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Cardiologia22 junho 2026

VESALIUS-CV: Evolocumabe na prevenção primária

VESALIUS-CV avalia evolocumabe em pacientes com diabetes e alto risco cardiovascular sem evento prévio.
Por Juliana Avelar

A redução intensiva dos níveis de LDL com inibidores da PCSK9 para redução de eventos cardiovasculares tem sido reservada, até o momento, a pacientes em prevenção secundária. Foi publicado recente no ACC um estudo que teve o objetivo de investigar se o evolocumabe poderia prevenir um primeiro evento cardiovascular maior em pacientes sem aterosclerose significativa conhecida. 

O VESALIUS-CV foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, conduzido em 33 países, incluindo 12.257 pacientes sem infarto do miocárdio prévio ou acidente vascular cerebral, com níveis de LDL-C de pelo menos 90 mg/dL e com aterosclerose ou diabetes de alto risco.  

Essa análise de subgrupo pré-especificada avaliou os desfechos em pacientes sem aterosclerose significativa conhecida, definida como ausência de revascularização arterial prévia, ausência de estenose arterial ≥50% ou escore de cálcio coronariano ≥100 unidades de Agatston, todos com diabetes. O seguimento mediano foi de 4,8 anos. 

Os pacientes foram randomizados na proporção de 1:1 para receber administração subcutânea de evolocumabe, na dose de 140 mg a cada 2 semanas, ou placebo correspondente, adicionados à terapia com estatina na dose máxima tolerada. Os desfechos primários duplos foram compostos por morte por doença coronariana, infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral isquêmico, constituindo o MACE de três componentes, e MACE de três componentes acrescido de revascularização arterial guiada por isquemia, constituindo o MACE de quatro componentes. Os desfechos secundários incluíram mortalidade por todas as causas. 

Este subgrupo pré-definido incluiu 3655 pacientes, sendo 1849 no grupo evolocumabe e 1806 no grupo placebo, com idade mediana de 65 anos e 57% do sexo feminino.  

No subestudo lipídico, o LDL-C basal mediano foi de 121 mg/dL. Após 48 semanas, o tratamento com evolocumabe resultou em redução média de aproximadamente 51% no LDL-C, com níveis medianos de 52 mg/dL, em comparação com 111 mg/dL no grupo placebo. Após 96 semanas, os níveis medianos foram de 44 mg/dL no grupo evolocumabe e 105 mg/dL no grupo placebo. O evolocumabe também reduziu outros parâmetros lipídicos aterogênicos, incluindo colesterol não HDL e apolipoproteína B. 

A incidência de eventos cardiovasculares maiores foi significativamente menor no grupo evolocumabe em comparação com o grupo placebo. Observou-se redução de 34% no desfecho composto de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral isquêmico ou revascularização guiada por isquemia, redução de 31% em eventos coronarianos maiores e redução de 32% em desfechos cardiovasculares compostos. Houve também redução na mortalidade cardiovascular, com hazard ratio de 0,68. 

Os eventos adversos, incluindo eventos adversos graves e aqueles que levaram à descontinuação do tratamento, foram semelhantes entre os grupos. 

Até o momento, o uso de inibidores da PCSK9 estava limitado a pacientes com história de evento cardiovascular maior. O VESALIUS-CV demonstrou que a adição de evolocumabe também reduz eventos cardiovasculares em pacientes sem eventos prévios, incluindo aqueles sem aterosclerose significativa conhecida, mas com diabetes.  

Por muitos anos, a abordagem tradicional nas diretrizes recomendava o uso de estatinas em pacientes de alto risco em prevenção primária, com adição de ezetimiba apenas se o LDL-C permanecesse elevado. Como consequência, a intensificação da terapia era frequentemente tardia e ocorria apenas após um evento cardiovascular. Este estudo demonstrou que a intensificação precoce com evolocumabe, adicionada ao tratamento padrão, resulta em redução significativa de eventos cardiovasculares maiores, estabelecendo superioridade em relação à monoterapia com estatinas em pacientes de alto risco sem aterosclerose conhecida e com diabetes. 

Além de demonstrar benefício clínico, o estudo levanta a questão de se as metas atuais de LDL-C são suficientemente baixas para pacientes de prevenção primária de alto risco. O LDL-C mediano alcançado foi de 44 mg/dL, valor mais próximo das metas geralmente reservadas para prevenção secundária de muito alto risco. A redução do LDL-C para esses níveis foi associada a redução significativa de eventos cardiovasculares, reforçando o conceito de que níveis mais baixos são melhores. 

Limitações 

A avaliação de aterosclerose por imagem não foi realizada em todos os pacientes, de modo que alguns podem ter apresentado aterosclerose não diagnosticada. A população era predominantemente branca, o que pode limitar a generalização dos resultados. Além disso, trata-se de uma análise de subgrupo pré-especificada, e a confirmação dos achados em outros estudos é necessária. 

Conclusão 

A adição de evolocumabe em pacientes de alto risco sem aterosclerose significativa conhecida e com diabetes reduziu substancialmente o risco de um primeiro evento cardiovascular maior. Esses dados sustentam a intensificação precoce da terapia hipolipemiante nos pacientes diabéticos de alto risco que persistem com LDL elevado apesar de estatina e ezetimibe. Além disso, sugere que metas mais baixas de LDL-C, tradicionalmente reservadas à prevenção secundária, podem ser apropriadas também na prevenção primária de alto risco. Na prática, o custo ainda muito elevado pode dificultar essa abordagem. 

Autoria

Foto de Juliana Avelar

Juliana Avelar

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição (2021). Residência em Cardiologia pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (IDPC). Além de atuação na Afya, também atua em hospitais e em consultório particular.

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