Diretrizes, artigos, livros… Se você conseguiu ler 10% de tudo o que foi publicado sobre infarto agudo do miocárdio (IAM) no último ano, parabéns: é quase um feito sobre-humano.
Em meio a esse enorme volume de informação, alguns temas acabam ficando em segundo plano. Um deles é o infarto de ventrículo direito (VD) — o “outro lado” do infarto.
Infarto de ventrículo direito: é raro?
Existe um mito comum de que o IAM acomete apenas o ventrículo esquerdo. No entanto, a literatura mostra que o infarto de VD está presente em:
- 30% a 50% dos infartos de parede inferior
Ou seja, é muito mais comum do que se imagina.
Quando suspeitar?
Diante de um IAM inferior no eletrocardiograma, a conduta deve ser imediata:
Realizar derivações direitas
- Especialmente V3R e V4R
Critério diagnóstico
- Supradesnivelamento do ST ≥ 1 mm
- Principalmente em V4R
Esse achado sugere fortemente acometimento do ventrículo direito.
Importância clínica
O infarto de VD não é apenas um achado eletrocardiográfico.
Está associado a:
- Maior morbidade
- Maior mortalidade intra-hospitalar
Existe alguma pista clínica?
Sim, a chamada tríade clássica:
Tríade do infarto de VD
- Turgência jugular
- Hipotensão arterial
- Ausência de congestão pulmonar
Alta especificidade (~96%)
Porém, está presente em apenas 25% dos pacientes.
Portanto, o diagnóstico depende principalmente do eletrocardiograma.
Manejo: o que muda na prática?
O ponto-chave é entender a fisiologia do ventrículo direito.
VD é volume-dependente
Seu desempenho depende diretamente do retorno venoso.
Condutas que devem ser evitadas
- Nitratos
- Diuréticos
Ambos reduzem o retorno venoso e podem precipitar choque grave.
E a morfina?
- Não é formalmente contraindicada
- Deve ser usada com cautela
Reposição volêmica: pode?
Sim — e muitas vezes é necessária.
Indicação
- Hipotensão
- Sinais de baixo débito
Condição
- Ausência de congestão pulmonar
A expansão volêmica melhora o débito cardíaco no VD.
Prognóstico
Apesar da gravidade inicial:
- O VD costuma manter viabilidade miocárdica
- Prognóstico a longo prazo pode ser favorável
Desde que o manejo seja adequado.
Conclusão
O infarto de ventrículo direito é comum, subdiagnosticado e potencialmente grave.
- Deve ser sempre investigado no IAM inferior
- O ECG com derivações direitas é essencial
- O manejo difere significativamente do IAM clássico
Reconhecer esse padrão pode mudar o prognóstico e salvar vidas.
Autoria

Ronaldo Gismondi
Editor-chefe médico da Afya RJ ⦁ Pós-doutorado em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Coordenador da Cardiologia do Niterói D’Or ⦁ Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF)
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