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Cardiologia21 agosto 2026

Vacinação do adulto como parte do cuidado cardiovascular

ACC 2026 reforça influenza, pneumococo, Covid-19, VSR e zóster como parte da prevenção e do cuidado cardiovascular.
Por Juliana Avelar

O ACC propôs recentemente uma mudança conceitual importante: avaliar e recomendar vacinação deve fazer parte do cuidado cardiovascular, especialmente na prevenção secundária. Infecções respiratórias não são apenas intercorrências infecciosas; em pacientes com doença cardiovascular (DCV), podem precipitar infarto do miocárdio (IAM), AVC, descompensação de insuficiência cardíaca (IC), arritmias, hospitalização e morte. 

O documento concentra-se principalmente em influenza, pneumococo, COVID-19 e vírus sincicial respiratório (VSR) e acrescenta a vacinação contra herpes-zóster, para a qual há evidência emergente de possível benefício cardiovascular. 

vacinação do adulto

Influenza: a vacina com evidência cardiovascular mais convincente 

A infecção por influenza funciona como um importante gatilho de eventos cardiovasculares agudos. O documento destaca que uma infecção por influenza confirmada laboratorialmente foi associada a aumento de aproximadamente 6 vezes no risco de IAM agudo no período imediatamente posterior à infecção. 

Uma meta-análise de seis ensaios randomizados, com 6.734 participantes, mostrou redução de eventos cardiovasculares maiores com vacinação versus placebo/não vacinação: RR 0,64; IC95% 0,48–0,96, durante seguimento médio de 7,9 meses. 

O benefício pareceu maior nos pacientes com síndrome coronariana aguda recente. 

Portanto, entre as vacinas discutidas pelo ACC, a de influenza possui uma das bases mais robustas para se argumentar não apenas prevenção de infecção, mas potencial prevenção cardiovascular secundária. 

Alta dose no idoso 

Uma atualização relevante é o fortalecimento da evidência para vacina de alta dose em ≥65 anos. Ensaios randomizados recentes encontraram menos hospitalizações respiratórias, cardiovasculares e por IC em comparação à dose padrão. 

Na doença coronariana crônica, a diretriz AHA/ACC 2023 já atribui à vacinação anual contra influenza Classe I, nível de evidência A, para redução de morbidade cardiovascular, mortalidade cardiovascular e mortalidade total. 

Pneumococo: benefício infeccioso bem estabelecido, benefício cardiovascular direto menos certo 

Pneumonia pneumocócica é particularmente relevante em idosos e pacientes com cardiopatias. Pneumonia, independentemente da etiologia, associa-se a aumento subsequente de eventos cardiovasculares. 

Em idosos ≥65 anos, um RCT com vacina conjugada demonstrou eficácia de aproximadamente 75% contra doença pneumocócica invasiva causada pelos sorotipos vacinais e 45% contra pneumonia pneumocócica correspondente. 

Quem vacinar 

O documento recomenda vacinação pneumocócica para: 

  • todos os adultos ≥50 anos ainda não adequadamente vacinados com PCV; 
  • adultos de 19–49 anos com condições de risco, incluindo cardiopatia crônica, IC e cardiomiopatias. 

Um detalhe útil: hipertensão arterial isolada não é considerada condição de maior risco para pneumonia pneumocócica. 

As opções preferenciais são PCV20 ou PCV21, que não exigem PPSV23 subsequente. PCV15 requer complementação com PPSV23. 

COVID-19: benefício clínico claro, mas evidência cardiovascular específica predominantemente observacional 

Pacientes com DCV apresentam maior risco de COVID-19 grave. A vacinação reduz infecção sintomática e, principalmente, doença grave. 

VSR: uma das novidades mais interessantes para a cardiologia 

O VSR é frequentemente subestimado como doença de adultos. Em ≥65 anos, o ACC cita aproximadamente 60.000–160.000 hospitalizações e 6.000–10.000 mortes anuais nos Estados Unidos. 

