Sem dúvida a mais frequente das complicações pós- herniorrafias ventrais são os eventos de parede abdominal sendo a mais temida a infecção de sítio cirúrgico. Esta pode causar uma infecção crônica da tela utilizada e com isto comprometer todo o resultado
As terapias a vácuo são utilizadas em diversos cenários, e mais recentemente em cirurgias eletivas. O trabalho publicado no final do ano de 2025 na British Journal of Surgery, tenta identificar com o auxílio de um ensaio clínico randomizado, os benefícios da terapia a vácuo utilizada de forma eletiva em cirurgias da parede abdominal.

Métodos
Ensaio clínico randomizado, multicêntrico que comparou na proporção de 1:1 pacientes submetidos a herniorrafia ventral por técnica aberta. A esponja do vácuo era aplicada sobre a totalidade da incisão após a sutura da pele. Para fins do estudo, todos os participantes tinham a esponja retirada no 3o dia de pós-operatório, período esse determinado por ser a média de permanência hospitalar e com isto não atrasar a alta. Após a retirada do vácuo era realizado curativo convencional. O grupo controle realiza apenas curativos convencionais. A randomização foi realizada por modelo de computador, e os envolvidos na análise também permaneceram “cegos” quanto ao uso ou não do dispositivo a vácuo.
Foi determinado como desfecho primário a ocorrência de infecção de sítio cirúrgico até 30 dias de pós-operatório e como desfechos secundários uma associação de achados de ocorrência de sítio cirúrgico, como decência de pele, seromas, necrose de pele etc.
Resultados
Ao total foram randomizados 110 pacientes sendo 56 para o grupo vácuo e 54 no grupo controle, com um óbito de cada lado, permanecendo respectivamente 55 e 53 pacientes. Um total de 11 pacientes (10,2%), sendo 7 infecções superficiais e 3 profundas. Das infecções 4 foram no grupo controle (8%) e 7 (13%) no grupo vácuo (p=0,673). Em uma análise univariada o uso do vácuo era um fator de risco para a infecção RR 1,77 (95% IC; 0,49-6,5) porém com um p valor de 0,379.
Em relação ao desfecho secundário foram 26 eventos de ferida operatória com 12 do grupo controle e 14 do grupo vácuo e esta diferença com um p valor de 0,907.
Discussão
Neste estudo não foi possível determinar uma diferença no uso do dispositivo de vácuo quando comparada ao curativo convencional, nos 30 dias de observação. Assim como outros achados como a qualidade de vida e até mesmo a aparência da cicatriz não foram diferentes entre os grupos.
A incidência global de infecção de sítio cirúrgico foi menor que quando comparada a outros estudos, que pode ser explicada por uma seleção dos pacientes. Além disso, o dispositivo foi utilizado por apenas 3 dias, diferente de alguns outros estudos, com casos mais complexos, onde se utilizou a terapia a vácuos por 7 dias.
Portanto, o uso da terapia a vácuos para casos rotineiros de herniorrafia, não se mostrou benéfica, diferente de outros estudos com casos de altíssima complexidade que compravam benefícios.
Para levar para casa
Apesar de sensata a teoria da terapia a vácuo, nem sempre ela apresenta benefício em todos os cenários. Saber indicar é o melhor princípio de um bom sucesso.
Autoria

Felipe Victer
Editor Médico de Cirurgia Geral da Afya ⦁ Residência em Cirugia Geral pelo Hospital Universitário Clementino fraga filho (UFRJ) ⦁ Felllow do American College of Surgeons ⦁ Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões ⦁ Membro da Sociedade Americana de Cirurgia Gastrointestinal e Endoscópica (Sages) ⦁ Ex-editor adjunto da Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (2016 a 2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
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