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Cardiologia31 agosto 2026

ESC 2026: Estatina em idosos reduz eventos na prevenção primária?

STAREE mostrou que atorvastatina reduziu eventos cardiovasculares em idosos sem DCV, mas não aumentou sobrevida livre de incapacidade.

O estudo STAREE veio responder uma dúvida antiga: pacientes idosos têm benefício em redução de eventos cardiovasculares com uso de estatina na prevenção primária?

A maior parte dos estudos de prevenção primária excluiu pacientes mais idosos, principalmente aqueles com mais de 75 anos. Por isso, os riscos e benefícios da medicação não eram tão claros nessa população.

O STAREE é relevante por ser o primeiro grande ensaio clínico randomizado desenhado para avaliar estatina em prevenção primária em idosos vivendo de forma independente.

Como foi conduzido o estudo?

O STAREE randomizou pacientes com mais de 70 anos que viviam de forma independente e não tinham história de doença cardiovascular estabelecida para receber placebo ou atorvastatina.

Segundo a publicação no New England Journal of Medicine, foram avaliados adultos vivendo na comunidade, sem doença cardiovascular clínica. As fontes públicas também destacam que a população não tinha diabetes ou demência no início do estudo.

A medicação avaliada foi atorvastatina, em comparação com placebo.

Quais foram os principais resultados?

No seguimento mediano de 5,9 anos, o estudo encontrou redução de risco de 30% na ocorrência de eventos cardiovasculares maiores.

O desfecho cardiovascular incluiu morte cardiovascular, infarto não fatal, AVC ou revascularização coronariana.

Na apresentação da ESC, a taxa de eventos cardiovasculares maiores foi de 6,0% no grupo atorvastatina versus 8,3% no grupo placebo, o que correspondeu à redução relativa de 30%.

Houve impacto em sobrevida livre de incapacidade?

Apesar da redução dos eventos cardiovasculares maiores, a atorvastatina não aumentou significativamente a sobrevida livre de incapacidade.

Esse é um ponto importante porque o STAREE não avaliou apenas eventos cardiovasculares tradicionais, mas também um desfecho particularmente relevante para idosos: viver mais tempo com independência funcional.

A publicação no NEJM concluiu que a atorvastatina reduziu o risco de eventos cardiovasculares maiores, mas não resultou em maior sobrevida livre de incapacidade em adultos mais velhos vivendo na comunidade e sem doença cardiovascular clínica.

Quais eventos adversos chamaram atenção?

Pacientes que usaram atorvastatina apresentaram mais frequentemente alterações musculoesqueléticas, hepatobiliares e diabetes.

No entanto, eventos graves relacionados a essas alterações foram incomuns.

Esse achado reforça que o benefício cardiovascular deve ser avaliado junto ao perfil de segurança, tolerabilidade, polifarmácia e preferências do paciente idoso.

Como interpretar os achados?

O STAREE fornece evidência randomizada importante para uma população historicamente sub-representada nos estudos de prevenção primária.

Os resultados sugerem que a atorvastatina pode reduzir eventos cardiovasculares maiores em idosos independentes, sem doença cardiovascular estabelecida.

No entanto, a ausência de ganho significativo em sobrevida livre de incapacidade impede uma leitura simplista de que todos os idosos com mais de 70 anos devam iniciar estatina automaticamente.

A decisão deve considerar risco cardiovascular absoluto, expectativa de vida, funcionalidade, fragilidade, polifarmácia, risco de eventos adversos, preferências do paciente e objetivos de cuidado.

Mensagem prática

Em idosos com mais de 70 anos, vivendo de forma independente e sem doença cardiovascular estabelecida, o STAREE mostrou que a atorvastatina reduziu eventos cardiovasculares maiores em seguimento mediano de 5,9 anos.

O benefício foi observado para o desfecho composto de morte cardiovascular, infarto não fatal, AVC ou revascularização coronariana.

Por outro lado, a medicação não aumentou significativamente a sobrevida livre de incapacidade, e houve maior frequência de alterações musculoesqueléticas, hepatobiliares e diabetes, embora eventos graves tenham sido incomuns.

Na prática, o estudo fortalece a discussão sobre estatina em prevenção primária no idoso, mas a decisão deve continuar individualizada.

Autoria

Foto de Isabela Abud Manta

Isabela Abud Manta

Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.

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