Cerca de metade dos casos de pacientes hospitalizados com insuficiência cardíaca têm insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEP), representando um problema de saúde pública. O tratamento tem mudados com a inclusão de novas medicações que reduzem desfechos combinados de hospitalização e morte cardiovascular (como os inibidores da SGLT2 e a Finerenona). Além dos avanços do tratamento, outro aspecto importante é reconhecer seus fenótipos com seus diferentes prognósticos. Publicado recentemente um modelo de predição de risco de ICFEP, o LIFE-Preserved model com o objetico de identificar pacientes com maior risco de ICFEP com maior potencial de benefício de estratégias preventivas e terapêuticas (Risk prediction in patients with heart failure with preserved ejection fraction: the LIFE-Preserved model | European Heart Journal | Oxford Academic).
O LIFE-Preserved estima o risco individual de hospitalização por insuficiência cardíaca ou morte cardiovascular em pacientes com ICFEP. Foi construído usando variáveis clínicas rotineiras em uma base de mundo real e avaliado quanto ao seu poder de discriminação e calibração. A coorte de derivação utilizou o registro sueco SwedeHF enquanto a de validação externa fez uso de duas coortes de ensaios clínicos (EMPEROR-Preserved e TOPCAT-Americas) e três registros (NHS England Secure Data Environment, Veterans Affairs (VA) e HF-Particles). Foram selecionados 14 preditores: idade, sexo, diabetes, fibrilação atrial, tabagismo atual, hospitalização prévia por insuficiência cardíaca, DPOC, classe funcional NYHA, doença isquêmica, NT-proBNP, IMC, frequência cardíaca, hemoglobina e taxa de filtração glomerular estimada (TFGe).
Na coorte de derivação foram incluídos 20.332 pacientes com idade entre 40 e 90 anos, fração de ejeção do ventrículo esquerdo ≥ 50%, sem registro anterior de FEVE <50%. Na validação externa, o desempenho foi testado em 41.622 pacientes com ICFEP, com diferentes perfis clínicos e contextos assistenciais. A idade mediana na coorte de derivação foi mais elevada: 80 anos nas mulheres e 77 anos nos homens. O desfecho primário foi um composto de primeira hospitalização por insuficiência cardíaca ou morte cardiovascular, analisado até o primeiro evento.
A morte não cardiovascular foi tratada como evento competitivo.
Durante o seguimento, ocorreram 9.341 primeiros eventos de hospitalização por insuficiência cardíaca ou morte cardiovascular (46% da coorte de derivação). Na validação externa, houve 15.035 eventos entre 41.622 pacientes com ICFEP. O modelo mostrou desempenho globalmente consistente em diferentes cenários. A discriminação combinada foi de 0,714 nos ensaios clínicos e de 0,658 nos registros. O modelo manteve resultado semelhante em homens e mulheres.
Na análise interna, o C-statistic foi de 0,732 para o desfecho primário. A concordância entre risco previsto e incidência observada foi adequada na coorte de derivação e também em parte das bases externas (VA, TOPCAT-Americas e HF-Particles). Nos bancos EMPEROR-Preserved e NHS England SDE, o modelo inicialmente superestimou o risco, porém essa diferença foi corrigida após recalibração.
Escores de estratificação de risco de ICFEP anteriores avaliaram principalmente o risco à curto e médio prazos (até 3 anos) de evolução para ICFEP. De forma mais ampla, o LIFE-Preserved model oferece tanto predições de curto prazo quanto do risco ao longo da vida. Se implementada na prática clínica, diante de toda a heterogeneidade dos fenótipos de ICFEP, essa ferramenta, quando alinhada ao julgamento clínico, poderá ajudar na identificação precoce pacientes nos quais a priorização terapêutica poderá trazer maior benefício prognóstico. O fato de o modelo ter sido desenvolvido com dados de mundo real e testado em diferentes países e contextos, mostra sua viabilidade de aplicação.
Autoria
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.