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Cardiologia31 agosto 2026

ESC 2026: Segundo dia destaca estatina em idosos, evolocumabe e angioTC

Resumo do segundo dia do ESC 2026 destaca estudos sobre estatina em idosos, evolocumabe, dor torácica e anticoagulação na FA.

No segundo dia do Congresso Europeu de Cardiologia, o ESC 2026, foram apresentados trabalhos com impacto potencial na prática clínica.

Entre os destaques estiveram o STAREE, sobre estatina em idosos sem doença cardiovascular conhecida; o AMUNDSEN, sobre início precoce de evolocumabe após infarto submetido à intervenção coronária percutânea; o TARGET-CTCA, sobre angiotomografia de coronárias em pacientes com dor torácica e infarto descartado; e o ENRICH-AF, sobre anticoagulação em pacientes com fibrilação atrial e hemorragia intracraniana prévia.

STAREE: estatina em idosos na prevenção primária

O estudo STAREE veio responder uma dúvida antiga: pacientes idosos têm benefício em redução de eventos cardiovasculares com uso de estatina na prevenção primária?

A maior parte dos estudos de prevenção primária excluiu pacientes mais idosos, principalmente aqueles com mais de 75 anos. Por isso, os riscos e benefícios da estatina nessa população ainda não eram tão claros.

O STAREE randomizou pacientes com mais de 70 anos, vivendo de forma independente e sem história de doença cardiovascular estabelecida, para receber placebo ou atorvastatina.

No seguimento médio de 5,9 anos, a atorvastatina reduziu em cerca de 30% o risco de morte cardiovascular, infarto não fatal, AVC ou revascularização coronariana. O estudo foi apresentado no ESC 2026 e publicado simultaneamente no New England Journal of Medicine.

Pacientes que usaram atorvastatina tiveram mais frequentemente alterações musculoesqueléticas, hepatobiliares e diabetes. No entanto, eventos graves relacionados a essas alterações foram incomuns.

AMUNDSEN: evolocumabe precoce após IAM com ICP

Ainda em relação aos lípides, o estudo AMUNDSEN avaliou o uso de evolocumabe em pacientes com infarto agudo do miocárdio submetidos à intervenção coronária percutânea (ICP).

A medicação foi administrada imediatamente antes do procedimento, com objetivo de avaliar se uma estratégia precoce com inibidor de PCSK9 permitiria atingir a meta de LDL mais rapidamente.

O estudo mostrou que os pacientes que receberam evolocumabe alcançaram a meta de LDL de forma muito mais rápida do que aqueles que seguiram o tratamento padrão. Mais de 80% dos pacientes tratados com evolocumabe atingiram LDL < 55 mg/dL em 1 ano.

No entanto, esse melhor controle lipídico precoce não se traduziu em redução de morte ou internação cardiovascular em 12 meses. O desfecho clínico principal, composto por morte por todas as causas ou hospitalização cardiovascular não planejada, ocorreu em aproximadamente 15% dos pacientes em ambos os grupos.

TARGET-CTCA: angiotomografia após exclusão de infarto

Em relação à avaliação de dor torácica no pronto-socorro, o TARGET-CTCA investigou se valeria a pena realizar angiotomografia de coronárias em pacientes nos quais o infarto foi descartado, mas que permaneciam em risco intermediário com base nos resultados de troponina.

Esse grupo é clinicamente importante porque uma parte dos pacientes retorna ao serviço de saúde ou apresenta eventos posteriores.

O TARGET-CTCA randomizou 3.170 pacientes com dor torácica e risco intermediário para receber tratamento padrão ou realizar angiotomografia de coronárias. Pacientes com doença leve a moderada no exame recebiam tratamento de prevenção secundária, enquanto aqueles com doença obstrutiva, além da prevenção secundária, eram reavaliados ambulatorialmente.

Ao todo, 65% dos pacientes tinham doença coronária, sendo 42% com doença leve a moderada e 23% com doença grave.

Apesar de identificar doença coronária em uma proporção relevante dos pacientes, a realização da angiotomografia não reduziu morte cardíaca ou infarto em comparação ao cuidado padrão. O estudo foi apresentado no ESC 2026 e avaliou desfechos em 3 anos.

Assim, os achados sugerem que realizar esse exame de forma rotineira nesse perfil de paciente pode não trazer redução de eventos, o que pode ajudar a simplificar o seguimento e, do ponto de vista de saúde pública, reduzir custos.

ENRICH-AF: edoxabana após hemorragia intracraniana

Por fim, o ENRICH-AF foi um estudo internacional, prospectivo, randomizado, aberto e com desfecho cego.

O estudo avaliou anticoagulação com edoxabana em comparação à não anticoagulação em pacientes com fibrilação atrial, alto risco de eventos tromboembólicos e hemorragia intracraniana prévia.

Essa é uma população frequentemente excluída dos estudos, justamente pelo equilíbrio difícil entre prevenção de AVC isquêmico e risco de recorrência de sangramento intracraniano.

O desfecho avaliado foi AVC ou embolia sistêmica.

Os resultados mostraram que a edoxabana não reduziu o risco de AVC ou embolia sistêmica em comparação à não anticoagulação. Além disso, aumentou sangramento maior em pacientes de alto risco com fibrilação atrial e hemorragia intracraniana prévia.

Segundo a apresentação, o risco de recorrência de sangramento foi inaceitavelmente alto em pacientes com sangramento em alguns locais específicos.

Assim, a decisão de anticoagular ou não esses pacientes deve ser individualizada, e ainda são necessários mais estudos com estratégias alternativas para reduzir o risco tromboembólico nessa população.

Mensagem prática

O segundo dia do ESC 2026 trouxe quatro mensagens importantes.

No STAREE, a atorvastatina reduziu eventos cardiovasculares maiores em idosos independentes e sem doença cardiovascular estabelecida, reforçando que a prevenção primária nessa faixa etária deve ser discutida de forma individualizada.

No AMUNDSEN, o evolocumabe iniciado precocemente após IAM com ICP acelerou o alcance da meta de LDL, mas não reduziu morte ou hospitalização cardiovascular em 12 meses.

No TARGET-CTCA, a angiotomografia de coronárias em pacientes com dor torácica, infarto descartado e risco intermediário identificou doença coronária, mas não reduziu morte cardíaca ou infarto.

No ENRICH-AF, a edoxabana não reduziu AVC ou embolia sistêmica após hemorragia intracraniana em pacientes com fibrilação atrial e aumentou sangramento maior, reforçando a necessidade de decisões individualizadas e novas estratégias de prevenção.

Autoria

Foto de Isabela Abud Manta

Isabela Abud Manta

Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.

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