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Cardiologia5 agosto 2026

Reabilitação cardíaca em casa reduz ansiedade após doença coronariana

Estudo avaliou reabilitação cardíaca domiciliar após doença coronariana e mostrou melhora da qualidade de vida e da ansiedade.
Por Ivson Braga

A reabilitação cardíaca constitui uma estratégia fundamental de prevenção secundária após a ocorrência de eventos coronarianos.

Entretanto, a participação em programas presenciais permanece limitada para muitos pacientes, sobretudo em razão de dificuldades relacionadas ao transporte, à distância até os centros especializados, aos custos envolvidos e à incompatibilidade entre os horários disponíveis e a rotina individual.

Como foi conduzido o estudo?

Em um ensaio clínico randomizado, foram avaliados os efeitos de um programa domiciliar de reabilitação cardíaca coordenado por enfermeiros em pacientes com doença arterial coronariana.

O estudo, publicado no BMJ Open, avaliou qualidade de vida relacionada ao coração, comportamentos de saúde cardiovascular e ansiedade cardíaca em pacientes com doença arterial coronariana.

Participaram 120 adultos com angina, infarto com supradesnivelamento do segmento ST ou infarto sem supradesnivelamento do segmento ST, submetidos à intervenção coronária percutânea ou ao tratamento clínico.

Os participantes foram randomizados para receber a intervenção domiciliar ou os cuidados habituais.

O que incluía o programa domiciliar?

O programa domiciliar de reabilitação cardíaca foi desenvolvido ao longo de 24 semanas e teve início durante a própria internação.

Foi conduzido principalmente por um pesquisador e por um profissional de enfermagem treinado, com participação médica durante os atendimentos presenciais.

Na primeira fase, a enfermagem avaliava os fatores de risco cardiovascular de cada participante e fornecia orientações individualizadas sobre alimentação, atividade física, controle do peso, uso adequado dos medicamentos, cessação do tabagismo e controle da ansiedade.

Os pacientes também receberam um livreto educativo e um calendário com as datas previstas para o seguimento.

Entre a primeira e a décima segunda semana após a alta, o acompanhamento incluiu consultas presenciais e contatos telefônicos periódicos.

Na consulta inicial, os participantes eram orientados sobre a realização de exercícios e atividades físicas no ambiente domiciliar e recebiam um plano individualizado para o primeiro mês.

Além disso, aprendiam a utilizar um oxímetro de pulso durante as caminhadas para monitorar a frequência cardíaca e alcançar, com segurança, a meta definida.

As orientações eram continuamente reforçadas por telefone, mensagens de texto e WhatsApp.

Da décima terceira à vigésima quarta semana, o seguimento prosseguiu por meio de novas consultas presenciais e ligações telefônicas.

O grupo controle recebeu as orientações habituais de alta e uma cópia do material educativo, mas não participou do acompanhamento estruturado.

Quais foram os principais resultados?

Ao longo dos seis meses de acompanhamento, a reabilitação cardíaca domiciliar foi associada a melhora progressiva da qualidade de vida e dos comportamentos de saúde cardiovascular, além de redução expressiva da ansiedade cardíaca.

No início do estudo, os escores de qualidade de vida eram semelhantes entre os grupos, com médias de 106,70 ± 19,96 no controle e de 103,08 ± 21,47 na intervenção, diferença de −3,62 pontos (IC 95%: −11,10 a 3,90).

Aos 90 dias, o grupo de reabilitação domiciliar apresentou média de 165,15 ± 14,16, em comparação com 128,46 ± 19,09 no grupo controle, correspondendo a diferença de 36,69 pontos (IC 95%: 30,60 a 42,80).

Aos 180 dias, a superioridade da intervenção foi mantida, com escores de 172,66 ± 15,08 e 141,95 ± 25,18, respectivamente, e diferença média de 30,71 pontos (IC 95%: 22,90 a 38,50; p < 0,001 para a interação grupo-tempo).

Nos comportamentos de saúde cardiovascular, os valores iniciais também foram próximos, com médias de 39,48 ± 11,37 no grupo controle e de 41,06 ± 9,76 no grupo de intervenção, diferença de 1,58 ponto (IC 95%: −2,10 a 5,30).

