A nova definição universal de insuficiência cardíaca, elaborada conjuntamente pela American Heart Association (AHA), American College of Cardiology (ACC), European Society of Cardiology (ESC) e World Heart Federation (WHF), parte de um problema prático: a heterogeneidade dos critérios diagnósticos e fenotípicos ainda limita pesquisa, vigilância epidemiológica e prevenção. O documento reafirma a insuficiência cardíaca como síndrome clínica definida por sintomas e sinais típicos, associados a anormalidade estrutural ou funcional cardíaca, idealmente corroborados por peptídeos natriuréticos e/ou imagem.

Resumo crítico
A principal mudança conceitual é o afastamento de cortes rígidos de fração de ejeção para classificar fenótipos. Em vez de múltiplas faixas numéricas, o consenso propõe três grupos clinicamente mais acionáveis: insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, preservada e melhorada. O racional é reconhecer limitações metodológicas da medida da fração de ejeção, sua variabilidade entre métodos e a crescente evidência de benefício terapêutico em espectros mais amplos do que os recortes tradicionais sugeriam.
Uma estrutura mais holística, centrada na insuficiência cardíaca, que englobe os conceitos de melhora, remissão e recuperação, foi sugerida. Melhora (improvement) refere-se ao aumento da fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE), apesar da persistência de alterações estruturais cardíacas ou manifestações clínicas.
Remissão (remission) corresponde à normalização da FEVE, associada a sintomas mínimos e perfil estável de biomarcadores, reconhecendo, porém, que permanece uma vulnerabilidade à recaída. Apenas uma minoria dos pacientes alcança a recuperação (recovery), definida como a normalização sustentada da estrutura e da função cardíacas, dos biomarcadores e dos sintomas ao longo de um seguimento prolongado.
O que se mantém atual
O documento também reafirma os estágios da doença e preserva a lógica de progressão do risco à doença avançada: estágio A, em risco; estágio B, pré-insuficiência cardíaca; estágio C, insuficiência cardíaca clínica; e estágio D, doença avançada. O texto valoriza especialmente o estágio B, enfatizando detecção precoce, biomarcadores, imagem e até ferramentas emergentes, como ECG com inteligência artificial, para identificar indivíduos com maior probabilidade de progressão. Do ponto de vista prático, isso desloca parte do foco assistencial do tratamento da síndrome já estabelecida para prevenção e intervenção antecipada.
Atualizações
Outra contribuição relevante é a proposta de uma classificação universal por causa, indo além da dicotomia “isquêmica versus não isquêmica”. O consenso lista grupos etiológicos como cardiomiopatia isquêmica, hipertensiva, valvar, arrítmica, infiltrativa, inflamatória, tóxica, hereditária, metabólica/nutricional, relacionada à gestação, doença pulmonar/coração direito e formas idiopáticas. Além disso, incorpora o conceito de trajetórias da insuficiência cardíaca — melhora, remissão e recuperação — e diferencia piora da insuficiência cardíaca de descompensação, o que ajuda a refinar linguagem clínica e desenho de estudos.
Mensagem prática
O documento publicado se trata de um documento de consenso, não de diretriz terapêutica. Seu ponto forte é a padronização internacional da terminologia; sua limitação é que várias propostas permanecem baseadas em racional clínico e necessidade de uniformização, mais do que em validação prospectiva ampla. Para ambulatório, enfermaria e pronto-socorro, a mensagem prática é direta: diagnosticar insuficiência cardíaca exige avaliação integrada, reconhecer pré-insuficiência cardíaca importa, e a fração de ejeção isoladamente não deve mais resumir o raciocínio clínico.
Este artigo foi elaborado com auxílio de IA e revisado pela equipe médica do Portal Afya.
Autoria

Juliana Avelar
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição (2021). Residência em Cardiologia pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (IDPC). Além de atuação na Afya, também atua em hospitais e em consultório particular.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.