgicas, a montagem manual dos fios tornou-se obsoleta. Atualmente, utilizam-se agulhas que já são fabricadas com o fio acoplado diretamente à sua extremidade. São classificadas como traumáticas atraumáticas. 

As agulhas traumáticas têm extremidade triangular cortante e são usadas em tecidos resistentes, como a pele. As agulhas atraumáticas têm extremidade cilíndrica, o que aumenta a resistência à sua passagem pelo tecido, mas causam menor trauma tecidual. Podem ser usadas para todo tipo de sutura, com exceção da pele. 

Critérios para escolha da técnica e do material 

A escolha da técnica de sutura e do material cirúrgico deve ser baseada em múltiplos critérios, que incluem características da ferida, localização anatômica, tipo de tecido, força tênsil, risco de infecção e resultado funcional e estético esperado. Essa definição é fundamental para favorecer a cicatrização e diminuir complicações. 

Aspectos relacionados à ferida 

Entre os aspectos relacionados à ferida, devem ser avaliados o tempo desde a lesão, grau de contaminação e tensão da ferida. Lesões consideradas de baixo risco de infecção, em áreas bem vascularizadas e não contaminadas, podem ser fechadas em 12 a 24 horas. Já as feridas de alto risco, como as contaminadas, localizadas em áreas de má vascularização ou pacientes imunocomprometidos, devem ser fechadas em até 6 horas. Nesses casos, suturas profundas em áreas com alto grau de contaminação devem ser evitadas.  

Feridas com alta tensão exigem uso de fios com alta força tênsil e durabilidade. Nessa situação, as suturas profundas são indicadas, pois aliviam a tensão cutânea e, reduzem espaço morto e formação de hematomas. 

Área anatômica, calibre do fio e tempo de permanência 

A área anatômica também interfere diretamente na escolha do calibre do fio e no tempo em que a sutura deverá permanecer. Lesões da face requerem fios mais finos, como 5-0 e 6-0, uma vez que fios mais grossos proporcionam resultados menos estéticos e a tensão  tensão local costuma ser menor. 

Em couro cabeludotronco extremidades, os fios de calibre 4-0 e 3-0 são indicados e devem permanecer por cerca de 10 dias. Já lesões em articulações e áreas de extensão ou flexão podem precisar de mais tempo de permanência da sutura devido à alta tensão. 

Em relação ao resultado estético, as suturas intradérmicas tendem a apresentar melhor desfecho quando comparadas às suturas transdérmicas. 

Complicações associadas e prevenção 

As principais complicações associadas à sutura são infecção do sítio cirúrgicodeiscência da feridareatividade tecidualcicatriz hipertrófica ou queloide e formação de tratos sinusais 

Algumas dessas complicações podem ser mais frequentes em determinados grupos, como sexo pacientes do sexo masculino, de idade avançada, ou idade jovem, além de situações relacionadas à experiência do médico/cirurgião, com maior risco de reatividade tecidual e deiscência entre operadores menos experientes. 

Infecção do sítio cirúrgico 

A infecção do sítio cirúrgico acomete aproximadamente 0,5% a 3% dos pacientes submetidos a cirurgia e está associada a internações 7 a 11 dias mais longas. A presença de suturas aumenta o risco de colonização bacteriana no local da ferida, pois cria favorece a formação de biofilme, o que dificulta a ação do sistema imune e antimicrobianos.  

Deiscência, reatividade tecidual e cicatrização anormal 

Outra complicação é a deiscência da feridacaracterizada pela separação das bordas, que pode ocorrer por fatores técnicos ou relacionados ao paciente. A reatividade tecidual manifesta-se como inflamação local excessiva ao redor da sutura. Já a cicatrização hipertrófica e o queloide são distúrbios relacionados à tensão excessiva na ferida e predisposição individual. 

A formação de tratos sinusais, definidos como canais anormais que se formam a partir de uma cavidade infectada ou inflamada em direção à superfície da pele, é mais comum com uso de fios não absorvíveis. 

