Recentemente, a Sociedade Brasileira de Cardiologia publicou um documento sobre emergências cardiovasculares em atletas. Esse documento representou um avanço necessário na construção de políticas públicas que permitam não apenas a detecção precoce do risco individual, mas também a preparação adequada de todo o ecossistema de eventos esportivos para que haja resposta efetiva frente às emergências cardiovasculares.

Definição
Morte súbita: Morte inesperada em até 1 hora após a realização de exercícios de intensidade moderada ou elevada.
As causas de morte súbita em atletas podem ser congênitas ou adquiridas, predominando, nos indivíduos mais jovens (< 35 anos), as cardiopatias estruturais genéticas e as canalopatias, além das miocardites de origem viral.
Em atletas com 35 anos ou mais, a doença arterial coronariana (DAC) corresponde à etiologia responsável por mais de 80% dos casos de morte súbita cardíaca.
Destacou-se que nem toda morte súbita em atletas é de origem cardíaca. O uso disseminado de substâncias para a melhora de performance – como esteroides anabolizantes, hormônios peptídicos e drogas recreativas– tem sido relacionado ao aumento de doenças cardiovasculares adquiridas e morte súbita em jovens.
A avaliação pré-participação esportiva (APP) constitui a principal ferramenta preventiva da morte súbita no esporte, permitindo identificar indivíduos de risco e orientar condutas.
Avaliação pré-participação
A APP cardiológica tem como principal objetivo identificar doenças cardiovasculares potencialmente fatais que possam aumentar o risco de MSC e arritmias malignas durante a prática esportiva.
Essa avaliação é recomendada para: atletas competitivos, praticantes de esportes recreativos, indivíduos que iniciam treinamento intenso.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) estabelece que a avaliação deve incluir:
- Anamnese detalhada;
- Exame físico completo;
- Exames complementares:
- < 35 anos, sem comorbidades: ECG;
- ≥ 35 anos ou com fatores de risco: ECG + exames laboratoriais + teste ergométrico ou outro exame funcional/anatômico de acordo com a probabilidade pré-teste de DAC;
- Atletas de elite: avaliação completa (ECG, ecocardiograma, teste funcional – ergométrico ou cardiopulmonar).
14 pontos da avaliação pré-participação:
História clínica: Critério Dor/desconforto torácico durante exercício, síncope ou pré-síncope relacionada ao esforço, dispneia ou fadiga excessiva desproporcional, história de sopro cardíaco, hipertensão arterial diagnosticada, história familiar de morte súbita (< 50 anos), história familiar de cardiomiopatias, síndrome de Marfan ou arritmias graves, doença cardíaca congênita em parentes de primeiro grau.
Exame físico: Sopros patológicos, pulsos femorais diminuídos, sinais de síndrome de Marfan, medida da pressão arterial, bulhas anormais (B3, B4 ou galope), arritmias.
Plano de ação
No cenário de evento, o fator mais crítico é o tempo até intervenção na parada cardiorrespiratória (PCR). A sobrevida depende diretamente de RCP precoce e desfibrilação rápida: a cada minuto sem intervenção, a chance de sobrevida cai 6–10%. Idealmente, o tempo até o primeiro choque deve ser <3 minutos, período em que predominam ritmos chocáveis (FV/TV). Após isso, há rápida evolução para ritmos não chocáveis e pior prognóstico.
Por isso, o documento enfatiza que todo evento deve funcionar como um “microambiente hospitalar”, com plano de ação de emergência (PAE) formal, treinado e auditado, incluindo fluxos definidos, liderança clara e integração com SAMU/hospitais. A infraestrutura mínima envolve desfibriladores externos automáticos distribuídos estrategicamente (alcance ≤3 min), equipamentos de suporte básico e avançado de vida, medicamentos de emergência e vias de evacuação desobstruídas.
Outro ponto central é o treinamento multiprofissional e leigo: não apenas equipe médica, mas também staff, seguranças, árbitros e até atletas devem ser capacitados para reconhecer colapso, iniciar RCP e usar DEA. Na prática, muitas PCRs são inicialmente atendidas por não médicos, o que torna esse treinamento determinante para prognóstico.
A logística deve ser proporcional ao porte do evento, com postos médicos fixos e móveis, ambulâncias UTI, comunicação integrada e mapeamento prévio de rotas. Eventos de grande porte exigem planejamento detalhado, com definição de hospital de referência, tempo de transporte ideal (<5 min interno) e coordenação central em tempo real.
Apesar do conhecimento consolidado, o documento destaca uma lacuna importante entre teoria e prática no Brasil: baixa implementação de triagem adequada, insuficiência de DEAs, treinamento limitado em RCP e falhas na integração com sistemas de emergência, o que impacta diretamente a mortalidade evitável.
Em síntese, na prática clínica e organizacional: a prevenção começa na triagem adequada do atleta; porém, o que salva vidas no evento é cadeia de sobrevivência bem executada — reconhecimento imediato, RCP de alta qualidade e desfibrilação precoce dentro de minutos, sustentada por logística, treinamento e protocolos padronizados.
Autoria

Juliane Braziliano
Médica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE) Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Editora Médica de Endocrinologia do Portal Afya e Whitebook
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