A fibrilação atrial (FA) é comum, com prevalência que aumenta acentuadamente com a idade e com o acúmulo de fatores de risco cardiovasculares e cardiometabólicos. A FA é um importante contribuinte para o acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico e para piora do estado de saúde, mas uma proporção substancial dos casos é assintomática ou “silenciosa”, particularmente em indivíduos idosos.
A justificativa para o rastreamento é, portanto, direta: se a FA não diagnosticada puder ser detectada, o tratamento pode ser iniciado para prevenir complicações. Apesar dos avanços tecnológicos, o benefício líquido do rastreamento sistemático permanece controverso.
As diretrizes refletem essa nuance: endossam a avaliação oportunística do pulso ou eletrocardiograma em idosos que procuram atendimento de saúde por outros motivos, mas não recomendam rastreamento sistemático universal em larga escala.
Na pesquisa e na prática clínica diária, a principal questão permanece se o rastreamento pode ser refinado para direcionar aqueles com maior probabilidade de benefício, evitando testes desnecessários em indivíduos com baixa chance de ganho clínico.
Com herdabilidade estimada de até 22% e mais de 300 loci genéticos associados, a FA possui um componente genético substancial. Estudos utilizando escores de risco poligênico (PRS) também demonstraram potencial para identificar indivíduos com risco aumentado de FA e AVC. A integração da genética, portanto, oferece uma oportunidade única e previamente inexplorada no rastreamento da FA. Nesta subanálise pré-especificada do estudo LOOP, avaliou-se a eficácia do rastreamento de acordo com o risco genético.
Métodos
O presente estudo foi uma análise pós-hoc pré-especificada do estudo LOOP, um ensaio clínico randomizado multicêntrico conduzido em quatro centros na Dinamarca. Foram incluídos 6.004 indivíduos sem FA prévia, com idade entre 70 e 90 anos, e pelo menos um fator adicional de risco para AVC (hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca ou AVC prévio). Os participantes foram randomizados na proporção 1:3 para receber monitorização contínua com monitor cardíaco implantável e início de anticoagulação após detecção de episódios de FA com duração mínima de seis minutos, ou cuidado usual.
O sequenciamento genético foi realizado por extração de DNA genômico de leucócitos do sangue periférico.
Desfechos
O desfecho primário foi um composto de AVC ou embolia sistêmica. Os desfechos secundários incluíram FA, sangramento maior e mortalidade por todas as causas.
Resultados
Dos 6.004 participantes do estudo LOOP, 5.656 apresentaram dados genéticos válidos após controle de qualidade. A idade mediana foi de 73,2 anos, e 47,2% eram mulheres.
Durante seguimento mediano de 5,4 anos, 17,1% receberam diagnóstico de FA, 17,3% iniciaram anticoagulação oral, 5,2% apresentaram AVC ou embolia sistêmica, 3,6% tiveram sangramento maior e 11,0% evoluíram para óbito.
O escore de risco poligênico (PRS) PRS para FA associou-se significativamente à FA incidente, com melhora modesta na discriminação do modelo. Houve associação significativa entre maior PRS e início de anticoagulação. As associações com AVC, sangramento maior e mortalidade foram direcionais, porém não estatisticamente significativas.
Entre os indivíduos com FA detectada por monitor implantável, maior PRS associou-se a maior probabilidade de episódios prolongados de FA.
Observou-se interação significativa entre PRS e eficácia do rastreamento para AVC/embolia sistêmica e para sangramento maior.
O rastreamento com monitor implantável reduziu significativamente o risco de AVC/embolia sistêmica apenas nos indivíduos com PRS acima da mediana, com redução absoluta de risco de aproximadamente 3% em seis anos. Nessa população, o número necessário para rastrear para prevenir um evento foi 34.
Em contraste, nos indivíduos com PRS abaixo da mediana, o rastreamento não reduziu AVC e esteve associado a aumento significativo de sangramento maior, com número necessário para causar dano de 40.
Este foi o primeiro estudo a demonstrar que a suscetibilidade genética pode modificar o benefício clínico do rastreamento da FA.
Os achados sugerem que nem toda FA detectada por rastreamento possui o mesmo significado clínico. Indivíduos com maior risco genético parecem apresentar fenótipos de FA mais relevantes, com maior carga arrítmica e maior benefício da anticoagulação. O uso do PRS permitiu identificar um subgrupo com benefício claro na prevenção de AVC, enquanto evitou dano em indivíduos com baixo risco genético.
Esses achados contrastam com estudos prévios em outras áreas cardiovasculares, nos quais intervenções mostraram benefício ao longo de todo o espectro genético. Aqui, o benefício foi claramente restrito a um subgrupo específico.
Limitações
Trata-se de uma análise pós-hoc, com natureza exploratória e, portanto, potencial para erro tipo I. Além disso, a população era composta exclusivamente por idosos de alto risco, limitando generalização. O PRS foi derivado predominantemente de populações de ancestralidade europeia. Por fim, o estudo não tem poder estatístico limitado para definir pontos de corte ideais de PRS.
Conclusões
Nesta análise pós-hoc do estudo LOOP, o rastreamento contínuo da FA com monitor implantável seguido de anticoagulação reduziu o risco de AVC apenas em indivíduos com alto risco genético para FA. Indivíduos com baixo risco genético não apresentaram benefício e tiveram maior risco de sangramento.
Ou seja, o rastreamento universal de FA em idosos não deve ser automático; a genética pode ajudar a selecionar pacientes que realmente se beneficiam. Essa subanálise ainda não justifica aplicação rotineira de PRS na prática clínica, mas fundamenta novos ensaios sobre o assunto.
Autoria

Juliana Avelar
Médica formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Cardiologista pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia
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