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Cardiologia9 julho 2026

Manejo antitrombótico na dengue com plaquetopenia

Manejo antitrombótico na dengue exige avaliar plaquetas, sangramento ativo e risco trombótico para definir suspensão ou manutenção.
Por Ivson Braga

Imagine o seguinte cenário clínico: paciente de 44 anos, com diagnóstico recente de IAM e angioplastia na porção proximal da artéria descendente anterior, já de alta e em uso de dupla antiagregação plaquetária. Na primeira semana após a alta, desenvolve febre alta súbita, cefaleia, mialgia e exantema. No 6º dia, evolui com equimoses e procura o serviço de emergência. Os exames confirmam dengue e mostram plaquetopenia de 50.000/mm³.

O que fazer quanto à estimativa de risco de sangramento? Devemos suspender a dupla antiagregação, apesar do alto risco trombótico pela angioplastia recente?

Por que a dengue complica o manejo antitrombótico?

O manejo da anticoagulação e da antiagregação em pacientes com dengue associada à plaquetopenia é desafiador, pois as evidências disponíveis ainda são insuficientes e não existem ensaios clínicos randomizados relevantes sobre o tema. Para ajudar nesse cenário, recentemente foi publicado o Posicionamento sobre o Manejo de Antitrombóticos e Anticoagulantes em Dengue – 2026, nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia.

Saiba mais: Manejo da dengue em pacientes que usam antitrombóticos e antiagregantes

Quais fatores aumentam o risco hemorrágico na dengue?

Sobre a dengue, alguns pontos importantes são lembrados:

  1. Existem três fases clínicas: febril, crítica e recuperação. A fase crítica é a que está associada ao maior risco de choque e sangramentos.
  2. O risco de sangramentos é justificado por três fatores: trombocitopenia, disfunção plaquetária e lesão endotelial, relacionada à inflamação sistêmica mediada por citocinas inflamatórias.
  3. O risco hemorrágico é maior entre o terceiro e o sétimo dia da infecção.
  4. O risco de complicações vai além de sangramentos. Existe aumento do risco cardiovascular, incluindo miocardite, arritmias, distúrbios de condução e insuficiência cardíaca.
  5. Na avaliação laboratorial, o posicionamento reforça a importância de seriar hemograma, transaminases, função renal e testes de coagulação. Plaquetopenia importante, leucopenia e aumento do hematócrito são marcadores associados à gravidade da doença. O teste de antígeno NS1 é ferramenta útil para confirmação diagnóstica precoce, especialmente nos primeiros dias da infecção.

Como manejar antiplaquetários na dengue?

Na prática, a grande dificuldade é equilibrar o risco de sangramento com o receio de trombose, especialmente nos pacientes submetidos recentemente à angioplastia.

Pacientes com histórico recente de angioplastia com stent há menos de 30 dias representam o grupo de maior risco trombótico. Nesses casos, recomenda-se manter dupla antiagregação diante de plaquetopenia acima de 30.000/mm³, dando-se preferência ao clopidogrel como inibidor de P2Y12.

Já em indivíduos com angioplastia com stent implantado há mais de 30 dias, pode-se suspender o AAS e manter apenas o inibidor de P2Y12 no caso de plaquetopenia entre 30.000 e 100.000/mm³.

Saiba mais: Terapia antitrombótica na dengue: como manejar?

Como manejar anticoagulantes na dengue?

Em pacientes que usam anticoagulantes, o posicionamento recomenda manter anticoagulação apenas quando não houver sangramento ativo e a plaquetometria estiver acima de 50.000/mm³.

Em indivíduos de alto risco trombótico, como portadores de prótese valvar mecânica, fibrilação atrial com CHA2DS2-VASc elevado ou trombo recente, os autores sugerem substituição temporária dos anticoagulantes orais por heparina não fracionada quando as plaquetas estiverem entre 30.000 e 50.000/mm³. Essa recomendação se baseia na reversibilidade mais rápida e na menor meia-vida da heparina.

O que fazer em caso de sangramento?

No caso de sangramentos moderados ou graves, a recomendação é indicar internação, suspensão imediata dos antitrombóticos e correção de distúrbios associados.

No caso da varfarina, deve-se promover a reversão com complexo protrombínico e vitamina K. No caso dos anticoagulantes diretos, quando disponíveis, recomenda-se o uso de antídotos específicos, como idarucizumabe para dabigatrana e andexanet alfa para inibidores do fator Xa.

Quando reintroduzir antitrombóticos?

O posicionamento orienta que antiplaquetários e anticoagulantes sejam reintroduzidos na fase de recuperação clínica, após estabilização hemodinâmica, ausência de sangramento e recuperação adequada da contagem plaquetária.

O artigo ainda cita o potencial uso de métodos viscoelásticos, como ROTEM, para auxiliar decisões em pacientes complexos e de alto risco trombótico.

Mensagem prática

A estratificação de risco hemorrágico e o manejo clínico de pacientes em uso de antitrombóticos não são simples e exigem avaliação individualizada. De forma geral, a contagem plaquetária isoladamente não deve ser utilizada como único critério decisório.

Situações de maior gravidade, como sangramento moderado a importante ou plaquetopenia < 30.000/mm³, representam cenários de alto risco hemorrágico e geralmente indicam suspensão temporária da terapia antitrombótica, independentemente do risco trombótico basal.

Por outro lado, em pacientes sem sangramento ativo e com plaquetas > 50.000/mm³, recomenda-se manutenção da anticoagulação. Já nos indivíduos com plaquetas > 100.000/mm³, em geral é possível manter a terapia antiagregante plaquetária.

Autoria

Foto de Ivson Braga

Ivson Braga

Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Residência em Cardiologia pela Universidade de Pernambuco (UPE). Professor universitário e coordenador da Residência em Cardiologia.

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