Após 90 dias, os escores foram de 42,70 ± 10,76 e 62,65 ± 8,31, respectivamente, com diferença média de 19,95 pontos (IC 95%: 16,50 a 23,40).

Aos 180 dias, o controle alcançou 45,53 ± 9,87 pontos, enquanto a intervenção atingiu 65,13 ± 8,27, uma diferença de 19,60 pontos (IC 95%: 16,20 a 23,00; p < 0,001).

A ansiedade cardíaca apresentou evolução oposta.

Na avaliação basal, os escores foram de 30,21 ± 13,62 no grupo controle e de 31,48 ± 15,28 no grupo de intervenção, diferença de 1,27 ponto (IC 95%: −3,90 a 6,40).

Aos 90 dias, a média foi de 35,58 ± 10,20 no controle e de 21,18 ± 10,93 na reabilitação domiciliar, com diferença de −14,40 pontos (IC 95%: −18,20 a −10,60).

Aos 180 dias, os valores foram de 30,35 ± 6,24 e 11,63 ± 6,75, respectivamente, correspondendo a diferença média de −18,72 pontos (IC 95%: −21,00 a −16,40; p < 0,001).

Do início ao sexto mês, o grupo de intervenção apresentou aumento de 69,58 pontos na qualidade de vida.

Os comportamentos de saúde cardiovascular aumentaram de 41,06 para 65,13 pontos, um ganho de 24,07 pontos, enquanto a ansiedade cardíaca diminuiu de 31,48 para 11,63 pontos, com redução de 19,85 pontos.

Ao final do seguimento, havia dados disponíveis de 57 participantes no grupo de intervenção e de 53 no grupo controle.

O que mostra o infográfico do estudo?

O infográfico da página 3 resume o estudo como um ensaio clínico randomizado, paralelo e simples-cego, realizado em um hospital público terciário em Lahore, no Paquistão, com seguimento de 24 semanas.

A imagem destaca que foram incluídos 120 pacientes, distribuídos em 60 no grupo de reabilitação cardíaca domiciliar e 60 no grupo controle. A análise final contou com 57 participantes no grupo intervenção e 53 no grupo controle.

O material visual também reforça os três principais resultados aos seis meses: maior qualidade de vida no grupo intervenção, melhores comportamentos de saúde e menor ansiedade cardíaca. O infográfico ainda sinaliza ausência de dano físico relacionado à intervenção e menor número de visitas de emergência por motivos não cardíacos no grupo de reabilitação domiciliar.

Quais são as limitações?

Embora o estudo não tenha sido delineado para demonstrar redução de desfechos cardiovasculares maiores, o programa domiciliar de reabilitação cardíaca, conduzido de forma sistemática e estruturada, foi associado à melhora da qualidade de vida e à redução da ansiedade.

A interpretação desses resultados deve considerar limitações relacionadas à realização do estudo em um único centro e ao uso de questionários autorreferidos, suscetíveis a vieses de memória e de percepção.

Ainda assim, os achados oferecem fundamento clínico relevante para valorizar essa modalidade de acompanhamento, sobretudo por seu potencial de ampliar o acesso à reabilitação cardíaca após a alta hospitalar.

Mensagem prática

A reabilitação cardíaca domiciliar pode ser uma estratégia viável para ampliar o acesso à prevenção secundária após doença coronariana, especialmente quando há barreiras ao comparecimento presencial.

Neste ensaio clínico, um programa estruturado, conduzido por enfermagem e iniciado ainda na internação, melhorou qualidade de vida, comportamentos de saúde cardiovascular e ansiedade cardíaca em seis meses.

Os resultados não demonstram redução de eventos cardiovasculares maiores, mas sustentam o valor clínico de modelos domiciliares estruturados, acompanhados e integrados ao cuidado pós-alta.

Autoria

Foto de Ivson Braga

Ivson Braga

Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Residência em Cardiologia pela Universidade de Pernambuco (UPE). Professor universitário e coordenador da Residência em Cardiologia.

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