Importantes causas de morbimortalidade para pacientes pós-ressecção pancreáticas são fístula pancreática e sangramento pós-operatório, que ocorrem em aproximadamente 15% e 16% dos casos, respectivamente. Para pacientes submetidos a cirurgia bariátrica de gastrectomia sleeve, 4,7% e 4% apresentam sangramento da linha de sutura e fístula, respectivamente.
Com intuito de diminuir tais complicações diferentes estratégias foram estudadas com resultados variáveis, dentre elas a cola de cianoacrilato, que é uma resina acrílica que une fortemente as bordas da ferida pela rápida polimerização na presença de moléculas de água e essa característica foi investigada por diferentes estudos.
Pesquisadores do Reino Unido realizaram uma interessante metanálise e revisão sistemática com intuito de avaliar possíveis benefícios do uso da cola de cianoacrilato em pacientes submetidos a pancreatectomias ou gastrectomia sleeve, relação à fístula e sangramento no pós-operatório. O estudo foi publicado na Langenbeck’s Archives of Surgery, periódico com tradição em cirurgia geral, com reconhecido perfil de boa qualidade dos artigos publicados.

Materiais e Métodos
Estudo de revisão sistemática e metanálise de artigos publicados no Scopus, MEDLINE, Cochrane Central Register of Controlled Trials, ClinicalTrials.gov e outras bases de dados, sem restrição de língua e publicados até outubro de 2024.
Foram incluídos estudos retrospectivos ou prospectivos de ensaios clínicos randomizados, coorte, caso-controles e séries de casos com número mínimo de amostra de pacientes de 10 indivíduos, sendo maiores de 18 anos, submetidos a qualquer tipo de pancreatectomia (pancreatoduodenectomia com oclusão total do ducto, pancreatoduodenectomia com pancreatojejunostomia, pancreatectomia distal ou pancreatectomia central) ou gastrectomia sleeve, independente da abordagem: aberta, laparoscópica ou robótica.
Todos os estudos deviam incluir o uso de cola baseada em cianoacrilato (Glubran, Dermabond ou Omnex), podendo ser comparado à placebo ou nenhum tipo de cola.
Os desfechos avaliados pelos pesquisadores foram a ocorrência de fístula ou sangramento pós-operatório.
Resultados
Para todas os tipos de ressecções pancreáticas o uso de cola de cianoacrilato não demonstrou benefício na redução do risco de fístula pancreática quando comparado a ausência de cola. A taxa de fístula após uso de cola de cianoacrilato foi de 41,3% (Intervalo de Confiança IC 95%: 16,1-66,5) segundo a metanálise de proporção com 6 estudos envolvendo 232 pacientes.
Na metanálise comparativa envolvendo 1381 pacientes de 4 estudos distintos não foi identificada diferença no risco de fístula pós-operatória entre os grupos com cola de cianoacrilato e sem cola (Odds Ratio OR: 1,26; IC 95%: 0,40-3,99; p=0,700).
Para gastrectomia sleeve, a metanálise de proporção com 3 estudos envolvendo 191 pacientes mostrou risco de fístula após uso de cola de cianoacrilato de 0,6% (95% IC 0,0-1,8) e na análise comparativa com 2 estudos envolvendo 306 pacientes não houve diferença com significância estatística entre os grupos de cola e sem cola (OR 0,14; 95%IC 0,02, 1,14, p=0,07).
Com base nesses resultados, o uso da cola de cianoacrilato parece estar associado a uma taxa muita baixa de fístula pós-operatória, mas não houve evidência de redução com significância estatística em comparação ao não uso da cola.
Mensagem prática
Esse artigo de revisão e metanálise, envolvendo 1800 pacientes de nove estudos distintos, evidenciou que o uso de cola à base de cianoacrilato não reduziu o risco de fístula ou sangramento pós-operatório em pancreatectomias ou gastrectomia vertical (Sleeve).
Os resultados são consistentes com estudos prévios sobre cola de fibrina que igualmente não apresentaram benefícios e com a impressão clínica dos cirurgiões que realizam esses procedimentos sobre elevada ocorrência de fístulas nas ressecções pancreáticas. Ademais, o impacto para os pacientes e a dificuldade de manejo desses devido à elevada morbidade, sendo fundamental o adequado preparo pré-operatório do paciente, a precisa indicação do procedimento e rigor da técnica no intraoperatório, e mesmo com todos esses cuidados a fístula pode ocorrer.
O artigo em questão evidencia que a cola à base de cianoacrilato não reduz sangramento ou fístula pós-operatória para esses pacientes e sua eficácia permanece não comprovada, havendo oportunidade de insistir na avaliação de sua eficácia em estudos futuros com maior poder estatístico.
Autoria

Gustavo Borges Manta
Cirurgião de Cabeça e Pescoço pela Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Associação Médica Brasileira • Assistente de Cirurgia de Cabeça e Pescoço no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo - ICESP - Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - HCFMUSP e no Hospital do Servidor Público Estadual HSPE-IAMSPE • Médico cirurgião do Hospital Israelita Albert Einstein - HIAE • Pós-Graduação pelo Hospital Israelita Albert Einstein em Cirurgia Robótica em Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Pós-Graduação em Gestão da Qualidade e Segurança do Paciente em Saúde.
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