O POET-II avaliou uma questão prática no tratamento da endocardite infecciosa esquerda: em pacientes selecionados, com boa evolução e critérios de estabilidade, é possível suspender o antibiótico mais precocemente?
A duração tradicional do tratamento antibiótico para endocardite infecciosa esquerda costuma ser prolongada, frequentemente de 4 a 6 semanas, o que aumenta tempo de exposição a antibióticos, risco de eventos adversos, necessidade de acesso venoso e complexidade do cuidado.
O estudo investigou se uma estratégia adaptada à resposta clínica poderia reduzir esse tempo sem comprometer a segurança.
Como foi conduzido o estudo?
O POET-II foi um estudo multinacional, aberto e randomizado que incluiu 508 pacientes com endocardite infecciosa esquerda.
Os participantes foram randomizados para uma estratégia de terapia guiada pela resposta clínica ou para tratamento antibiótico em duração padrão.
Após a randomização, os pacientes do grupo de terapia adaptada interromperam os antibióticos, enquanto os pacientes do grupo padrão continuaram o tratamento por 4 a 6 semanas.
Quais pacientes foram avaliados?
O estudo incluiu pacientes clinicamente estáveis com endocardite infecciosa do lado esquerdo causada por Staphylococcus aureus, Enterococcus faecalis ou estreptococos.
Esse ponto é essencial para a interpretação do estudo: os resultados não devem ser extrapolados para todos os pacientes com endocardite infecciosa, mas para uma população selecionada, estável e com boa resposta inicial ao tratamento.
Quais foram os principais resultados?
O tempo médio de tratamento no grupo com suspensão precoce foi reduzido em cerca de 13 dias.
A estratégia adaptada à resposta clínica resultou em maior tempo vivo sem antibiótico em comparação ao tratamento padrão e atingiu o critério de não inferioridade em relação à segurança.
Assim, em pacientes selecionados, com boa evolução e critérios de estabilidade, o tratamento antibiótico pode ser encurtado com segurança.
Como interpretar os achados?
O POET-II reforça que a duração do antibiótico na endocardite infecciosa pode ser individualizada em pacientes cuidadosamente selecionados.
No entanto, a própria publicação aponta um ponto de cautela: embora a estratégia adaptada tenha cumprido o critério de não inferioridade de segurança, ela foi associada a maior incidência de recaída de bacteremia ou endocardite infecciosa.
Portanto, a mensagem não é suspender antibiótico precocemente de forma indiscriminada, mas considerar encurtamento apenas em pacientes estáveis, com boa evolução, patógenos contemplados pelo estudo e acompanhamento adequado.
Mensagem prática
Em pacientes selecionados com endocardite infecciosa esquerda, clinicamente estáveis e com boa resposta inicial, o POET-II sugere que a duração do antibiótico pode ser encurtada em aproximadamente duas semanas.
A estratégia foi não inferior quanto à segurança, mas exige cautela pelo sinal de maior recaída de bacteremia ou endocardite.
Na prática, a decisão deve ser individualizada, preferencialmente discutida por equipe multidisciplinar, considerando agente etiológico, evolução clínica, achados ecocardiográficos, controle microbiológico, necessidade cirúrgica e segurança do seguimento.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
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