Um dos estudos apresentados no primeiro dia do congresso de 2026 da European Society of Cardioogy (ESC) foi o SINGLE-AF. Ele avaliou pacientes com fibrilação atrial e risco tromboembólico intermediário, definidos por CHA₂DS₂-VASc de 1 em homens ou 2 em mulheres.
Pelas diretrizes, a anticoagulação pode ser considerada para essa população e, na prática clínica, essa tende a ser uma conduta frequente.
No entanto, ainda faltava um estudo randomizado que confirmasse esse benefício.
Segundo a publicação do estudo, diretrizes americanas e europeias recomendam anticoagulação oral como indicação classe IIa nesse perfil, mas ainda havia necessidade de evidência randomizada.
Como foi conduzido o estudo?
O SINGLE-AF randomizou 1.803 pacientes para receber anticoagulante oral direto, ou DOAC, ou não receber anticoagulação.
O acompanhamento foi de 24 meses.
O desfecho primário composto incluiu:
- acidente vascular cerebral;
- embolia sistêmica;
- sangramento maior;
- morte cardiovascular.
O estudo foi apresentado no ESC Congress 2026 e publicado simultaneamente no New England Journal of Medicine.
Quais foram os principais resultados?
No seguimento de 2 anos, o uso de DOAC reduziu o risco do desfecho primário composto em comparação à ausência de anticoagulação.
A redução parece ter ocorrido principalmente às custas de menor incidência de AVC isquêmico.
Não houve diferença relevante em sangramento maior entre os dois grupos.
Assim, o estudo fornece evidência randomizada de que há benefício da anticoagulação nesse grupo de pacientes com fibrilação atrial e risco tromboembólico intermediário.
Como interpretar os achados?
O SINGLE-AF é relevante porque avaliou uma zona cinzenta da prática clínica: pacientes com fibrilação atrial que não estão no grupo de risco claramente baixo, mas também não apresentam risco tromboembólico alto.
Até então, a anticoagulação nessa população era frequentemente considerada com base em diretrizes, fatores modificadores de risco e julgamento clínico.
Com o SINGLE-AF, passa a existir evidência randomizada mostrando menor risco de eventos clínicos com DOAC em comparação à não anticoagulação em pacientes com risco intermediário.
Ainda assim, a decisão deve continuar individualizada, considerando risco de sangramento, preferências do paciente, comorbidades, função renal, idade, fragilidade e fatores adicionais de risco tromboembólico.
Mensagem prática
Em pacientes com fibrilação atrial e risco tromboembólico intermediário, definidos por CHA₂DS₂-VASc de 1 em homens ou 2 em mulheres, o SINGLE-AF mostrou que o uso de DOAC reduziu eventos clínicos em 24 meses quando comparado à não anticoagulação.
A redução pareceu ser principalmente impulsionada pela menor ocorrência de AVC isquêmico, sem aumento relevante de sangramento maior.
Na prática, os achados fortalecem a anticoagulação nesse grupo de pacientes, mas não eliminam a necessidade de avaliação individual de risco-benefício.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
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