O controle subótimo da pressão arterial permanece como uma importante preocupação global de saúde, apesar da disponibilidade de medicamentos anti-hipertensivos eficazes. Menos da metade dos pacientes hipertensos recebe tratamento, e apenas cerca de 20% alcançam controle adequado da pressão arterial. Sabemos que estratégias tradicionais em etapas, nas quais um único agente é progressivamente titulado, podem retardar o controle da pressão arterial e aumentar o risco de reações adversas dependentes da dose, levando à baixa adesão de longo prazo.
Considerando as causas multifatoriais da hipertensão e a variabilidade individual de resposta aos anti-hipertensivos, a terapia combinada é geralmente mais eficaz do que a titulação da monoterapia, frequentemente associada a maior risco de eventos adversos. Consequentemente, diretrizes atuais recomendam o início precoce de terapia combinada, preferencialmente em comprimidos únicos, para reduzir a carga de comprimidos e melhorar a adesão.
No entanto, combinações em doses padrão ou altas podem comprometer a tolerabilidade por promoverem reduções excessivas da pressão arterial, desencorajando muitos médicos a prescrevê-las como tratamento de primeira linha, especialmente em pacientes com hipertensão leve.
A terapia combinada em baixas doses emergiu, portanto, como uma estratégia promissora de primeira linha para manejo da hipertensão. Com base em resultados encorajadores de estudos prévios de fase II, foi desenvolvida uma combinação tripla em baixa dose contendo anlodipino (1,67 mg), losartana potássica (16,67 mg) e clortalidona (4,17 mg), cada um equivalente a um terço da dose padrão, denominada LDC-ALC.

Achados
Foi publicado no JACC um artigo que apresenta os achados de dois estudos que compararam LDC-ALC com monoterapia em dose padrão como tratamento inicial para hipertensão leve a moderada.
Os estudos HM-APOLLO-301 e HM-APOLLO-302 foram estudos multicêntricos, randomizados, duplo-cegos, conduzidos na Coreia do Sul. Ambos avaliaram eficácia e tolerabilidade de LDC-ALC em comparação à monoterapia em dose padrão — 5 mg de anlodipino no estudo 301 e 50 mg de losartana no estudo 302 — na redução da PAS em pacientes com hipertensão leve a moderada.
Os critérios de elegibilidade foram praticamente idênticos entre os estudos.
Participantes com idade ≥19 anos que preenchiam critérios pressóricos na triagem eram elegíveis. Na visita de triagem, participantes previamente em uso de anti-hipertensivos deveriam apresentar PAS <180 mmHg e PAD <110 mmHg. Em indivíduos não tratados, a PAS deveria estar entre 140 e <180 mmHg e PAD <110 mmHg.
Após um período de run-in de 4 semanas com placebo, os pacientes foram randomizados para receber LDC-ALC ou anlodipino 5 mg no estudo 301, e LDC-ALC ou losartana 50 mg no estudo 302, durante 8 semanas.
Os critérios de exclusão incluíram hipertensão secundária, hipotensão ortostática sintomática, arritmias significativas, evento cerebrovascular grave nos últimos 6 meses, doença isquêmica cardíaca recente, insuficiência cardíaca NYHA III/IV, gota ativa ou hiperuricemia, gestação ou lactação.
Participantes eram retirados do estudo caso desenvolvessem PAS ≥180 mmHg, PAD ≥110 mmHg ou PAS <100 mmHg após randomização.
O desfecho primário foi a mudança média da PAS entre o basal e a semana 8.
As características basais foram semelhantes entre os grupos, exceto por maior proporção de mulheres e menor IMC no grupo anlodipino do estudo 301. A PAS basal foi aproximadamente 151 mmHg em todos os grupos.
No HM-APOLLO-301, LDC-ALC foi comparada ao anlodipino 5 mg. A redução da PAS foi semelhante entre os grupos (−19,1 versus −19,9 mmHg), confirmando não inferioridade, sem diferença significativa em controle pressórico ou tolerabilidade.
No HM-APOLLO-302, LDC-ALC foi comparada à losartana 50 mg e demonstrou superioridade, com maior redução da PAS (−19,9 versus −16,4 mmHg), maior redução da PAD e maior taxa de controle pressórico <140/90 mmHg.
O perfil de segurança foi favorável em ambos os estudos, com baixa taxa de descontinuação, ausência de aumento relevante de edema periférico e raros eventos adversos graves.
Análises exploratórias sugeriram maior benefício relativo em mulheres, pacientes com IMC <25 kg/m², PAS basal <160 mmHg e indivíduos previamente tratados.
O principal mérito dos estudos HM-APOLLO é fornecer evidência de fase III para uma estratégia de combinação tripla em dose ultrabaixa em comprimido único, alinhando-se às diretrizes contemporâneas que favorecem terapia combinada precoce. O racional farmacológico é sólido: pequenas doses de múltiplas drogas tendem a produzir efeito anti-hipertensivo aditivo com menor carga de efeitos colaterais.
Outro ponto forte é o desenho metodológico robusto, com randomização, duplo-cego, comparadores ativos e análise hierárquica formal de não inferioridade seguida de superioridade. A inclusão de clortalidona também merece destaque, considerando sua potência anti-hipertensiva e evidências históricas em redução de eventos cardiovasculares.
Entretanto, alguns aspectos limitam a extrapolação clínica. O primeiro é a curta duração do seguimento. O estudo demonstra eficácia anti-hipertensiva em oito semanas, mas não responde se essa estratégia mantém eficácia, adesão e tolerabilidade no longo prazo. Tampouco avalia impacto em desfechos clínicos relevantes, como AVC, insuficiência cardíaca ou mortalidade cardiovascular.
Além disso, o comparador utilizado no estudo 302 provavelmente favoreceu a estratégia combinada. Losartana 50 mg isoladamente possui potência anti-hipertensiva inferior à de anlodipino 5 mg e inferior à de combinações contendo diurético tiazídico. Assim, a superioridade observada frente à losartana não necessariamente implica superioridade frente às estratégias atualmente mais utilizadas em diretrizes, como combinação dupla padrão em dose baixa.
Outro ponto importante é que o estudo comparou combinação tripla ultrabaixa com monoterapia, e não com terapia dupla padrão, que hoje representa a abordagem inicial recomendada para muitos pacientes hipertensos. Portanto, ainda permanece em aberto se essa estratégia seria superior, equivalente ou mais tolerável do que combinações duplas convencionais.
A população exclusivamente coreana também limita generalização externa, especialmente considerando diferenças étnicas na resposta anti-hipertensiva.
Conclusão
Do ponto de vista prático, os dados fortalecem o conceito de “polipílula” como estratégia potencial para melhorar adesão e ampliar controle pressórico populacional, especialmente em cenários de baixa adesão terapêutica. Ainda assim, antes de ampla incorporação clínica, seriam desejáveis estudos maiores, mais longos e comparando LDC-ALC com combinações duplas padrão recomendadas pelas diretrizes atuais.
Autoria

Juliana Avelar
Médica formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Cardiologista pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia
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