A Quarta Definição Universal do Infarto consolidou a separação entre IM tipo 1, IM tipo 2 e lesão miocárdica, mas uma dúvida importante permaneceu nos últimos anos: qual é o real risco cardiovascular desses pacientes? Uma meta-análise individual com mais de 120 mil pacientes, publicada recentemente no JACC, talvez seja o trabalho mais robusto até o momento para responder essa questão.
O estudo reuniu 8 grandes coortes internacionais de pacientes submetidos à dosagem de troponina por suspeita de síndrome coronariana aguda. Os diagnósticos foram adjudicados conforme a Definição Universal do Infarto, separando os pacientes em:
- IM tipo 1;
- IM tipo 2;
- Lesão miocárdica aguda;
- Lesão miocárdica crônica;
- Ausência de lesão miocárdica.
O principal diferencial metodológico foi o uso de análise de risco competitivo. Isso é extremamente relevante porque pacientes com IM tipo 2 frequentemente morrem por causas não cardiovasculares antes de desenvolver novos eventos aterotrombóticos. O principal achado foi que todos os grupos com troponina elevada carregam alto risco cardiovascular
O estudo mostrou que não apenas o IM tipo 1, mas também IM tipo 2 e lesão miocárdica apresentam risco substancial de eventos cardiovasculares futuros.
As taxas de MACE em 1 ano foram:
- 15% no IM tipo 1;
- 12,9% no IM tipo 2;
- 11,7% na lesão miocárdica aguda;
- 9,7% na lesão miocárdica crônica.
Quando ajustado para idade, sexo e função renal, o risco relativo de MACE em comparação aos pacientes sem lesão miocárdica permaneceu muito elevado:
- IM tipo 1:HR 4,82;
- IM tipo 2: HR 3,36;
- Lesão miocárdica aguda: 3,24;
- Lesão miocárdica crônica: 3,03.
O estudo traz um conceito central: o risco cardiovascular no IM tipo 2 é parcialmente “atenuado” pela altíssima mortalidade não cardiovascular competitiva.
Os pacientes com IM tipo 2 eram:
- mais idosos;
- mais frequentemente mulheres;
- mais multimórbidos;
- com maior prevalência de DAC conhecida.
A mortalidade total em 5 anos chegou a:
- 52% no IM tipo 2;
- 56,5% na lesão miocárdica aguda.
Porém, grande parte dessas mortes não era cardiovascular. Então o risco cardiovascular existe, mas compete com outras causas de morte.
O estudo mostra que usar modelos tradicionais de risco pós-IAM sem considerar eventos competitivos pode superestimar o benefício potencial de terapias cardiovasculares agressivas em determinados pacientes.
Um dos achados mais importantes foi que doença arterial coronariana conhecida foi forte preditor de eventos futuros no IM tipo 2: HR 1,75 para MACE em 5 anos. Isso reforça uma hipótese que vem crescendo nos últimos anos: muitos pacientes classificados como IM tipo 2 têm DAC obstrutiva relevante subdiagnosticada.
Os autores defendem explicitamente que ensaios clínicos futuros devem avaliar estratégias sistemáticas de investigação anatômica, incluindo:
- Coronariografia invasiva;
- AngioTC coronariana;
- Terapias guiadas por mecanismo.
Este provavelmente é o estudo mais forte já publicado sobre prognóstico em IM tipo 2 e lesão miocárdica. O tamanho amostral é enorme, houve adjudicação diagnóstica baseada na Definição Universal e a metodologia estatística foi sofisticada, especialmente pela incorporação de risco competitivo.
O trabalho também é muito importante conceitualmente porque desloca o IM tipo 2 da ideia simplista de “troponina elevada secundária à doença sistêmica” para uma condição frequentemente associada a risco cardiovascular verdadeiro. Por outro lado, existem limitações importantes.
A principal é a dificuldade inerente em diferenciar IM tipo 2 de lesão miocárdica aguda. Mesmo com adjudicação especializada, essa distinção continua subjetiva em muitos casos.
Além disso, houve heterogeneidade significativa entre coortes, os estudos incluíram populações muito diferentes, a investigação coronariana não foi padronizada e não houve estratificação robusta por etiologia específica do IM tipo 2.
Outro ponto importante: o estudo demonstra associação prognóstica, mas não prova que investigar ou tratar agressivamente DAC no IM tipo 2 melhora desfechos.

Conclusão
Em conjunto, esta meta-análise reforça que tanto o IM tipo 2 quanto a lesão miocárdica aguda ou crônica estão longe de representar apenas achados laboratoriais inespecíficos ou marcadores passivos de gravidade clínica. Todos os fenótipos associados à elevação de troponina apresentaram risco cardiovascular substancialmente aumentado, inclusive com taxas de eventos próximas às observadas no IM tipo 1. O estudo também evidencia que o prognóstico desses pacientes é fortemente influenciado por mortalidade não cardiovascular competitiva, especialmente em populações mais idosas e frágeis, que exige interpretação mais refinada do risco cardiovascular e do potencial benefício terapêutico. Além disso, a forte associação entre doença arterial coronariana e eventos futuros no IM tipo 2 reforça a hipótese de que parte desses pacientes possui DAC significativa subdiagnosticada e potencialmente tratável.
Embora ainda faltem ensaios clínicos demonstrando benefício prognóstico de estratégias de investigação e tratamento nesse cenário, os dados atuais sustentam uma mudança importante de paradigma: pacientes com IM tipo 2 e lesão miocárdica não devem ser automaticamente excluídos de avaliação cardiovascular estruturada, especialmente quando apresentam perfil de risco aterosclerótico relevante.
Autoria

Juliana Avelar
Médica formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Cardiologista pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia
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