No primeiro dia do ESC 2026, a edição deste ano do congresso da European Society of Cardiology (ESC) apresentou o estudo ACACIA-HCM como um dos mais interessantes.
Por que o ACACIA-HCM é importante?
O estudo ACACIA-HCM avaliou o uso de aficamten em pacientes com miocardiopatia hipertrófica (MCPH) não obstrutiva.
Essa medicação é um inibidor da miosina cardíaca já utilizado e estudado em pacientes com a forma obstrutiva da doença.
A relevância do estudo está no fato de que a MCPH não obstrutiva é uma condição associada a sintomas, limitação funcional e poucas opções terapêuticas específicas comprovadas.
Como foi conduzido o estudo?
O ACACIA-HCM randomizou 517 pacientes sintomáticos com MCPH não obstrutiva para receber aficamten ou placebo.
Os participantes foram acompanhados por até 72 semanas, com ajuste da dose de aficamten conforme a fração de ejeção do ventrículo esquerdo.
Quais foram os principais resultados?
Os resultados mostraram melhora da qualidade de vida e da capacidade funcional com aficamten em comparação ao placebo.
Segundo a cobertura do American College of Cardiology, os pacientes tratados com aficamten apresentaram melhora significativamente maior da capacidade de exercício e do estado de saúde autorrelatado na avaliação de 36 semanas.
Esse achado é relevante porque o estudo aponta benefício em pacientes com a forma não obstrutiva da MCPH, uma população para a qual ainda não havia uma medicação específica com benefício demonstrado em ensaio clínico dessa magnitude.
Qual foi o ponto de atenção em segurança?
Um ponto de atenção foi a queda da fração de ejeção do ventrículo esquerdo para valores menores que 50%.
Esse evento ocorreu em 10,5% dos pacientes do grupo aficamten e em 0,8% do grupo placebo.
Na maioria dos casos, houve resolução após redução da dose ou suspensão da medicação.
Esse achado reforça que, embora o aficamten tenha demonstrado benefício clínico, seu uso exige monitoramento ecocardiográfico e ajuste de dose.
Como interpretar os achados?
O ACACIA-HCM sugere que o aficamten pode representar uma opção terapêutica relevante para pacientes com MCPH não obstrutiva sintomática.
O benefício observado em qualidade de vida e capacidade funcional é especialmente importante em uma condição na qual o tratamento costuma ser voltado ao controle de sintomas e à redução de limitação funcional.
No entanto, a queda reversível da fração de ejeção em parte dos pacientes mostra que a segurança depende de seleção adequada, titulação cuidadosa e acompanhamento seriado da função ventricular.
Mensagem prática
O ACACIA-HCM mostrou que o aficamten melhorou qualidade de vida e capacidade funcional em pacientes sintomáticos com miocardiopatia hipertrófica não obstrutiva.
Esse é um achado relevante por apontar uma possível opção terapêutica específica para uma população com alternativas limitadas.
Na prática, o entusiasmo deve vir acompanhado de cautela: cerca de 10% dos pacientes em uso de aficamten tiveram queda da fração de ejeção para menos de 50%, geralmente reversível com redução da dose ou suspensão.
Assim, o aficamten pode inaugurar uma nova etapa no tratamento da MCPH não obstrutiva, mas seu uso deve depender de monitoramento ecocardiográfico, ajuste de dose e avaliação cuidadosa de risco-benefício.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
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