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Cardiologia31 maio 2026

Efeitos cardiometabólicos da dapagliflozina e liraglutida

Estudo avalia efeitos de dapagliflozina e liraglutida no perfil lipídico, risco cardiovascular e NT-proBNP na MASLD.
Por Juliana Avelar

Recentemente foi publicado um artigo que avaliou o impacto da liraglutida e da dapagliflozina em pacientes com Doença Hepática Esteatótica Associada à Disfunção Metabólica (MASLD), com foco em perfil lipídico, risco cardiovascular estimado e comportamento do NT-proBNP após 6 meses de tratamento. 

A relevância clínica do estudo é clara. Atualmente, a MASLD é entendida como uma doença cardiometabólica sistêmica, fortemente associada a obesidade, resistência insulínica, diabetes tipo 2 e dislipidemia aterogênica. Além da progressão hepática, o principal determinante prognóstico desses pacientes é cardiovascular. Nesse cenário, terapias com agonistas do receptor de GLP-1 e inibidores de SGLT2 vêm ganhando destaque não apenas pelos efeitos glicêmicos, mas também pelo potencial impacto sobre peso, inflamação metabólica, esteatose hepática e risco cardiovascular. 

efeitos cardiometabólicos da dapagliflozina e liraglutida

Métodos 

O estudo foi prospectivo, randomizado e de grupos paralelos, incluindo 115 pacientes com MASLD confirmada. Os pacientes foram divididos em três grupos: controle com intervenção não farmacológica (dieta mediterrânea e atividade física), dapagliflozina 10 mg/dia e liraglutida titulada até 1,8 mg/dia. O seguimento foi de 6 meses. 

Os desfechos avaliados incluíram perfil lipídico, NT-proBNP e risco cardiovascular estimado por cinco escores validados. 

Resultados 

Os resultados mostraram melhora significativa intra-grupo em todos os braços do estudo: 

  • Redução de colesterol total; 
  • Redução de LDL-C; 
  • Redução de triglicerídeos; 
  • Aumento de HDL-C. 

Entretanto, a liraglutida apresentou melhora mais pronunciada do perfil lipídico na análise intergrupos, especialmente em colesterol total, LDL-C e HDL-C. 

Todos os escores de risco cardiovascular apresentaram redução significativa após 6 meses de tratamento, sem diferença estatística entre os grupos. 

O comportamento do NT-proBNP foi um dos achados mais interessantes do estudo: 

  • Houve aumento significativo no grupo controle; 
  • Aumento também no grupo liraglutida; 
  • Estabilidade no grupo dapagliflozina. 

Os autores discutem que pacientes com MASLD podem apresentar níveis relativamente baixos de NT-proBNP devido à hiperinsulinemia e à obesidade, potencialmente mascarando estresse miocárdico subclínico. Contudo, a interpretação desses resultados permanece incerta. 

Apesar dos achados positivos, o estudo possui limitações importantes como amostra pequena, seguimento curto, ausência de cegamento, ausência de desfechos cardiovasculares clínicos, ausência de avaliação histológica hepática, utilização de calculadoras de risco como endpoint substituto e heterogeneidade basal nos níveis de NT-proBNP. 

Além disso, os escores cardiovasculares utilizados não foram desenvolvidos para avaliar resposta terapêutica de curto prazo. Como dependem diretamente de variáveis lipídicas, parte da “redução de risco cardiovascular” observada provavelmente reflete melhora laboratorial e não necessariamente redução comprovada de eventos cardiovasculares. 

Conclusão 

Do ponto de vista prático, o estudo reforça o racional contemporâneo de utilização de GLP-1 RA e iSGLT2 em pacientes com MASLD e perfil cardiometabólico elevado. A liraglutida demonstrou sinal metabólico mais robusto sobre parâmetros lipídicos, enquanto a estabilidade do NT-proBNP com dapagliflozina levanta hipótese interessante sobre possíveis efeitos cardioprotetores precoces, embora ainda sem comprovação definitiva. 

O trabalho não muda prática clínica isoladamente, mas se soma ao corpo crescente de evidências que posiciona GLP-1 RA e iSGLT2 como terapias centrais no manejo integrado da obesidade, diabetes e MASLD, especialmente em pacientes com alto risco cardiovascular. 

Autoria

Foto de Juliana Avelar

Juliana Avelar

Médica formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Cardiologista pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia

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Referências bibliográficas

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