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Cardiologia4 abril 2017

IAM com supra de ST: tratar ou não tratar a artéria não culpada?

Em pacientes com Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) com elevação do segmento ST, a intervenção coronária percutânea (ICP) para reestabelecer o fluxo coronariano na artéria relacionada ao infarto reduz a…

Por Eduardo Pessoa

Em pacientes com Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) com elevação do segmento ST, a intervenção coronária percutânea (ICP) para reestabelecer o fluxo coronariano na artéria relacionada ao infarto reduz a incidência de eventos clínicos. No entanto, quando no cateterismo se demonstra a existência de lesões residuais significativas em outras artérias que não a causadora do infarto, a necessidade de abordagem destas lesões permanece controverso.

Os estudos mais recentes sobre este tema (Culprit; Prami e DANAMI-3) sugerem que é benéfico, de maneira geral, tratar as lesões não culpadas pelo infarto. Entretanto, os estudos tem alguns aspectos que dificultam a validação externa dos resultados e a aplicação deste conceito em uma boa parte dos casos na prática diária. Primeiro, em geral nos estudos foram incluídos pacientes hemodinamicamente estáveis e com anatomia coronariana simples. Em todos eles, a média de stent por paciente tratado no grupo revascularização completa é de apenas um stent a mais do que no grupo que teve apenas a lesão culpada tratada. Segundo, o tempo total de procedimento e o volume de contraste utilizado aumentam muito discretamente no grupo revascularização completa. Pelo exposto, entende-se que a lesão residual abordada, em geral, foi de baixa complexidade técnica. Terceiro, o momento de abordagem da lesão não culpada foi: no mesmo procedimento índice no estudo Prami e em um segundo momento, mas na mesma internação, nos estudos Culprit e DANAMI-3. Este último incluindo a análise da Reserva de Fluxo Fracionado (FFR) para definir a indicação da ICP do vaso não culpado. Não sabe o que é FFR? Sem problemas. Acese estes textos nossos:

FFR parte 1

FFR parte 2

FFR parte 3

Recentemente foi publicado no NEJM mais um estudo neste segmento. O Compare-Acute trial que comparou o tratamento apenas da lesão culpada pelo IAM com supra ST versus o tratamento das lesões não culpadas (estenose > 50%), no mesmo procedimento inicial, guiando a decisão pela FFR. Um total de 885 pacientes foram randomizados em uma distribuição 1:2 (295 pacientes para o grupo que tratou as lesões não culpadas com FFR positiva e 590 pacientes para o grupo tratamento apenas da artéria culpada). O estudo demonstrou redução do desfecho primário (composto de morte por todas as causas, IAM não fatal, nova revascularização e AVC em 12 meses) no grupo de tratamento das lesões não culpadas com FFR positiva (HR: 0,35; 95% IC, 0,22 a 0,55; P<0,001) principalmente às custas de necessidade de nova revascularização sem diferença nos demais componentes do endpoint primário. A avaliação com FFR foi positiva (< 0,80) em aproximadamente metade das lesões avaliadas. Ou seja, a outra metade pôde ser mantida em tratamento clínico sem necessidade de intervenção.

OK. Mas e como eu faço se não tiver FFR disponível no meu serviço? Bem, aí vale o bom e velho bom senso. Exemplos:

Cenário 1: IAM anterior com lesão culpada em artéria descendente anterior (DA) recanalizada com sucesso e sem intercorrências, lesão residual severa e curta (sem bifurcação, sem calcificação) no terço médio da artéria coronária direita (CD). Conduta sugerida: tratar também a lesão da CD.

Cenário 2: IAM inferior com lesão culpada extensa com grande carga trombótica e dificuldade técnica no terço proximal da CD, lesão residual bifurcação complexa entre artéria DA e grande ramo diagonal. Conduta sugerida, tratar a lesão culpada e reavaliar necessidade de abordagem da bifurcação DA/Dg em um segundo momento.

Opiniões pessoais:

  • tratar as lesões não culpadas, em linhas gerais, parece ser benéfico. No entanto, há evidências de estudos randomizados tanto para a abordagem imediata quanto para o estadiamento para um segundo procedimento na mesma internação;
  • a utilização da FFR para selecionar qual lesão residual tratar parece evitar o tratamento desnecessário induzido apenas pela angiografia;
  • é fundamental levar em consideração na tomada de decisão a complexidade anatômica da lesão residual, bem como o tempo de procedimento e o volume de contraste utilizados até aquele momento.

Referência bibliográfica:

  • Smits PC, Abdel‑Wahab M, Omerovic E et al. Fractional Flow Reserve–Guided Multivessel Angioplasty in Myocardial Infarction. DOI:10.1056/NEJMoa1701067.

Autoria

Foto de Eduardo Pessoa

Eduardo Pessoa

Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco. Residência Médica em Clínica Médica pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Residência Médica em Cardiologia Clínica pelo Instituto do Coração (InCor-HCFMUSP). Especialização em Cardiologia Intervencionista pelo Instituto do Coração (InCor-HCFMUSP). No momento, atua como Cardiologista Intervencionista em Recife, Pernambuco, Brasil.

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