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Cardiologia1 junho 2021

Já ouviu falar em marca-passo com estimulação do feixe de His?

Já ouviu falar em marca-passo estimulação do feixe de His? Nesse post faremos uma breve revisão sobre o assunto.A busca por uma estimulação fisiológica teve várias etapas ao longo do tempo, inicialmen…

Já ouviu falar em marca-passo estimulação do feixe de His? Nesse post faremos uma breve revisão sobre o assunto.

A busca por uma estimulação fisiológica teve várias etapas ao longo do tempo, inicialmente por meio de dispositivos que permitiam a manutenção do sincronismo atrioventricular, pela ativação do átrio e ventrículo de forma sequencial no intervalo adequado para o enchimento ventricular, tal como se observa no marcapasso bicameral em modo DDD. A incorporação de biossensor para ajuste automático da frequência cardíaca já na década de 80, indicado pela letra R no código NGB (p.ex.: modo VVIR e DDDR) permitiu o aumento da FC com o esforço, em casos de incompetência cronotrópica.

Na era da ressincronização cardíaca, as consequências deletérias da ativação no bloqueio de ramo esquerdo e da estimulação convencional do VD (apical), com QRS largo, ficaram evidentes após vários estudos, por causar dissincronia e induzir disfunção ventricular, ou piorar a disfunção ventricular preexistente. Lembrando que quando o marca-passo é colocado no VD, ele gera um padrão de bloqueio de ramo esquerdo (vide figuras abaixo):

Portanto, o marcapasso bicameral convencional, em modo DDD, mantém o sincronismo AV, porém, a estimulação ventricular geralmente é realizada por meio de eletrodo implantado na região apical ou septo do VD, o que causa dissincronia elétrica e mecânica.

Como consequências, estratégias de programação têm sido desenvolvidas para minimizar a estimulação do VD, como algoritmos que aumentam o intervalo AV (IAV), permitindo que o marca-passo opere estimulando o átrio, com estimulação ventricular de backup (AAI⇔DDD). Porém, o IAV muito largo pode gerar dissincronia atrioventricular e, em casos com BAV 2º ou 3º permanente, a estimulação ventricular será necessária. Ademais, redução em desfechos duros não tem sido observado com esta estratégia.

Em pacientes com insuficiência cardíaca sintomática e tratamento medicamentoso otimizado, fração de ejeção ≤ 35% e ECG com QRS largo, a terapia de ressincronização cardíaca proporciona, de forma bem estabelecida, melhora clínica e redução de mortalidade. A estimulação biventricular é normalmente obtida com um eletrodo de estimulação endocárdica no ventrículo direito e um eletrodo epicárdico situado no ventrículo esquerdo, em uma veia coronária, acessível pelo seio coronário. Entretanto, esta terapia apresenta limitações, como ausência de boa resposta em cerca de 30% dos pacientes, que são considerados “não respondedores”, bem como insucesso em cateterizar o seio coronário e posicionar o eletrodo de VE em posição adequada pela anatomia desfavorável, estimulação frênica e benefícios clínicos duvidosos em pacientes com QRS mais não tão largos ou com padrão de bloqueio de ramo direito. Exemplo de ECG com QRS mais estreito que o esperado para um ritmo de marca-passo:

A estimulação de His foi proposta como uma forma mais fisiológica de estimulação ventricular, que pode ser usada como alternativa à estimulação convencional do VD ou à ressincronização (marca-passo biventricular). Na estimulação de His, um eletrodo com desenho específico (eletrodo de fixação ativa com screw longo) penetra no feixe de His, o que permite a estimulação de suas fibras, e o estímulo é conduzido através do sistema nativo de His-Purkinje, proporcionando um QRS estreito com eixo elétrico e morfologia mais próximo do normal. A figura abaixo serve para relembrar onde fica o feixe de His:

A captura do feixe His pode ser seletiva ou não seletiva. Na captura seletiva apenas as fibras do feixe de His são estimuladas e a ativação ocorre diretamente por meio do sistema His-Purkinje. Durante a captura seletiva, no ECG se observa um retardo (intervalo isoelétrico) entre a espícula e o complexo QRS. Com a captura não seletiva, tanto as fibras do feixe de His quanto o miocárdio local são capturados. Nesta forma de captura, uma pseudo onda delta no ECG de superfície é observada.

Ensaios clínicos estão avaliando os benefícios desta terapia, seja como alternativa a estimulação convencional do VD, seja como alternativa ou associada à terapia de ressincronização.

Resultados de estudos pequenos com estimulação de His têm sido publicados. O His-SYNC, 1º estudo randomizado, contou com 41 pacientes não demonstrou melhora significante com a estimulação de His (His-P) quando comparada à estimulação biventricular, porém um erro tipo II não pode ser excluído (pela amostra pequena). Pacientes que receberam His-P apresentaram maiores limiares de estimulação e tendência a maior redução na duração do QRS.

Recentemente, o His-Alternative Trial randomizou 50 pacientes com indicação de terapia de ressincronização, para implante de HIS-P ou marca-passo biventricular, como primeira estratégia. A estimulação de His resultou em encurtamento significativo do QRS e melhorias significativas nos parâmetros ecocardiográficos, bem como melhora nos sintomas e na capacidade física, de forma comparável a melhora observada naqueles submetidos a implante de marcapasso biventricular (dados apresentados no virtual European Heart Rhythm Association 2021 congress). O limiar de estimulação ventricular foi significativamente maior com His-P do que com a estimulação biventricular.

CONCLUSÕES

Marca-passo com estimulação do feixe de His é uma técnica capaz de proporcionar uma estimulação cardíaca mais fisiológica e promover um padrão melhor de sincronia intraventricular quando comparada com a estimulação crônica do ventrículo direito. A estimulação de His também pode ser uma técnica alternativa à terapia de ressincronização cardíaca, ou ser utilizada em casos selecionados de pacientes com insuficiência cardíaca não elegíveis para CRT.

Uma desvantagem do HBP é que energias mais altas do marca-passo tendem a ser necessárias para atingir a captura do feixe de His em comparação com a captura de VD e mesmo em relação ao eletrodo do ventrículo esquerdo em ressincronizador, o que tenderá a causar esgotamento mais rápido da bateria do gerador. Adicionalmente, é um procedimento tecnicamente desafiador que exige uma curva de aprendizagem do operador, ainda com uma taxa de insucesso.

Estudos com maior número de pacientes definirão melhor o valor dessa terapia.

Autoria

Foto de Nestor Oliveira Neto

Nestor Oliveira Neto

Redator em Cardiopapers. Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1992). Residência Médica em Clínica Médica (1993-1994), Residência em Cardiologia (1995-1996 ) no Hospital Oswaldo Crus/UPE-Recife e Especialização em Estimulação Cardíaca Artificial pelo Instituto do Coração (INCOR-FMUSP) (2001-2002). Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (1999). Atualmente é medico do Hospital Universitário Onofre Lopes-UFRN. Tem experiência na área de Cardiologia, com ênfase nas seguintes áreas: Eletrocardiografia, estimulação cardíaca artificial (marca-passo), insuficiência cardíaca, Cardiologia Geral e Terapia Intensiva.

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