IC, doença coronariana, DPOC e diabetes aumentam o risco de doença grave. 

As três vacinas disponíveis apresentam eficácia de aproximadamente 80% contra doença do trato respiratório inferior no primeiro ano, caindo para cerca de 70% posteriormente. 

O ponto cardiovascular mais interessante vem do DAN-RSV, grande estudo randomizado dinamarquês com aproximadamente 130 mil adultos. Além da prevenção de infecção, houve sinal de redução de doença cardiorrespiratória e de eventos cardiovasculares. 

Isso fortalece a hipótese de que prevenir VSR possa evitar eventos cardiovasculares precipitados pela infecção, embora a magnitude e a consistência desses benefícios cardiovasculares ainda precisem ser consolidadas. 

Recomendação prática 

O documento recomenda uma dose para adultos ≥50 anos com DCV que ainda não tenham recebido vacina contra VSR. 

Importante: não é atualmente uma vacinação anual. O intervalo ideal para eventual revacinação ainda não está definido. 

Herpes-zóster 

Infecção por herpes-zóster produz estado inflamatório associado a aumento transitório do risco de IAM e AVC. 

Estudos observacionais de grandes bases populacionais sugerem que indivíduos vacinados apresentam menor incidência subsequente de IAM, AVC, IC e arritmias. Um estudo sul-coreano com mais de um milhão de indivíduos encontrou associação persistente por vários anos. 

Mas aqui a distinção metodológica é fundamental: as evidências de prevenção cardiovascular são predominantemente observacionais e, portanto, vulneráveis a confusão residual e ao chamado healthy vaccinee bias. 

Há evidência randomizada robusta para prevenção do herpes-zóster propriamente dito, mas isso não equivale a demonstração randomizada de redução de IAM ou AVC. 

A recomendação permanece clara independentemente dessa possível cardioproteção: vacina recombinante contra zóster em duas doses, separadas por 2–6 meses, para adultos ≥50 anos. 

Vacina População  Esquema 
Influenza Adultos com DCV Anual; preferência por alta dose/recombinante/adjuvada ≥65 anos 
COVID-19 Adultos conforme indicação vigente Atualização conforme temporada/recomendação 
Pneumococo ≥50 anos; 19–49 anos se fatores de risco, incluindo cardiopatia Preferência por PCV20 ou PCV21 
VSR ≥50 anos com DCV Uma dose; atualmente não anual 
Herpes-zóster ≥50 anos 2 doses, intervalo 2–6 meses 

O documento também ressalta que várias dessas vacinas podem ser administradas concomitantemente. A exceção prática mencionada é que, quando utilizado o esquema PCV15 + PPSV23, essas duas vacinas não são administradas simultaneamente. 

Mensagem final  

A vacinação deve ser entendida como componente do manejo do risco cardiovascular, sobretudo em pacientes com doença coronariana, IC, cardiomiopatia, idosos e indivíduos com múltiplas comorbidades. 

A evidência é particularmente convincente para influenza, inclusive com dados randomizados de redução de eventos cardiovasculares em pacientes de alto risco. Pneumococo, COVID-19 e VSR têm forte racional para prevenção de infecção grave em uma população cardiovascular vulnerável, embora a certeza sobre cardioproteção específica varie entre elas. A possível proteção cardiovascular associada à vacina contra herpes-zóster é promissora, mas ainda deve ser interpretada predominantemente como evidência observacional. 

Na consulta cardiológica de 2026, revisar o status vacinal deveria ser considerado parte da prevenção cardiovascular abrangente, e não apenas uma atribuição da atenção primária. 

Autoria

Foto de Juliana Avelar

Juliana Avelar

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição (2021). Residência em Cardiologia pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (IDPC). Além de atuação na Afya, também atua em hospitais e em consultório particular.

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Referências bibliográficas

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