A transfusão de concentrado de hemácias costuma ser indicada de forma restritiva na maioria dos pacientes hospitalizados. Em geral, aceita-se uma hemoglobina mais baixa antes de transfundir, porque a transfusão também apresenta riscos, como sobrecarga volêmica, reações transfusionais e maior utilização de hemocomponentes.
No infarto agudo do miocárdio (IAM), entretanto, essa lógica pode não ser a mesma. A redução da hemoglobina diminui a oferta de oxigênio ao miocárdio justamente em um momento de maior demanda e menor fluxo coronariano. Portanto, tolerar valores muito baixos pode agravar a isquemia.
O estudo MINT foi desenvolvido para comparar duas estratégias em pacientes com IAM e hemoglobina inferior a 10 g/dL:
- Estratégia restritiva: transfusão permitida quando a hemoglobina estivesse abaixo de 8 g/dL e fortemente recomendada abaixo de 7 g/dL;
- Estratégia liberal: transfusão para manter a hemoglobina próxima ou acima de 10 g/dL.
No estudo original, morte ou reinfarto em 30 dias ocorreu em 16,9% dos pacientes tratados com a estratégia restritiva e em 14,5% daqueles tratados com a estratégia liberal. A diferença não alcançou o limite estatístico tradicionalmente adotado para considerar o resultado “positivo”, mas os números favoreceram a estratégia liberal.
Um artigo recentemente publicado no JAMA apresentou uma nova forma de analisar os mesmos dados. Em vez de perguntar apenas se o resultado atingiu ou não significância estatística, os autores procuraram responder a uma pergunta mais próxima da prática clínica: qual é a probabilidade de a estratégia liberal realmente reduzir morte ou reinfarto e qual pode ser o tamanho desse benefício?

Desenho do estudo
Este artigo não apresenta um novo ensaio clínico. Trata-se de uma reanálise bayesiana e pós-hoc dos dados do MINT.
O MINT foi um ensaio clínico randomizado, multicêntrico, multinacional e aberto, realizado em 144 centros de seis países. Foram incluídos 3.504 pacientes hospitalizados com IAM e hemoglobina inferior a 10 g/dL:
- 1.749 foram alocados à estratégia restritiva;
- 1.755 foram alocados à estratégia liberal;
- a idade média foi de 72 anos;
- aproximadamente 46% eram mulheres;
- 30% apresentavam insuficiência cardíaca;
- 46% tinham insuficiência renal;
- 54% tinham diabetes;
- a hemoglobina inicial média era de aproximadamente 8,6 g/dL.
A população era clinicamente complexa e com elevado risco de complicações tanto isquêmicas quanto transfusionais.
Outro aspecto importante foi a heterogeneidade dos infartos. Apenas 41,7% dos participantes apresentavam IAM tipo 1, relacionado à ruptura ou erosão de placa aterosclerótica. A maioria, 55,8%, foi classificada como IAM tipo 2.
O principal desfecho analisado foi a ocorrência de morte ou reinfarto em 30 dias. O principal desfecho de segurança foi insuficiência cardíaca durante o mesmo período.
O que é uma análise bayesiana?
A análise tradicional do MINT mostrou um valor de p=0,07. Isso significa que o estudo ficou ligeiramente acima do limite convencional de 0,05, mas não significa que as estratégias sejam equivalentes, nem que a liberal não funcione.
A análise bayesiana procura apresentar o resultado de uma forma mais direta. Ela combina os dados observados no estudo com diferentes hipóteses existentes antes da análise e calcula a probabilidade de uma estratégia ser melhor do que a outra.
Os autores testaram três cenários:
- Um cenário neutro, sem favorecer previamente nenhuma estratégia;
- Um cenário inicialmente favorável à estratégia liberal;
- Um cenário inicialmente favorável à estratégia restritiva.
Essa terceira situação funciona como um teste mais conservador: mesmo começando com a suposição de que a estratégia restritiva pudesse ser melhor, os dados do MINT seriam suficientemente fortes para mudar essa interpretação?
