No primeiro dia do Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, o ESC 2026, foram apresentados estudos com potencial impacto na prática clínica em diferentes áreas da cardiologia.
Entre os destaques estiveram o ACACIA-HCM, que avaliou aficamten na miocardiopatia hipertrófica não obstrutiva; o POET II, sobre duração do tratamento antibiótico na endocardite infecciosa esquerda; e o SINGLE-AF, sobre anticoagulação em pacientes com fibrilação atrial e risco tromboembólico intermediário.
ACACIA-HCM: aficamten na miocardiopatia hipertrófica não obstrutiva
O estudo ACACIA-HCM avaliou o uso de aficamten em pacientes com miocardiopatia hipertrófica (MCPH) não obstrutiva.
Essa medicação é um inibidor da miosina cardíaca já estudado em pacientes com a forma obstrutiva da doença.
O ACACIA-HCM randomizou 517 pacientes sintomáticos com MCPH não obstrutiva para receber aficamten ou placebo.
Os resultados mostraram melhora da qualidade de vida e da capacidade funcional com o uso da medicação.
Um ponto de atenção foi a queda da fração de ejeção do ventrículo esquerdo para valores menores que 50% em 10,5% dos pacientes no grupo aficamten, comparado a 0,8% no grupo placebo. Na maioria dos casos, houve resolução após redução da dose ou suspensão da medicação.
O estudo é relevante por apontar benefício em uma população com miocardiopatia hipertrófica não obstrutiva, cenário em que as opções terapêuticas específicas ainda são limitadas.
POET II: antibiótico mais curto na endocardite infecciosa esquerda
Outro estudo de destaque foi o POET II, estudo multinacional, aberto e randomizado, que incluiu 508 pacientes.
O objetivo foi avaliar uma estratégia de suspensão mais precoce de antibiótico no tratamento da endocardite infecciosa esquerda.
O tempo médio de tratamento no grupo com suspensão precoce foi reduzido em cerca de 13 dias.
Os resultados mostraram não inferioridade do desfecho de segurança.
Assim, em pacientes selecionados, com boa evolução e critérios de estabilidade, o tratamento antibiótico pode ser encurtado com segurança.
SINGLE-AF: anticoagulação na fibrilação atrial de risco intermediário
O SINGLE-AF avaliou pacientes com fibrilação atrial e risco tromboembólico intermediário, definidos por CHA₂DS₂-VASc de 1 em homens ou 2 em mulheres.
Pelas diretrizes, a anticoagulação pode ser considerada para essa população e, na prática clínica, essa tende a ser uma conduta frequente. No entanto, ainda faltava um estudo randomizado que confirmasse esse benefício.
O SINGLE-AF randomizou 1.803 pacientes para receber anticoagulante oral direto, ou DOAC, ou não receber anticoagulação.
No seguimento de 2 anos, houve redução do desfecho primário composto por AVC, embolia sistêmica, sangramento maior ou morte cardiovascular no grupo que usou DOAC, em comparação com o grupo sem anticoagulação.
A redução parece ter ocorrido principalmente às custas de menor incidência de AVC isquêmico, sem diferença relevante em sangramento maior entre os grupos.
Assim, o SINGLE-AF fornece evidência randomizada de benefício da anticoagulação em pacientes com fibrilação atrial e risco tromboembólico intermediário.
Mensagem prática
O primeiro dia do ESC 2026 trouxe três mensagens relevantes para a prática.
Na miocardiopatia hipertrófica não obstrutiva, o aficamten mostrou melhora de qualidade de vida e capacidade funcional, mas exige atenção ao risco de queda da fração de ejeção.
Na endocardite infecciosa esquerda, o POET II sugere que, em pacientes selecionados e clinicamente estáveis, pode ser possível encurtar o tratamento antibiótico sem perda de segurança.
Já na fibrilação atrial de risco intermediário, o SINGLE-AF fortalece a indicação de anticoagulação com DOAC, ao demonstrar redução de eventos clínicos sem aumento significativo de sangramento maior.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
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