No segundo dia do Congresso Europeu de Cardiologia, o ESC 2026, foram apresentados trabalhos com impacto potencial na prática clínica.
Entre os destaques estiveram o STAREE, sobre estatina em idosos sem doença cardiovascular conhecida; o AMUNDSEN, sobre início precoce de evolocumabe após infarto submetido à intervenção coronária percutânea; o TARGET-CTCA, sobre angiotomografia de coronárias em pacientes com dor torácica e infarto descartado; e o ENRICH-AF, sobre anticoagulação em pacientes com fibrilação atrial e hemorragia intracraniana prévia.
STAREE: estatina em idosos na prevenção primária
O estudo STAREE veio responder uma dúvida antiga: pacientes idosos têm benefício em redução de eventos cardiovasculares com uso de estatina na prevenção primária?
A maior parte dos estudos de prevenção primária excluiu pacientes mais idosos, principalmente aqueles com mais de 75 anos. Por isso, os riscos e benefícios da estatina nessa população ainda não eram tão claros.
O STAREE randomizou pacientes com mais de 70 anos, vivendo de forma independente e sem história de doença cardiovascular estabelecida, para receber placebo ou atorvastatina.
No seguimento médio de 5,9 anos, a atorvastatina reduziu em cerca de 30% o risco de morte cardiovascular, infarto não fatal, AVC ou revascularização coronariana. O estudo foi apresentado no ESC 2026 e publicado simultaneamente no New England Journal of Medicine.
Pacientes que usaram atorvastatina tiveram mais frequentemente alterações musculoesqueléticas, hepatobiliares e diabetes. No entanto, eventos graves relacionados a essas alterações foram incomuns.
AMUNDSEN: evolocumabe precoce após IAM com ICP
Ainda em relação aos lípides, o estudo AMUNDSEN avaliou o uso de evolocumabe em pacientes com infarto agudo do miocárdio submetidos à intervenção coronária percutânea (ICP).
A medicação foi administrada imediatamente antes do procedimento, com objetivo de avaliar se uma estratégia precoce com inibidor de PCSK9 permitiria atingir a meta de LDL mais rapidamente.
O estudo mostrou que os pacientes que receberam evolocumabe alcançaram a meta de LDL de forma muito mais rápida do que aqueles que seguiram o tratamento padrão. Mais de 80% dos pacientes tratados com evolocumabe atingiram LDL < 55 mg/dL em 1 ano.
No entanto, esse melhor controle lipídico precoce não se traduziu em redução de morte ou internação cardiovascular em 12 meses. O desfecho clínico principal, composto por morte por todas as causas ou hospitalização cardiovascular não planejada, ocorreu em aproximadamente 15% dos pacientes em ambos os grupos.
TARGET-CTCA: angiotomografia após exclusão de infarto
Em relação à avaliação de dor torácica no pronto-socorro, o TARGET-CTCA investigou se valeria a pena realizar angiotomografia de coronárias em pacientes nos quais o infarto foi descartado, mas que permaneciam em risco intermediário com base nos resultados de troponina.
Esse grupo é clinicamente importante porque uma parte dos pacientes retorna ao serviço de saúde ou apresenta eventos posteriores.
O TARGET-CTCA randomizou 3.170 pacientes com dor torácica e risco intermediário para receber tratamento padrão ou realizar angiotomografia de coronárias. Pacientes com doença leve a moderada no exame recebiam tratamento de prevenção secundária, enquanto aqueles com doença obstrutiva, além da prevenção secundária, eram reavaliados ambulatorialmente.
Ao todo, 65% dos pacientes tinham doença coronária, sendo 42% com doença leve a moderada e 23% com doença grave.
Apesar de identificar doença coronária em uma proporção relevante dos pacientes, a realização da angiotomografia não reduziu morte cardíaca ou infarto em comparação ao cuidado padrão. O estudo foi apresentado no ESC 2026 e avaliou desfechos em 3 anos.
Assim, os achados sugerem que realizar esse exame de forma rotineira nesse perfil de paciente pode não trazer redução de eventos, o que pode ajudar a simplificar o seguimento e, do ponto de vista de saúde pública, reduzir custos.
ENRICH-AF: edoxabana após hemorragia intracraniana
Por fim, o ENRICH-AF foi um estudo internacional, prospectivo, randomizado, aberto e com desfecho cego.
O estudo avaliou anticoagulação com edoxabana em comparação à não anticoagulação em pacientes com fibrilação atrial, alto risco de eventos tromboembólicos e hemorragia intracraniana prévia.
Essa é uma população frequentemente excluída dos estudos, justamente pelo equilíbrio difícil entre prevenção de AVC isquêmico e risco de recorrência de sangramento intracraniano.
O desfecho avaliado foi AVC ou embolia sistêmica.
Os resultados mostraram que a edoxabana não reduziu o risco de AVC ou embolia sistêmica em comparação à não anticoagulação. Além disso, aumentou sangramento maior em pacientes de alto risco com fibrilação atrial e hemorragia intracraniana prévia.
Segundo a apresentação, o risco de recorrência de sangramento foi inaceitavelmente alto em pacientes com sangramento em alguns locais específicos.
Assim, a decisão de anticoagular ou não esses pacientes deve ser individualizada, e ainda são necessários mais estudos com estratégias alternativas para reduzir o risco tromboembólico nessa população.
Mensagem prática
O segundo dia do ESC 2026 trouxe quatro mensagens importantes.
No STAREE, a atorvastatina reduziu eventos cardiovasculares maiores em idosos independentes e sem doença cardiovascular estabelecida, reforçando que a prevenção primária nessa faixa etária deve ser discutida de forma individualizada.
No AMUNDSEN, o evolocumabe iniciado precocemente após IAM com ICP acelerou o alcance da meta de LDL, mas não reduziu morte ou hospitalização cardiovascular em 12 meses.
No TARGET-CTCA, a angiotomografia de coronárias em pacientes com dor torácica, infarto descartado e risco intermediário identificou doença coronária, mas não reduziu morte cardíaca ou infarto.
No ENRICH-AF, a edoxabana não reduziu AVC ou embolia sistêmica após hemorragia intracraniana em pacientes com fibrilação atrial e aumentou sangramento maior, reforçando a necessidade de decisões individualizadas e novas estratégias de prevenção.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
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