Um dos temas debatidos durante o segundo dia do congresso ESC 2026, em Munique, na Alemanha, foi em relação aos lípides. O estudo AMUNDSEN avaliou uma estratégia de início muito precoce de evolocumabe em pacientes com infarto agudo do miocárdio submetidos à intervenção coronária percutânea (ICP).
O evolocumabe é um inibidor de PCSK9 usado para redução do LDL-colesterol em pacientes de alto risco cardiovascular.
A dúvida central do estudo era se administrar a medicação antes da ICP, junto à terapia hipolipemiante de alta intensidade, faria com que mais pacientes atingissem a meta de LDL e, eventualmente, apresentassem menor risco de eventos cardiovasculares precoces.
Como foi conduzido o estudo?
O AMUNDSEN foi um estudo randomizado, internacional, de fase 4, com desenho PROBE, ou seja, prospectivo, randomizado, aberto e com avaliação cega de desfechos.
O objetivo foi avaliar os efeitos da inibição precoce de PCSK9 em pacientes de alto risco com infarto agudo do miocárdio submetidos à ICP.
Na publicação principal no JAMA, o estudo avaliou evolocumabe como terapia de primeira linha em comparação ao cuidado padrão em pacientes com infarto agudo do miocárdio de alto risco submetidos à ICP.
O evolocumabe acelerou a meta de LDL?
Sim. O estudo mostrou que os pacientes que receberam evolocumabe alcançaram a meta de LDL muito mais rapidamente do que aqueles que seguiram o cuidado padrão.
Em 12 meses, o alvo de LDL-C < 55 mg/dL e redução de pelo menos 50% em relação ao basal foi alcançado por 792 de 970 pacientes no grupo evolocumabe, ou 82%, em comparação com 370 de 934 pacientes no grupo cuidado padrão, ou 40%.
Esse resultado confirma que a estratégia de inibição precoce de PCSK9 foi eficaz para reduzir LDL de forma rápida e sustentada.
Houve redução de morte ou hospitalização cardiovascular?
Apesar do melhor controle lipídico, a estratégia não levou à redução de morte ou internação por causa cardiovascular.
Ou seja, o evolocumabe imediato após infarto melhorou o alcance das metas de LDL, mas não reduziu desfechos cardiovasculares precoces.
Como interpretar os achados?
O AMUNDSEN mostra que iniciar evolocumabe antes da ICP em pacientes com infarto é uma estratégia eficaz para atingir rapidamente a meta de LDL.
No entanto, o estudo também reforça que alcançar uma meta lipídica mais cedo não necessariamente se traduz em redução de morte ou hospitalização cardiovascular no curto prazo.
Isso pode ter diferentes explicações, incluindo tempo de seguimento, intensidade do tratamento no grupo controle, possibilidade de intensificação posterior da terapia hipolipemiante e baixa capacidade de detectar diferenças em eventos clínicos precoces.
Na prática, os achados apoiam o valor do controle intensivo do LDL após infarto, mas não estabelecem que todo paciente deva receber evolocumabe antes da ICP com o objetivo de reduzir eventos em 12 meses.
Mensagem prática
Em pacientes com infarto agudo do miocárdio submetidos à ICP, o AMUNDSEN mostrou que administrar evolocumabe antes do procedimento, associado à terapia hipolipemiante de alta intensidade, aumentou de forma importante a proporção de pacientes que atingiram a meta de LDL em 12 meses.
No entanto, essa estratégia não reduziu morte ou hospitalização cardiovascular no período avaliado.
Assim, o estudo reforça a importância de atingir precocemente metas intensivas de LDL após IAM, mas sugere que o uso imediato e universal de evolocumabe antes da ICP deve ser interpretado com cautela, considerando risco individual, LDL basal, acesso ao medicamento, custo, adesão e possibilidade de intensificação terapêutica após a alta.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
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