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Cardiologia22 abril 2026

Emergências cardiovasculares no esporte: novas recomendações da SBC

Documento da SBC orienta prevenção e manejo de emergências cardiovasculares em eventos esportivos e morte súbita.
Emergências cardiovasculares no esporte: novas recomendações da SBC
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Recentemente, a Sociedade Brasileira de Cardiologia publicou um documento sobre emergências cardiovasculares em atletas. Esse documento representou um avanço necessário na construção de políticas públicas que permitam não apenas a detecção precoce do risco individual, mas também a preparação adequada de todo o ecossistema de eventos esportivos para que haja resposta efetiva frente às emergências cardiovasculares. 

emergência cardiovascular no esporte

Definição 

Morte súbita: Morte inesperada em até 1 hora após a realização de exercícios de intensidade moderada ou elevada. 

As causas de morte súbita em atletas podem ser congênitas ou adquiridas, predominando, nos indivíduos mais jovens (< 35 anos), as cardiopatias estruturais genéticas e as canalopatias, além das miocardites de origem viral. 

Em atletas com 35 anos ou mais, a doença arterial coronariana (DAC) corresponde à etiologia responsável por mais de 80% dos casos de morte súbita cardíaca. 

Destacou-se que nem toda morte súbita em atletas é de origem cardíaca. O uso disseminado de substâncias para a melhora de performance – como esteroides anabolizantes, hormônios peptídicos e drogas recreativas– tem sido relacionado ao aumento de doenças cardiovasculares adquiridas e morte súbita em jovens.  

A avaliação pré-participação esportiva (APP) constitui a principal ferramenta preventiva da morte súbita no esporte, permitindo identificar indivíduos de risco e orientar condutas. 

Avaliação pré-participação 

A APP cardiológica tem como principal objetivo identificar doenças cardiovasculares potencialmente fatais que possam aumentar o risco de MSC e arritmias malignas durante a prática esportiva.  

Essa avaliação é recomendada para: atletas competitivos, praticantes de esportes recreativos, indivíduos que iniciam treinamento intenso. 

O Conselho Federal de Medicina (CFM) estabelece que a avaliação deve incluir:  

  • Anamnese detalhada; 
  • Exame físico completo; 
  • Exames complementares:
  • < 35 anos, sem comorbidades: ECG; 
  • ≥ 35 anos ou com fatores de risco: ECG + exames laboratoriais + teste ergométrico ou outro exame funcional/anatômico de acordo com a probabilidade pré-teste de DAC;
  • Atletas de elite: avaliação completa (ECG, ecocardiograma, teste funcional – ergométrico ou cardiopulmonar).

14 pontos da avaliação pré-participação: 

História clínica: Critério Dor/desconforto torácico durante exercício, síncope ou pré-síncope relacionada ao esforço, dispneia ou fadiga excessiva desproporcional, história de sopro cardíaco, hipertensão arterial diagnosticada, história familiar de morte súbita (< 50 anos), história familiar de cardiomiopatias, síndrome de Marfan ou arritmias graves, doença cardíaca congênita em parentes de primeiro grau. 

Exame físico: Sopros patológicos, pulsos femorais diminuídos, sinais de síndrome de Marfan, medida da pressão arterial, bulhas anormais (B3, B4 ou galope), arritmias. 

Plano de ação 

No cenário de evento, o fator mais crítico é o tempo até intervenção na parada cardiorrespiratória (PCR). A sobrevida depende diretamente de RCP precoce e desfibrilação rápida: a cada minuto sem intervenção, a chance de sobrevida cai 6–10%. Idealmente, o tempo até o primeiro choque deve ser <3 minutos, período em que predominam ritmos chocáveis (FV/TV). Após isso, há rápida evolução para ritmos não chocáveis e pior prognóstico.  

Por isso, o documento enfatiza que todo evento deve funcionar como um “microambiente hospitalar”, com plano de ação de emergência (PAE) formal, treinado e auditado, incluindo fluxos definidos, liderança clara e integração com SAMU/hospitais. A infraestrutura mínima envolve desfibriladores externos automáticos distribuídos estrategicamente (alcance ≤3 min), equipamentos de suporte básico e avançado de vida, medicamentos de emergência e vias de evacuação desobstruídas.  

Outro ponto central é o treinamento multiprofissional e leigo: não apenas equipe médica, mas também staff, seguranças, árbitros e até atletas devem ser capacitados para reconhecer colapso, iniciar RCP e usar DEA. Na prática, muitas PCRs são inicialmente atendidas por não médicos, o que torna esse treinamento determinante para prognóstico.  

A logística deve ser proporcional ao porte do evento, com postos médicos fixos e móveis, ambulâncias UTI, comunicação integrada e mapeamento prévio de rotas. Eventos de grande porte exigem planejamento detalhado, com definição de hospital de referência, tempo de transporte ideal (<5 min interno) e coordenação central em tempo real.  

Apesar do conhecimento consolidado, o documento destaca uma lacuna importante entre teoria e prática no Brasil: baixa implementação de triagem adequada, insuficiência de DEAs, treinamento limitado em RCP e falhas na integração com sistemas de emergência, o que impacta diretamente a mortalidade evitável.  

Em síntese, na prática clínica e organizacional: a prevenção começa na triagem adequada do atleta; porém, o que salva vidas no evento é cadeia de sobrevivência bem executada — reconhecimento imediato, RCP de alta qualidade e desfibrilação precoce dentro de minutos, sustentada por logística, treinamento e protocolos padronizados. 

Autoria

Foto de Juliane Braziliano

Juliane Braziliano

Médica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE) Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Editora Médica de Endocrinologia do Portal Afya e Whitebook

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