Relevância clínica. A qualidade da dieta permanece determinante importante de risco cardiovascular, e o racional fisiopatológico é conhecido: excesso de sódio, açúcares, gorduras saturadas e ultraprocessados agravam pressão arterial, adiposidade, resistência à insulina e perfil lipídico. No último mês, a American Heart Association (AHA) atualizou sua orientação alimentar com base nas evidências mais recentes.
Importante ressaltar que a orientação é que os hábitos alimentares devem ser adquiridos precocemente e mantidos por toda a vida e as recomendações são para pacientes tanto de baixo quanto de alto risco cardiovascular, incluindo os que já tem doença estabelecida.
Escopo e método. O documento é uma atualização das orientações de 2021, construído com revisão da literatura e com inclusão de novas buscas sobre substituição de fontes alimentares de gordura saturada por gorduras não-saturadas, além da integração de evidências recentes da Nutrition Evidence Systematic Review. A proposta não é prescrever dietas fechadas, mas definir características estruturais de um padrão alimentar cardioprotetor que acomode preferências pessoais, étnicas e religiosas nos diferentes estágios de vida.
Principais recomendações.
As recomendações centrais são nove e estão comentadas abaixo.
1- Ajustar ingestão ao gasto energético: a obesidade aumenta o risco de diabetes tipo 2, hipertensão e doença renal, que tem impacto nas doenças cardiovasculares (DCV). A necessidade calórica varia a depender das características individuais, porém deve ser ajustada para se alcançar e manter um peso saudável. Atualmente são recomendadas as dietas DASH, mediterrânea, baseada em peixes e vegetariana com ingestão de ovo e/ou leite.
Além disso deve-se realizar atividade física ao longo dos dias, sendo recomendado 60 minutos por dia de atividade moderada a intensa para crianças mais velhas e adolescentes e 150 minutos por semana para adultos.
2- Priorizar grande quantidade de frutas e vegetais variados: consumir frutas e vegetais inteiros ou minimamente processados é associado a saúde cardiovasculares e consumir as frutas inteiras ao invés de sucos fornece boa parte das fibras necessárias.
3- Preferir grãos integrais: o consumo regular dos grãos integrais tem maior benefício que o consumo esporádico e substituir os grãos refinados por integrais leva a melhora dos fatores de risco cardiovasculares.
4- Escolher fontes saudáveis de proteína: a proteína é essencial para a saúde em geral, porém a quantidade necessária para a saúde cardiovascular é incerta. Assim, recomenda-se maior ingestão de proteínas de legumes e nozes (boas fontes de proteína, gordura não saturada e fibras), peixes e frutos do mar (grande quantidade de ômega-3 e baixa quantidade de gorduras) e laticínios com pouca gordura ou sem gordura (ainda com evidências não tão boas, porém parece haver benefício comparado ao laticínio integral). Caso se opte por consumir carne vermelha, deve-se preferir carnes magras e não processadas em porções pequenas e baixas frequências.
5- Substituir gorduras saturadas por não-saturadas: associado a redução do colesterol LDL e risco de doença coronária. Gordura animal e óleos como de coco e palma são ricos em gordura saturada e devem ser evitados, já óleos não tropicais como de soja, canola e de oliva são ricos em gordura não saturada. A substituição de manteiga pelos óleos diminui o colesterol LDL e morbimortalidade cardiovascular.
6- Preferir alimentos minimamente processados ao invés de ultraprocessados: ultraprocessados tem altos níveis de sódio, açúcar e ingredientes que normalmente não estão na comida, além de passarem por modificações como remoção de fibras e alguns nutrientes. Seu consumo tem associação com diversos desfechos adversos de saúde, incluindo sobrepeso e obesidade, DCV, diabetes tipo 2 e mortalidade por todas as causas. Assim, seu consumo deve ser evitado.
7- Reduzir açúcares adicionados: esses são todos os açúcares adicionados às comidas e bebidas. Dietas com grande quantidade de açúcares estão associadas a pior saúde e maior risco cardiovascular.
8- Reduzir sódio: consumo aumentado de sódio leva a maiores níveis de pressão arterial e, ao contrário, consumo aumentado de potássio leva a menores valores, tanto em pacientes hipertensos quanto normotensos. Além disso, menor consumo de sódio e maior consumo de potássio está associado a menor risco cardiovascular, sendo este padrão recomendado para prevenção e controle da hipertensão. Isso pode ser feito com aumento do consumo de frutas e vegetais e substituição do sal habitual de cloreto de sódio pelos substitutos de sal ricos em potássio.
9- Não consumir álcool: o consumo de álcool para prevenção e controle de hipertensão deve ser evitado e o consumo em excesso deve ser fortemente desencorajado. Não se recomenda em nenhuma situação iniciar o consumo de álcool como forma de melhorar a saúde cardiovascular.
Outras recomendações são preferir dietas ricas em nutrientes e bebidas com vitaminas e minerais essenciais, evitando-se suplementações. Além disso, recomenda-se ingestão de fibras dos vegetais e frutas, que mostraram benefício na microbiota intestinal, regulação da glicemia, redução de risco cardiovascular, diabetes tipo 2 e câncer colorretal. Também é recomendado limitar o consumo de alimentos ricos em colesterol e o consumo de ovos deve ser moderado.
Mensagem prática. Esse documento buscou simplificar as orientações, preferindo sugerir padrões alimentares considerados mais saudáveis do ponto de vista cardiovascular, do que dietas específicas, o que, do ponto de vista prático, facilita a adesão do paciente.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora médica de Cardiologia da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica pela UNIFESP ⦁ Residência em Cardiologia pelo Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) ⦁ Graduação em Medicina pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) ⦁ Atua nas áreas de terapia intensiva, cardiologia ambulatorial, enfermaria e em ensino médico.
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