Estratégias de prevenção 

As estratégias de prevenção destacam-se a aplicação de tensão adequada, de forma que bordas sejam aproximadas sem causar necrose tecidual; a eversão das bordas da ferida, e evitar suturas em tecido adiposo, que não mantêm tensão e aumentam taxas de infecção; o ato de sepultar nós em suturas profundas, para minimizar a reação a corpo estranho; e e uso de fio com menor calibre eficaz, a fim de minimizar o trauma tecidual e reação tecidual. 

Diante de sinais de infecção, a primeira medida no tratamento é a abertura da ferida com a retirada dos pontos. Caso haja presença de seroma, hematomas ou abscessos, deve-se fazer a drenagem das secreções. Uso de antibióticos deve ser reservado em infecções profundas ou em casos selecionados, como persistência da infecção, sinais de piora e pacientes imunossuprimidos. 

Cuidados pós-sutura e cicatrização 

Os cuidados pós-sutura são fundamentais para otimizar a cicatrização da ferida e prevenir complicações. As principais recomendações incluem manter a ferida limpa e coberta por 24 a 48 horaspreservar um ambiente úmido, para acelerar a epitelização, e realizar a remoção das suturas no tempo adequado conforme a localização anatômica.  

O tempo de retirada dos pontos variaconforme a região acometida. Em média, o tempo para remoção da sutura é em: 

  • 5 dias na face 
  • 7 a 10 dias para couro cabeludo, tronco e extremidades 
  • 10 a 14 dias para articulações e nas mãos 

O uso rotineiro de antibiótico não é indicado. Quando há infecções, sua prescrição deve deve seguir a abordagem já descrita anteriormente. Há, porém, situações especificas situações específicas com indicação definida, como mordeduras humanas, de cães e gatos; lacerações intraorais; fraturas expostas; articulações ou tendões expostos. 

A profilaxia antitetânica, quando indicada deve ser administrada o mais rápido possível para pacientes que não receberam reforço nos últimos 5 ou 10 anos, dependendo do tipo de ferida. 

Atualizações, inovação e tecnologia em sutura 

Ao longo da história da medicina, as técnicas de sutura foram sendo aprimoradas. Os fios naturais vêm sendo progressivamente substituídos por fios sintéticos que, em geral, possuem menor custo, menor reação tecidual e maior eficácia. Atualmente, os fios cirúrgicos já vêm conectados à agulha, evitando-se os possíveis riscos de acidente para ligar os fios à base da agulha manualmente. 

Grampeadores e cirurgia minimamente invasiva 

Em áreas específicas, suturas manuais vêm sendo substituídas por grampeadores cirúrgicos, que promovem maior agilidade na cirurgia com menor tempo operatório e segurança equivalente. De forma semelhante, endossuturas em cirurgias minimamente invasivas como, laparoscópicas e robóticas, vêm sendo continuamente aprimoradas, mostrando grande eficácia e menor agressão cirúrgica com recuperação mais rápida do procedimento. 

Novos materiais e tecnologia aplicada à sutura 

Mais recentemente, também têm sido desenvolvidos materiais cirúrgicos com dispositivos multifuncionais, capazes de combinar aproximação tecidual mecânica com prevenção de infecção, monitoramento em tempo real, liberação controlada de fármacos, estimulação elétrica para cicatrização e, até mesmo, integração com sistemas de inteligência artificial. 

Mensagem final 

Na prática médica, a escolha correta entre técnicas de suturafios cirúrgicos e agulhas tem impacto direto na aproximação adequada dos tecidos, na cicatrização e no risco de complicações. Por isso, a sutura deve ser entendida não apenas como habilidade técnica, mas como parte de uma tomada de decisão que envolve características da ferida, localização anatômica, tipo de tecido e resultado esperado. 

Ao reunir aplicações, tipos de sutura, materiais, critérios de escolha, complicações e cuidados pós-sutura, o tema reforça a importância de uma abordagem cuidadosa e bem fundamentada para otimizar desfechos na prática clínica e cirúrgica. 

Autoria

Foto de Jader Ricco

Jader Ricco

Graduado pela UFMG ⦁ Membro do corpo clínico do Oncoclínicas Cancer Center  ⦁ Cirurgião Oncológico no Instituto de Oncologia da Santa Casa ⦁ Cirurgião Oncológico e preceptor de cirurgia Geral na Santa Casa de Belo Horizonte e Hospital Vila da Serra.

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Referências bibliográficas

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