O envelhecimento populacional impõe um desafio crescente à prática cirúrgica, pois adultos com mais de sessenta e cinco anos representam uma parcela cada vez maior. Esta faixa etária frequentemente apresenta múltiplas comorbidades, reserva fisiológica reduzida, como fragilidade e déficit cognitivo, fatores que predispõem a um risco substancialmente elevado de complicações no período pós-operatório. Entre as consequências mais temidas estão as internações prolongadas em unidades de terapia intensiva e a perda irreversível da independência nas atividades cotidianas.
Diante desse cenário clínico de vulnerabilidade, a tomada de decisão compartilhada emerge como um componente indispensável para alinhar as intervenções e os valores e expectativas de cada paciente.
O mais comum no aconselhamento pré-operatório conduzido pelas equipes cirúrgicas tende a focar excessivamente nos riscos imediatos do procedimento e em desfechos de curto prazo, negligenciando o impacto a longo prazo sobre a autonomia do paciente e as necessidades de suporte familiar. A ausência de diretrizes padronizadas e específicas motivou a necessidade de estabelecer metodologias claras e clinicamente factíveis para o ambiente cirúrgico.
Para suprir esta lacuna assistencial e científica, foi delineado um estudo qualitativo de consenso estruturado executado através de um processo Delphi modificado em duas etapas de deliberação. O objetivo central dos pesquisadores foi identificar e validar as melhores práticas de comunicação e planejamento terapêutico, extraindo uma lista inicial de quarenta e uma propostas fundamentadas em modelos decisórios preexistentes e nas métricas do programa de excelência geriátrica do American College of Surgeons.

Métodos
Esta base teórica preliminar foi então submetida à análise para atestar sua viabilidade no cotidiano da prática real.
O painel de especialistas foi composto por médicos clínicos e representante de pacientes, sendo 7 médicos clínicos e 4 representantes dos pacientes.
Resultados
O painel estabeleceu um arcabouço metodológico composto por quarenta e três elementos considerados simultaneamente válidos e aplicáveis à prática clínica. Esses elementos foram classificados como a sua importância clínica como a aplicabilidade. Exemplos desses elementos analisados consiste em condição clínica do paciente, alternativas viáveis, necessidade de unidade fechada, ou seja, uma análise global de todo o cenário clínico e perspectiva.
Durante a primeira fase de avaliações, todas as proposições iniciais alcançaram os critérios mínimos de validade, evidenciando uma forte e encorajadora concordância teórica sobre o que deveria ser o padrão ouro do cuidado cirúrgico geriátrico. Contudo, após intensas discussões, duas diretrizes foram descartadas por serem julgadas inexequíveis na prática médica, enquanto quatro novas métricas voltadas à avaliação do suporte social e ao engajamento ativo do paciente foram introduzidas com êxito.
A limitação de tempo nas consultas pré-operatórias e certas barreiras culturais intraprofissionais foram citadas como fatores fortemente limitantes para uma abordagem ideal. As manifestações de preocupação concentraram-se majoritariamente na complexidade de conduzir avaliações formais de capacidade decisória e na escassez crônica de dados robustos para orientar pacientes, com precisão, sobre desfechos funcionais a longo prazo.
Discussão
A concordância unânime quanto à validade clínica das métricas propostas reflete um reconhecimento maduro, por parte da comunidade médica, sobre a inegável complexidade da cirurgia geriátrica, contrastando fortemente com os desafios pragmáticos da implementação de novas rotinas. Integrar rastreios sistematizados de fragilidade ou de declínio cognitivo ao fluxo diário exige uma reestruturação do atendimento, visto que essas informações vitais frequentemente não constam de forma estruturada nos prontuários padrão.
Os avaliadores clínicos sublinharam que a atual dificuldade do cirurgião em prognosticar a manutenção da independência funcional pós-alta dificulta severamente um aconselhamento que seja de fato centrado na pessoa. Observa-se que pacientes senis frequentemente subestimam os riscos reais de complicações perioperatórias ao passo que apresentam extrema dificuldade em prever como determinadas sequelas irreversíveis impactarão de forma definitiva sua rotina familiar. Superar essas barreiras históricas requer ir muito além da simples coleta de assinaturas em termos de consentimento.
Em conclusão, apenas mitigando as restrições de tempo e preenchendo as atuais deficiências de prognóstico será possível entregar um processo de decisão compartilhada que respeite de maneira irrestrita a autonomia.
Mensagem final
Sem dúvida decidir o melhor a ser feito em um paciente idoso frágil, não é simples de decidir. Nem mesmo este artigo conseguiu definir uma métrica a ser seguida, porém que a avaliação global do paciente deve envolver especialistas além da cirurgia. É um tema que temos que evoluir uma vez que envolve questões muito além da medicina, como a crença e e espetitualidade de cada indivíduo.
Autoria

Felipe Victer
Editor Médico de Cirurgia Geral da Afya ⦁ Residência em Cirugia Geral pelo Hospital Universitário Clementino fraga filho (UFRJ) ⦁ Felllow do American College of Surgeons ⦁ Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões ⦁ Membro da Sociedade Americana de Cirurgia Gastrointestinal e Endoscópica (Sages) ⦁ Ex-editor adjunto da Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (2016 a 2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
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