Principais resultados
Morte ou reinfarto
Em 30 dias, morte ou reinfarto ocorreu em:
- 295 dos 1.749 pacientes tratados com a estratégia restritiva: 16,9%;
- 255 dos 1.755 pacientes tratados com a estratégia liberal: 14,5%.
Em termos práticos, a estratégia liberal esteve associada a aproximadamente 2,4 eventos a menos para cada 100 pacientes tratados.
Na reanálise, a redução estimada de morte ou reinfarto com a estratégia liberal variou entre 1,4 e 2,4 pontos percentuais, dependendo da hipótese inicial utilizada.
A probabilidade de que a estratégia liberal apresentasse algum benefício variou de 89,1% a 98,8%.
Traduzindo: os resultados tornam bastante provável que manter a hemoglobina mais próxima de 10 g/dL seja melhor do que aceitar valores de 7–8 g/dL em pacientes com IAM. O que ainda permanece incerto é o tamanho exato desse benefício.
No cenário neutro, a melhor estimativa indicou que a estratégia liberal evitaria aproximadamente dois episódios de morte ou reinfarto para cada 100 pacientes tratados. Entretanto, o benefício verdadeiro poderia variar desde praticamente nenhum efeito até cerca de cinco eventos evitados para cada 100 pacientes.
O número necessário para tratar foi estimado entre 42 e 74 pacientes. Isso significa que seria necessário utilizar a estratégia liberal em aproximadamente 42 a 74 pacientes para evitar uma morte ou um reinfarto. Como esse cálculo depende da melhor estimativa do efeito, ele não deve ser interpretado como um número definitivo.
Insuficiência cardíaca
A insuficiência cardíaca ocorreu em:
- 5,8% dos pacientes do grupo restritivo;
- 6,3% dos pacientes do grupo liberal.
Portanto, houve aproximadamente um episódio adicional de insuficiência cardíaca para cada 200 pacientes tratados com a estratégia liberal.
A análise indicou probabilidade de 60,6% a 80% de algum aumento de insuficiência cardíaca com a estratégia liberal. Entretanto, a diferença absoluta foi pequena e imprecisa.
Na prática, a estratégia liberal provavelmente aumenta um pouco o risco de congestão ou insuficiência cardíaca, mas esse possível dano parece menor que a redução estimada de morte ou reinfarto.
Utilizando o cenário neutro, para cada 200 pacientes tratados com a estratégia liberal, poderiam ocorrer aproximadamente:
- cinco mortes ou reinfartos a menos;
- um episódio de insuficiência cardíaca a mais.
Essa comparação facilita a compreensão do possível benefício líquido, mas os números representam estimativas, e não uma previsão exata do que acontecerá em cada grupo de pacientes.
Mortalidade isolada
A mortalidade isolada também foi numericamente menor com a estratégia liberal. A redução estimada ficou entre 1% e 1,6%, equivalente a aproximadamente uma a duas mortes a menos para cada 100 pacientes.
Entretanto, ainda existe incerteza suficiente para não afirmar, de forma definitiva, que a estratégia liberal reduz mortalidade isoladamente.
Interpretação crítica
O principal mérito desta reanálise é mostrar que um estudo com p=0,07 não deve ser interpretado automaticamente como “negativo”.
Os resultados do MINT foram mais compatíveis com benefício da estratégia liberal do que com ausência de benefício. A abordagem bayesiana demonstra que existe alta probabilidade de redução de morte ou reinfarto quando se mantém a hemoglobina próxima de 10 g/dL.
Ainda assim, alta probabilidade de algum benefício não significa certeza de um benefício grande. É possível que a estratégia liberal evite dois ou mais eventos para cada 100 pacientes, mas também é possível que a diferença real seja pequena.
Outro ponto importante é que o estudo comparou estratégias transfusionais durante a internação, e não uma regra automática de transfundir todo paciente assim que a hemoglobina ficar abaixo de 10 g/dL. A transfusão continuava sendo guiada pelo contexto clínico, pela evolução da hemoglobina e pelas condições do paciente.
