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Cirurgia20 maio 2026

Efeito da cola de cianoacrilato em fístula pós pancreatectomia e gastrectomia

Cola de cianoacrilato não reduziu fístula ou sangramento após pancreatectomia e gastrectomia sleeve, segundo revisão sistemática.

Importantes causas de morbimortalidade para pacientes pós-ressecção pancreáticas são fístula pancreática e sangramento pós-operatório, que ocorrem em aproximadamente 15% e 16% dos casos, respectivamente. Para pacientes submetidos a cirurgia bariátrica de gastrectomia sleeve, 4,7% e 4% apresentam sangramento da linha de sutura e fístula, respectivamente. 

Com intuito de diminuir tais complicações diferentes estratégias foram estudadas com resultados variáveis, dentre elas a cola de cianoacrilato, que é uma resina acrílica que une fortemente as bordas da ferida pela rápida polimerização na presença de moléculas de água e essa característica foi investigada por diferentes estudos. 

Pesquisadores do Reino Unido realizaram uma interessante metanálise e revisão sistemática com intuito de avaliar possíveis benefícios do uso da cola de cianoacrilato em pacientes submetidos a pancreatectomias ou gastrectomia sleeve, relação à fístula e sangramento no pós-operatório. O estudo foi publicado na Langenbeck’s Archives of Surgery, periódico com tradição em cirurgia geral, com reconhecido perfil de boa qualidade dos artigos publicados. 

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Materiais e Métodos 

Estudo de revisão sistemática e metanálise de artigos publicados no Scopus, MEDLINE, Cochrane Central Register of Controlled Trials, ClinicalTrials.gov e outras bases de dados, sem restrição de língua e publicados até outubro de 2024. 

Foram incluídos estudos retrospectivos ou prospectivos de ensaios clínicos randomizados, coorte, caso-controles e séries de casos com número mínimo de amostra de pacientes de 10 indivíduos, sendo maiores de 18 anos, submetidos a qualquer tipo de pancreatectomia (pancreatoduodenectomia com oclusão total do ducto, pancreatoduodenectomia com pancreatojejunostomia, pancreatectomia distal ou pancreatectomia central) ou gastrectomia sleeve, independente da abordagem: aberta, laparoscópica ou robótica.  

Todos os estudos deviam incluir o uso de cola baseada em cianoacrilato (Glubran, Dermabond ou Omnex), podendo ser comparado à placebo ou nenhum tipo de cola. 

Os desfechos avaliados pelos pesquisadores foram a ocorrência de fístula ou sangramento pós-operatório. 

Resultados 

Para todas os tipos de ressecções pancreáticas o uso de cola de cianoacrilato não demonstrou benefício na redução do risco de fístula pancreática quando comparado a ausência de cola. A taxa de fístula após uso de cola de cianoacrilato foi de 41,3% (Intervalo de Confiança IC 95%: 16,1-66,5) segundo a metanálise de proporção com 6 estudos envolvendo 232 pacientes.  

Na metanálise comparativa envolvendo 1381 pacientes de 4 estudos distintos não foi identificada diferença no risco de fístula pós-operatória entre os grupos com cola de cianoacrilato e sem cola (Odds Ratio OR: 1,26; IC 95%: 0,40-3,99; p=0,700). 

Para gastrectomia sleeve, a metanálise de proporção com 3 estudos envolvendo 191 pacientes mostrou risco de fístula após uso de cola de cianoacrilato de 0,6% (95% IC 0,0-1,8) e na análise comparativa com 2 estudos envolvendo 306 pacientes não houve diferença com significância estatística entre os grupos de cola e sem cola (OR 0,14; 95%IC 0,02, 1,14, p=0,07).  

Com base nesses resultados, o uso da cola de cianoacrilato parece estar associado a uma taxa muita baixa de fístula pós-operatória, mas não houve evidência de redução com significância estatística em comparação ao não uso da cola. 

Mensagem prática 

Esse artigo de revisão e metanálise, envolvendo 1800 pacientes de nove estudos distintos, evidenciou que o uso de cola à base de cianoacrilato não reduziu o risco de fístula ou sangramento pós-operatório em pancreatectomias ou gastrectomia vertical (Sleeve).  

Os resultados são consistentes com estudos prévios sobre cola de fibrina que igualmente não apresentaram benefícios e com a impressão clínica dos cirurgiões que realizam esses procedimentos sobre elevada ocorrência de fístulas nas ressecções pancreáticas. Ademais, o impacto para os pacientes e a dificuldade de manejo desses devido à elevada morbidade, sendo fundamental o adequado preparo pré-operatório do paciente, a precisa indicação do procedimento e rigor da técnica no intraoperatório, e mesmo com todos esses cuidados a fístula pode ocorrer. 

O artigo em questão evidencia que a cola à base de cianoacrilato não reduz sangramento ou fístula pós-operatória para esses pacientes e sua eficácia permanece não comprovada, havendo oportunidade de insistir na avaliação de sua eficácia em estudos futuros com maior poder estatístico. 

Autoria

Foto de Gustavo Borges Manta

Gustavo Borges Manta

Cirurgião de Cabeça e Pescoço pela Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Associação Médica Brasileira • Assistente de Cirurgia de Cabeça e Pescoço no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo - ICESP - Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - HCFMUSP e no Hospital do Servidor Público Estadual HSPE-IAMSPE  • Médico cirurgião do Hospital Israelita Albert Einstein - HIAE  • Pós-Graduação pelo Hospital Israelita Albert Einstein em Cirurgia Robótica em Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Pós-Graduação em Gestão da Qualidade e Segurança do Paciente em Saúde.

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