Por que o TARGET-CTCA é importante? Este foi um dos assuntos debatidos durante o congresso da European Society of Cardiology (ESC 2026), em Munique, na Alemanha.
Em relação à avaliação de dor torácica no pronto-socorro, o estudo TARGET-CTCA avaliou se valeria a pena realizar angiotomografia de coronárias em pacientes nos quais o infarto foi descartado, mas que ainda apresentavam risco intermediário.
Essa é uma dúvida relevante porque parte desses pacientes retorna ao serviço de saúde ou evolui com eventos posteriores, mesmo após a exclusão inicial de infarto.
O estudo investigou se identificar doença coronária por angiotomografia e ajustar o tratamento a partir desse achado poderia reduzir morte cardíaca ou infarto.
Como foi conduzido o estudo?
O TARGET-CTCA randomizou 3.170 pacientes com dor torácica e risco intermediário, definido com base nos resultados da troponina, para receber tratamento padrão ou realizar angiotomografia de coronárias.
Pacientes que apresentavam doença leve a moderada pelo exame recebiam tratamento de prevenção secundária.
Já aqueles com doença obstrutiva, além da prevenção secundária, eram encaminhados para reavaliação ambulatorial.
O protocolo do estudo descreve o TARGET-CTCA como um ensaio multicêntrico, prospectivo, randomizado, aberto e com avaliação cega de desfechos, desenhado para testar se a angiotomografia reduziria infarto do miocárdio ou morte cardíaca após a exclusão de infarto na apresentação inicial.
O que a angiotomografia encontrou?
Entre os pacientes submetidos à angiotomografia, 65% tinham doença coronária.
A doença foi classificada como:
- leve a moderada em 42%;
- grave em 23%.
Esses achados mostram que a angiotomografia identificou uma proporção relevante de doença coronária em pacientes com dor torácica, infarto descartado e risco intermediário.
A angioTC reduziu morte ou infarto?
Apesar de identificar doença coronária em muitos pacientes, a ocorrência de morte ou infarto não foi diferente entre aqueles que realizaram angiotomografia e aqueles que seguiram tratamento padrão.
Assim, no grupo estudado, realizar angiotomografia de forma rotineira não parece ter reduzido eventos clínicos.
Como interpretar os achados?
O TARGET-CTCA sugere que a angiotomografia de coronárias pode identificar doença coronária em pacientes com dor torácica de risco intermediário após exclusão de infarto, mas essa identificação não necessariamente se traduz em redução de morte ou infarto.
Do ponto de vista prático, isso pode ajudar a simplificar o seguimento desses pacientes, evitando exames adicionais de rotina quando não há evidência clara de benefício clínico.
Do ponto de vista de saúde pública, os achados também podem contribuir para reduzir custos e uso de recursos, desde que a decisão seja contextualizada conforme risco clínico, sintomas persistentes e disponibilidade local.
Mensagem prática
Em pacientes com dor torácica no pronto-socorro, infarto descartado e troponina em faixa de risco intermediário, o TARGET-CTCA mostrou que a angiotomografia de coronárias identificou doença coronária em parte relevante dos casos.
No entanto, a estratégia não reduziu morte cardíaca ou infarto em comparação ao tratamento padrão.
Na prática, o estudo sugere que a angioTC não deve ser incorporada de forma automática para todos os pacientes desse perfil. A indicação deve ser individualizada, considerando sintomas persistentes, probabilidade pré-teste de doença coronária, risco clínico, acesso ao exame e impacto esperado na conduta.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
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