Portanto, o estudo não sustenta a conduta de que todo paciente com IAM e Hb < 10 deve transfundir. O que os dados sugerem é que, nessa população, uma política rigidamente restritiva — tolerando sistematicamente hemoglobina de 7–8 g/dL — pode não ser a melhor escolha, especialmente quando há isquemia persistente.
Limitações
A principal limitação é que a análise bayesiana foi planejada depois que os autores já conheciam os resultados do MINT. Isso não invalida os achados, mas exige maior cautela, porque a escolha das hipóteses e dos critérios estatísticos pode ter sido influenciada pelo resultado original.
Além disso, as hipóteses utilizadas pelos pesquisadores podem não representar a opinião prévia de todos os médicos. Ainda assim, o benefício da estratégia liberal permaneceu provável mesmo no cenário inicialmente favorável à estratégia restritiva, o que reforça a consistência do achado.
O MINT foi um estudo aberto. Isso provavelmente interfere pouco em desfechos objetivos, como morte, mas pode influenciar decisões clínicas e o diagnóstico de insuficiência cardíaca.
Também houve limitações na avaliação dos riscos da transfusão. O estudo não detalhou adequadamente o uso de diuréticos durante a administração das bolsas e não teve poder suficiente para avaliar eventos transfusionais menos frequentes.
A elevada proporção de IAM tipo 2 também dificulta a extrapolação. Não é possível afirmar que o benefício seja igual em:
- IAM tipo 1 com aterotrombose coronariana;
- IAM tipo 2 por anemia, hipóxia, sepse ou taquiarritmia;
- pacientes com lesão miocárdica e diagnóstico pouco definido.
Da mesma forma, o estudo não consegue identificar com segurança quais subgrupos mais se beneficiam da estratégia liberal.
Comparação com outras evidências e diretrizes
No MINT original, a estratégia liberal não atingiu superioridade pelo critério estatístico tradicional. Entretanto, os resultados favoreceram numericamente essa estratégia, e o estudo não conseguiu excluir um possível dano da estratégia restritiva.
Uma metanálise com dados individuais de quatro ensaios clínicos, incluindo aproximadamente 4.300 pacientes, apontou na mesma direção. Embora o resultado de morte ou reinfarto em 30 dias permanecesse impreciso, a estratégia restritiva foi associada a maior mortalidade cardíaca em seis meses.
Assim, três formas diferentes de examinar a evidência — o ensaio original, a metanálise individual e a reanálise bayesiana — convergem para a possibilidade de que pacientes com IAM sejam uma exceção à preferência geral por transfusões restritivas.
A diretriz norte-americana de síndrome coronariana aguda de 2025 considera que transfundir para manter a hemoglobina próxima de 10 g/dL pode ser razoável em pacientes com síndrome coronariana aguda e anemia.
Conclusão e aplicação prática
A reanálise do MINT reforça que a estratégia liberal provavelmente reduz morte ou reinfarto em pacientes com IAM e anemia. A melhor estimativa sugere aproximadamente dois eventos evitados para cada 100 pacientes tratados, com pequeno aumento de insuficiência cardíaca.
O artigo não demonstra que todos os pacientes com hemoglobina abaixo de 10 g/dL devam receber transfusão imediata. Ele sustenta, principalmente, que não parece seguro aplicar de maneira automática ao IAM os mesmos limites restritivos utilizados em outros pacientes hospitalizados.
Na prática, uma estratégia mais liberal pode ser especialmente razoável quando houver:
- isquemia miocárdica persistente ou recorrente;
- queda progressiva da hemoglobina;
- doença coronariana extensa ou baixa reserva coronariana;
Em pacientes com insuficiência cardíaca, congestão ou disfunção renal, o risco de sobrecarga volêmica deve ser ativamente considerado. Quando a transfusão for indicada, pode ser prudente administrar uma unidade por vez, utilizar velocidade mais lenta e reavaliar estado volêmico, sintomas e hemoglobina antes de novas bolsas.
Autoria

Juliana Avelar
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição (2021). Residência em Cardiologia pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (IDPC). Além de atuação na Afya, também atua em hospitais e em consultório particular.
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