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Cardiologia8 junho 2026

Preferências do tratamento anti-hipertensivo em idosos

Hipertensão em idosos exige equilibrar meta pressórica intensiva, fragilidade, quedas e monitorização digital para reduzir inércia terapêutica.
Por Juliana Avelar

Recentemente foi publicado no JACC um estudo que avaliou quais fatores influenciam a decisão médica de intensificar o tratamento anti-hipertensivo em idosos com pressão arterial não controlada, utilizando um discrete choice experiment (DCE) com médicos australianos. Foram apresentados cenários clínicos hipotéticos envolvendo pacientes ≥65 anos, variando conforme idade, fragilidade, histórico de quedas, risco cardiovascular residual e disponibilidade de monitorização digital de saúde. Os médicos deveriam escolher entre uma estratégia de controle pressórico intensivo (PAS ≤130 mmHg) ou padrão (PAS 131–150 mmHg). 

Senior, man and nurse with blood pressure machine in hospital with arm pump for exam. Elderly, male person or caregiver monitoring health on screening for hypertension, medical checkup or assessment.

Métodos 

Participaram 197 médicos, predominantemente clínicos gerais (74%), com média de 7,6 anos de experiência. Globalmente, houve preferência pela meta pressórica intensiva (RR: 2,70), mas essa tendência reduzia progressivamente conforme aumentavam idade, fragilidade e risco de quedas do paciente. 

A idade exerceu forte impacto na decisão terapêutica. Comparado a um paciente de 65 anos, a chance de optar por tratamento intensivo caiu substancialmente em pacientes de 75 anos e ainda mais em indivíduos de 80 anos. Da mesma forma, histórico recente de queda e fragilidade moderada reduziram significativamente a probabilidade de intensificação terapêutica. 

Resultados 

Um achado particularmente interessante foi o impacto da monitorização digital. A disponibilidade de dados digitais — incluindo monitorização residencial da pressão arterial e dados relacionados a mobilidade e risco de quedas — aumentou significativamente a probabilidade de os médicos escolherem metas pressóricas mais intensivas. 

A análise de classes latentes identificou dois perfis distintos de prescritores. O primeiro grupo (“risk-tolerant, digitally engaged”, 64%) apresentava maior propensão a metas intensivas e era mais influenciado pela disponibilidade de dados digitais. O segundo (“risk-averse”, 36%) mostrava menor tendência à intensificação terapêutica, especialmente diante de fragilidade e quedas, além de não modificar conduta com acesso a dados digitais. 

Outro aspecto relevante foi a influência da carga de comprimidos. Entre os médicos favoráveis à estratégia intensiva, 46% afirmaram que só adotariam essa abordagem se fosse possível manter o tratamento com no máximo dois comprimidos, reforçando o potencial das combinações fixas em comprimido único para reduzir inércia terapêutica e melhorar adesão. 

Na discussão, os autores destacam que os resultados evidenciam importante lacuna entre evidência e prática clínica. Apesar de estudos como SPRINT e ESPRIT demonstrarem benefício do controle intensivo da pressão arterial mesmo em idosos frágeis, muitos médicos continuam evitando intensificação terapêutica por receio de eventos adversos, especialmente quedas e hipotensão. 

O grande mérito desse estudo é abordar a hipertensão não apenas como problema farmacológico, mas também comportamental e decisório. Embora diretrizes e ensaios clínicos tenham avançado substancialmente em favor de metas pressóricas mais intensivas em idosos selecionados, a implementação prática permanece limitada por fatores subjetivos relacionados à percepção de risco do prescritor. 

A última Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025, por exemplo, passou a recomendar alvo pressórico <130/80 mmHg para a maioria dos pacientes idosos, inclusive em faixas etárias mais avançadas, desde que haja boa tolerabilidade clínica.  

O estudo mostra que fragilidade, idade avançada e histórico de quedas continuam funcionando como gatilhos cognitivos de “desintensificação”, mesmo diante de evidências robustas sugerindo benefício cardiovascular do tratamento intensivo em muitos desses pacientes.  

Outro ponto extremamente relevante é o papel potencial da saúde digital como modulador de comportamento médico. O acesso a dados contínuos de pressão arterial, mobilidade e risco de quedas parece reduzir a percepção subjetiva de insegurança terapêutica. O estudo também reforça indiretamente o racional das combinações fixas em comprimido único (single-pill combinations). Quase metade dos médicos só aceitaria intensificação se a carga de comprimidos permanecesse baixa, sugerindo que simplificação terapêutica pode ser tão importante quanto eficácia farmacológica. 

Entretanto, algumas limitações merecem destaque. Trata-se de um discrete choice experiment, método útil para avaliar preferências, mas incapaz de reproduzir integralmente comportamento real de prescrição. Existe risco importante de viés de desejabilidade social, além de discrepância entre intenção declarada e prática clínica efetiva. 

A população foi predominantemente composta por clínicos gerais australianos relativamente jovens, o que reduz generalização para outros sistemas de saúde e para especialistas com maior experiência em hipertensão complexa ou geriatria cardiovascular. 

Além disso, o estudo avalia “preferências” e não desfechos clínicos. Portanto, não demonstra que monitorização digital efetivamente melhora controle pressórico ou reduz eventos cardiovasculares — apenas sugere que pode modificar comportamento médico. Essa hipótese ainda necessita validação em estudos pragmáticos randomizados. 

Conclusão 

O artigo traz uma contribuição importante ao demonstrar que a principal barreira ao tratamento intensivo da hipertensão em idosos talvez não seja ausência de evidência, mas sim percepção de risco, incerteza clínica e dificuldades de monitorização. Nesse contexto, estratégias digitais integradas ao cuidado podem representar ferramenta relevante para reduzir inércia terapêutica e aproximar prática clínica das evidências atuais. 

Autoria

Foto de Juliana Avelar

Juliana Avelar

Médica formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Cardiologista pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia

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