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Cardiologia10 julho 2026

Imagem intracoronariana na angioplastia complexa: o que mostrou o RENOVATE?

Imagem intracoronariana reduziu falha do vaso-alvo em angioplastia complexa no seguimento de 5 anos do RENOVATE-COMPLEX-PCI.
Por Ivson Braga

Do ponto de vista prático, o uso de métodos de imagem cardiovascular, como ultrassom intravascular (USIV) e tomografia de coerência óptica (OCT), fornece detalhes importantes da placa aterosclerótica, contribuindo para o planejamento pré-angioplastia e a avaliação da qualidade pós-procedimento, principalmente diante de cenários com anatomia coronariana mais complexa, como tronco da coronária esquerda, oclusões totais crônicas e lesões longas.

Apesar dessas vantagens, a maioria dos ensaios clínicos randomizados de imagem intracoronariana em lesões complexas foi pequena e não teve poder estatístico para avaliar desfechos clínicos mais relevantes. Outros trabalhos, nesse mesmo contexto, avaliaram seguimentos de curta duração.

Como foi conduzido o RENOVATE-COMPLEX-PCI?

O estudo RENOVATE-COMPLEX-PCI (Randomized Controlled Trial of Intravascular Imaging Guidance versus Angiography-Guidance on Clinical Outcomes After Complex Percutaneous Coronary Intervention) avaliou se a angioplastia guiada por imagem intravascular poderia oferecer melhores desfechos clínicos em comparação com a angioplastia guiada apenas por angiografia em pacientes com lesões coronarianas complexas.

Publicado em 2023, este trabalho mostrou que, no seguimento mediano de 2,1 anos, a angioplastia guiada por imagem intravascular foi associada a menor ocorrência do desfecho primário: 7,7% versus 12,3%; HR 0,64; IC 95% 0,45-0,89; P = 0,008. Recentemente, foi publicada a análise de seguimento de 5 anos do estudo.

O RENOVATE-COMPLEX-PCI foi um ensaio clínico multicêntrico coreano, randomizado e prospectivo. Foram randomizados 1.639 pacientes com lesões coronarianas complexas, incluindo bifurcações verdadeiras, oclusões totais crônicas, lesões de tronco de coronária esquerda desprotegido, lesões longas, com stents ≥ 38 mm, e abordagens multivasculares. Os participantes foram distribuídos em proporção 2:1 para angioplastia guiada por imagem ou por angiografia.

O desfecho primário foi falha do vaso-alvo, definido como composto de morte cardíaca, infarto do miocárdio relacionado ao vaso-alvo ou revascularização do vaso-alvo guiada por clínica.

Quais foram os resultados em 5 anos?

Os resultados foram favoráveis para a abordagem guiada por métodos de imagem. Ao final da mediana de 5,3 anos, o desfecho primário ocorreu em 10,5% dos pacientes no grupo guiado por imagem e em 14,9% no grupo angiografia, uma redução de risco estatisticamente significativa (HR 0,68; P = 0,009).

Quanto à prevenção da trombose do stent, foi evidenciada uma redução importante no grupo da angioplastia guiada por imagem, com quase erradicação do evento: 0,1% versus 0,7%.

Quando observados os desfechos duros isoladamente, o cenário continuou favorável:

  • morte cardíaca ou infarto relacionado ao vaso-alvo: 7,6% versus 10,7% (HR 0,68; IC 95% 0,48-0,96; P = 0,029);
  • falha do vaso-alvo excluindo infarto do miocárdio: 8,1% versus 11,3% (HR 0,68; IC 95% 0,49-0,96; P = 0,027).

O estudo não conseguiu demonstrar redução isolada de morte cardíaca (P = 0,090), infarto do miocárdio (P = 0,290) ou revascularização do vaso-alvo (P = 0,180).

Em quais subgrupos o benefício foi mais evidente?

O benefício da imagem intracoronariana foi consistente em praticamente todos os subgrupos avaliados, com maiores ganhos nos casos de oclusões totais crônicas e lesões difusas.

Em pacientes com doença coronariana estável, houve tendência de benefício mais pronunciado do que naqueles com síndrome coronariana aguda. Na análise temporal, os benefícios observados nos primeiros 2 anos foram preservados ao longo do seguimento de 5 anos.

O que esses dados mudam na prática?

Pelo que as evidências apontam, o uso da imagem intracoronariana durante a angioplastia não apenas contribui para o refinamento do trabalho do intervencionista, como também se traduz em benefícios clínicos importantes em curto e médio prazos.

Em outras palavras, a avaliação detalhada da doença aterosclerótica ajuda na otimização do procedimento e na obtenção de sucesso angiográfico, com menores taxas de falha, possivelmente pela prevenção de neoaterosclerose, reestenose de borda e trombose tardia.

O seguimento de cinco anos do RENOVATE-COMPLEX-PCI reforça a recomendação do uso de imagem intracoronariana em lesões complexas, já presente nas diretrizes mais recentes.

Autoria

Foto de Ivson Braga

Ivson Braga

Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Residência em Cardiologia pela Universidade de Pernambuco (UPE). Professor universitário e coordenador da Residência em Cardiologia.

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