Ouvir a história de vida de um paciente, por mais difícil que pareça diante do tempo reduzido de uma consulta, também pode ser uma ferramenta clínica. Antes mesmo dos sintomas ou das preocupações que motivaram o atendimento, existe o contexto de uma vida inteira, que influencia como a pessoa entende o próprio corpo e a própria saúde, se confia ou desconfia do sistema de saúde e o que escolhe compartilhar — ou não — com o médico.
Quando paramos de digitar e olhamos nos olhos da pessoa à nossa frente no consultório para ouvir o que ela tem a dizer, esse gesto é mais do que uma gentileza. É uma forma de demonstrar interesse em compreender o contexto em que uma doença se desenvolve. É dentro desse contexto que as escolhas feitas, tanto pelo médico quanto pelo paciente, ganham significado e podem influenciar o cuidado.
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Medicina narrativa e cuidado centrado na pessoa
Somos treinados para ver a doença como uma questão biológica e intervir de acordo, mas o paciente a vivencia dentro de seu próprio contexto, que varia conforme a história de vida de cada indivíduo. Com base nisso, a medicina narrativa é uma abordagem de cuidado em saúde que utiliza a escuta ativa e a interpretação das histórias de vida e de adoecimento dos pacientes.
Em vez de direcionar a atenção apenas para o problema, o médico busca compreender a pessoa que o vivencia. Valores, recursos, prioridades e a história da vida diária interferem no cuidado. Se não percebemos esses fatores, a relação com o paciente e a adesão ao tratamento podem ficar comprometidas.
A proposta da medicina narrativa é permitir que os pacientes contem suas histórias com suas próprias palavras e destaquem as informações e os detalhes que consideram importantes, enquanto o médico explora conexões e possibilidades para conduzir o atendimento com base nessas informações.
Assim, o cuidado tem mais chance de ser prestado de forma colaborativa, sem imposições, e pode transformar a relação médico-paciente, porque o paciente assume o protagonismo da própria narrativa. O cuidado passa, então, a ser pensado com base nos valores e na realidade que o paciente consegue sustentar.
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My Life, My Story: medicina narrativa na prática
Um exemplo da aplicação da medicina narrativa na prática é o projeto My Life, My Story (MLMS). Lançado nos Estados Unidos em 2013 para reunir histórias de vida de pacientes, o programa se expandiu para 55 sistemas de saúde voltados a veteranos e também para outras redes fora desse sistema.
O processo envolve um entrevistador conversando com o paciente por cerca de uma hora sobre sua trajetória de vida, cabendo ao próprio paciente decidir quais informações deseja compartilhar. Isso transfere o controle da narrativa para o paciente, em vez de limitá-lo a responder perguntas.
Depois, a história é escrita na voz do paciente e adicionada ao prontuário médico, onde fica disponível para a equipe responsável pelo atendimento.
O que as histórias de vida podem mudar no atendimento
Uma revisão publicada no Journal of General Internal Medicine compilou 14 estudos sobre a leitura de histórias de pacientes no MLMS, no período de 2013 a 2024.
Os resultados indicaram que os profissionais de saúde que leram as histórias de vida dos pacientes consideraram a prática uma boa utilização do tempo clínico e observaram que as narrativas ajudaram a personalizar o atendimento, mostrando valores e o contexto de vida do paciente.
Estudantes e profissionais em formação também relataram o desenvolvimento de relações mais profundas com os pacientes e aumento da empatia autodeclarada após a participação.
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O que ainda falta demonstrar sobre a medicina narrativa
Os estudos mostram que a experiência é agradável para os pacientes, facilita a compreensão de informações clínicas importantes e aumenta a satisfação. No entanto, ainda há evidências limitadas de que a medicina narrativa melhore diretamente os resultados clínicos.
Muitos estudos se concentraram em medidas subjetivas. Sentir-se mais empático, por exemplo, não é o mesmo que prestar um atendimento de maior qualidade. Além disso, nenhum estudo acompanhou os participantes por tempo suficiente para determinar se o efeito persiste.
Autoria

Juliana Karpinski
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