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Cardiologia7 agosto 2026

Trombose da artéria hepática após transplante hepático: desfechos.

Estudo brasileiro avalia diagnóstico, tratamento e desfechos da trombose da artéria hepática após transplante, com mortalidade de 40%.
Por Hiago Bastos

A trombose da artéria hepática (TAH) constitui uma das complicações vasculares mais graves após o transplante hepático, estando diretamente relacionada à perda do enxerto, necessidade de retransplante e elevada mortalidade. Embora sua incidência varie entre 2% e 9%, a TAH permanece como uma importante causa de morbidade no período pós-operatório, podendo ocorrer imediatamente após a realização da anastomose arterial ou manifestar-se semanas após o transplante, sendo classificada como precoce quando diagnosticada nos primeiros 30 dias. Considerando a escassez de estudos nacionais sobre o tema, os autores buscaram avaliar o diagnóstico, o tratamento e os desfechos da trombose da artéria hepática em pacientes submetidos a transplante hepático em três importantes centros brasileiros especializados nesse procedimento.  

Foi realizado um estudo observacional, longitudinal e retrospectivo, abrangendo pacientes diagnosticados com trombose da artéria hepática entre setembro de 1991 e dezembro de 2023 nos hospitais Nossa Senhora das Graças e Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, e Hospital Santa Isabel, em Blumenau. Os dados foram obtidos por meio da revisão de prontuários eletrônicos e protocolos institucionais. Foram analisadas diversas variáveis clínicas e cirúrgicas, incluindo idade, sexo, indicação do transplante, escore MELD, tipo de doador, tempo de isquemia fria e quente, técnica cirúrgica empregada, reconstruções vasculares, exames de imagem utilizados para diagnóstico, tratamentos instituídos, necessidade de retransplante e mortalidade. A análise estatística incluiu curvas de sobrevida pelo método de Kaplan-Meier e comparação entre grupos por testes apropriados, considerando significância estatística quando p<0,05.  

Entre os 1.362 transplantes hepáticos realizados nos três centros participantes, 35 pacientes desenvolveram trombose da artéria hepática, correspondendo a uma incidência de 2,6%, valor compatível com o descrito na literatura internacional. Houve predomínio do sexo masculino (68,6%), idade média de 48,3 anos e maior frequência de transplantes provenientes de doadores falecidos (91,4%). O tempo médio até o diagnóstico foi de 7,3 dias após o transplante, caracterizando todos os casos como trombose precoce. A maioria dos pacientes foi submetida à reconstrução venosa pela técnica piggyback, enquanto a reconstrução arterial foi considerada tecnicamente satisfatória em mais da metade dos procedimentos. Entretanto, quatro pacientes necessitaram de revisão imediata da anastomose arterial devido à ausência ou inadequação do fluxo sanguíneo durante o ato operatório.  

O estudo também identificou variações anatômicas da artéria hepática em aproximadamente 17% dos doadores, sendo a origem da artéria hepática direita na artéria mesentérica superior a alteração mais frequente. Em alguns casos, reconstruções arteriais complexas foram necessárias devido à anatomia vascular ou à presença de aterosclerose significativa. Esses achados reforçam a importância do conhecimento detalhado da anatomia arterial hepática e do domínio de técnicas de reconstrução vascular, uma vez que alterações anatômicas podem aumentar a dificuldade técnica do transplante e contribuir para o desenvolvimento da trombose.  

Em relação ao diagnóstico, a ultrassonografia com Doppler foi o principal método de rastreamento, utilizada em mais de 90% dos pacientes, permitindo identificar redução ou ausência de fluxo arterial nas fases iniciais do pós-operatório. Em aproximadamente 44% dos casos, o diagnóstico foi estabelecido nas primeiras 48 horas após o transplante. Nos casos de dúvida diagnóstica ou necessidade de melhor avaliação da viabilidade hepática, foram empregados exames complementares, principalmente angiotomografia computadorizada e, em menor frequência, angiorressonância magnética. Os autores ressaltam que a monitorização rotineira com Doppler deve ser considerada fundamental para o diagnóstico precoce da trombose, permitindo intervenção rápida antes da instalação de lesões irreversíveis do enxerto.  

Quanto ao tratamento, dezoito pacientes foram submetidos a retransplante hepático, enquanto os demais realizaram trombectomia e reconstrução arterial. Em dois casos, tentou-se inicialmente abordagem endovascular por arteriografia, porém ambos evoluíram sem sucesso terapêutico e necessitaram de tratamento cirúrgico subsequente. A análise dos resultados demonstrou tendência à menor mortalidade entre os pacientes submetidos ao retransplante, embora essa diferença não tenha atingido significância estatística. Ainda assim, os autores reforçam que o retransplante permanece como o tratamento padrão-ouro nos casos de trombose da artéria hepática, principalmente quando há falha das tentativas de revascularização ou quando já existe comprometimento isquêmico importante do enxerto.  

Entre as complicações observadas destacaram-se fístulas biliares, estenoses da anastomose biliar, episódios de colangite e coledocolitíase, além de trombose da veia porta e da veia cava inferior. A mortalidade global foi de 40%, percentual inferior ao descrito em estudos internacionais, que frequentemente relatam taxas entre 50% e 60%. Os autores também observaram que a simples avaliação intraoperatória do pulso arterial não apresentou associação significativa com mortalidade, sugerindo que métodos mais objetivos, como o Doppler intraoperatório, oferecem maior confiabilidade para avaliação da perfusão arterial durante o transplante. Além disso, a técnica de reconstrução venosa cava-cava apresentou associação com menor mortalidade na presente casuística, embora os autores ressaltem que esse resultado pode ter sido influenciado pelo reduzido tamanho da amostra e por possíveis vieses de seleção.  

Os autores reconhecem como principais limitações do estudo seu delineamento retrospectivo e o número relativamente pequeno de pacientes acometidos pela complicação. Contudo, destacam que a inclusão de três importantes centros transplantadores brasileiros, todos coordenados pela mesma equipe cirúrgica e utilizando protocolos semelhantes, contribuiu para reduzir a heterogeneidade dos dados e fortalecer a consistência dos resultados apresentados. Também ressaltam que estudos prospectivos são de difícil execução devido à baixa incidência da trombose da artéria hepática e à elevada gravidade clínica desses pacientes.  

Conclui-se que a trombose da artéria hepática permanece uma complicação devastadora do transplante hepático, associada a elevada morbidade, perda do enxerto e importante mortalidade. A realização rotineira de ultrassonografia Doppler no pós-operatório imediato é fundamental para o diagnóstico precoce, enquanto o Doppler intraoperatório pode representar uma ferramenta valiosa para auxiliar a tomada de decisão cirúrgica em casos de dúvida quanto à perfusão arterial. Apesar das alternativas de revascularização, o retransplante continua sendo o tratamento de escolha para pacientes com trombose da artéria hepática, oferecendo a melhor perspectiva de sobrevida quando realizado oportunamente. 

Autoria

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Hiago Bastos

Graduação em Medicina pela Universidade Ceuma (2016), como bolsista integral do PROUNI. Especialista em Terapia Intensiva no Programa de Especialização em Medicina Intensiva (PEMI/AMIB 2020) no Hospital São Domingos. Fellowship in Intensive Care at the Erasme Hospital (Bruxelles, Belgium). Especialista em ECMO pela ELSO. Médico plantonista na UTI II do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2016, na UTI do Hospital São Domingos desde 2018 e Coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2017. Fundador e ex-presidente da Liga Acadêmica de Medicina de Urgência e Emergências do Maranhão (LAMURGEM-MA). Experiência na área de Emergências e Terapia intensiva.

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