As diferenças farmacocinéticas e farmacodinâmicas entre homens e mulheres já são reconhecidas na prática clínica e ajudam a explicar a maior suscetibilidade feminina a reações adversas a medicamentos. Em geral, mulheres apresentam risco 1,5 a 1,7 vez maior de eventos adversos medicamentosos. No caso das estatinas, a eficácia é semelhante entre os sexos, mas o perfil de tolerabilidade pode variar.
Uma análise secundária do estudo CLEAR Outcomes investigou justamente essas diferenças relacionadas ao sexo, com foco na intolerância às estatinas e na segurança do ácido bempedoico. O ensaio incluiu quase 14 mil pacientes com alto risco cardiovascular, LDL-colesterol maior ou igual a 100 mg/dL, em uso de terapia hipolipemiante estável e com intolerância documentada às estatinas. O acompanhamento mediano foi de 3,4 anos, com avaliação de eventos adversos, adesão, descontinuação do tratamento e características clínicas conforme o sexo.
Perfil clínico mais desfavorável entre mulheres
As mulheres representaram 48,1% da amostra e, em comparação aos homens, eram mais idosas, com média de 66,8 anos versus 64,4 anos. Também apresentavam perfil metabólico mais desfavorável, com níveis médios mais elevados de LDL-colesterol, maior proporção de LDL igual ou superior a 160 mg/dL e níveis mais altos de proteína C reativa ultrassensível.
Além disso, foi observada maior prevalência de hipertensão, diabetes e doença renal crônica entre as mulheres. Em relação ao perfil aterosclerótico, elas apresentavam menor frequência de doença arterial coronariana, mas maior presença de doença cerebrovascular e doença arterial periférica. Outro dado relevante foi a menor taxa de uso de terapias hipolipemiantes, incluindo estatinas e ezetimiba, nesse grupo.
Sintomas musculares seguem como principal causa de intolerância
Os sintomas musculares relacionados às estatinas foram o motivo mais frequente de intolerância em ambos os sexos, correspondendo a quase metade dos relatos. Aproximadamente 90% dos pacientes intolerantes referiram algum impacto negativo nas atividades diárias.
Entre aqueles com impacto funcional, as mulheres relataram mais frequentemente sintomas classificados como severos, em comparação aos homens. Esse dado reforça a importância de uma avaliação individualizada da tolerabilidade, especialmente em pacientes com maior percepção de limitação funcional.
Ácido bempedoico mostrou boa tolerabilidade em ambos os sexos
Em relação à segurança, o ácido bempedoico apresentou perfil semelhante entre homens e mulheres. A incidência de mialgia foi baixa e comparável entre os grupos, em torno de 5% a 6%, sem aumento relevante em relação ao placebo. A descontinuação do tratamento por esse motivo permaneceu abaixo de 2% em ambos os sexos.
As taxas globais de descontinuação também foram menores com ácido bempedoico do que com placebo, tanto entre mulheres quanto entre homens. Os eventos adversos gerais e graves ocorreram em proporções semelhantes entre os sexos.
Por outro lado, o uso do fármaco esteve associado a maior incidência de hiperuricemia, gota, elevação de enzimas hepáticas e discreto aumento da creatinina. A adesão ao tratamento foi ligeiramente inferior entre as mulheres, embora a diferença tenha sido pequena.
O que esse estudo traz para a prática?
Os achados da análise sugerem que pacientes com intolerância relatada às estatinas, especialmente mulheres, apresentam maior carga de fatores de risco e menor uso de terapias hipolipemiantes, o que pode ampliar o risco cardiovascular residual.
Nesse contexto, o ácido bempedoico se mostrou uma alternativa segura e bem tolerada, independentemente do sexo, sem evidência de aumento de eventos adversos em mulheres. Os resultados reforçam o papel da medicação como estratégia adicional para redução do LDL-colesterol e do risco cardiovascular em pacientes que não conseguem manter o uso de estatinas.
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