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Cardiologia8 julho 2026

Custo-efetividade das terapias para insuficiência cardíaca no Brasil

Revisão brasileira avaliou custo-efetividade de terapias para insuficiência cardíaca, incluindo fármacos, TRC, CDI e reabilitação.
Por Ivson Braga

Os estudos de custo-efetividade são importantes ferramentas utilizadas para avaliar e comparar custos e resultados de uma ou mais intervenções em saúde. Além de maximizarem o ganho de saúde, auxiliam na tomada de decisões de políticas públicas e de sistemas de saúde.

Em relação à insuficiência cardíaca (IC), por sua elevada prevalência e pelo tratamento envolver diversas classes de medicamentos e dispositivos, avaliar a custo-efetividade ajuda a entender qual tratamento ou intervenção agrega maior valor na decisão clínica e em políticas públicas de saúde.

Saiba mais: Diretriz de Insuficiência Cardíaca 2024: Mais do Mesmo?

Uma revisão sistemática nacional publicada nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, intitulada “Custo-Efetividade das Terapias para Insuficiência Cardíaca no Brasil: Uma Revisão Sistemática”, avaliou estudos econômicos nacionais envolvendo tratamento da IC no Brasil. Foram incluídos 25 estudos brasileiros, com foco em custo por QALY (quality-adjusted life years), custo por desfecho clínico e impacto financeiro das intervenções.

Como a revisão brasileira avaliou as terapias para IC?

No estudo, considerou-se custo-efetiva a intervenção cujo valor da Razão de Custo-Efetividade Incremental (RCEI) fosse inferior a 1 vez o PIB per capita brasileiro ajustado por paridade do poder de compra (PPC). Em 2024, o PIB per capita brasileiro ajustado por PPC foi de aproximadamente Int$ 19.648. Valores abaixo desse limiar foram considerados custo-efetivos.

O QALY (quality-adjusted life year, ou “ano de vida ajustado pela qualidade”) foi usado para avaliar simultaneamente quanto uma terapia aumenta a sobrevida e melhora a qualidade de vida do paciente. Um QALY corresponde a 1 ano vivido em saúde perfeita. Uma intervenção pode gerar ganho de QALY tanto por prolongar a vida quanto por reduzir sintomas, hospitalizações e incapacidade.

Terapias farmacológicas: quais tiveram melhor custo-benefício?

De forma geral, o tratamento clínico consolidado para insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (ICFEr) tem excelente relação custo-benefício.

Saiba mais: Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida

A espironolactona e a eplerenona demonstraram elevada atratividade econômica, com razões de custo-efetividade incremental (RCEI) de Int$ 7.955/QALY e Int$ 6.459/QALY, respectivamente. Por sua vez, a finerenona apresentou RCEI de Int$ 109.840/QALY, sendo classificada como não custo-efetiva.

Em relação aos inibidores de SGLT2, a dapagliflozina apresentou excelente perfil clínico e econômico, condizente com estudos internacionais. A incorporação ao tratamento padrão da ICFEr resultou em ganho adicional de 0,36 QALY, com RCEI em torno de Int$ 9.000/QALY.

Saiba mais: Dapagliflozina é custo-efetiva para tratamento de insuficiência cardíaca

O sacubitril/valsartana, inibidor da neprilisina associado ao bloqueador do receptor de angiotensina, também demonstrou ser custo-efetivo. Comparado ao enalapril, o sacubitril/valsartana apresentou ganho de 0,57 QALY e RCEI de Int$ 11.691/QALY.

A avaliação de custo-efetividade do tratamento na insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp) apresenta limitações, pois não existem dados de estudos econômicos nacionais voltados para ICFEp.

Terapias não farmacológicas e dispositivos

A reabilitação cardíaca supervisionada apresentou RCEI de Int$ 26.462/QALY. Embora o valor seja superior ao observado para terapias farmacológicas, pode ser considerado aceitável em determinados contextos clínicos.

Em relação a programas de acompanhamento domiciliar, estratégias conduzidas por enfermeiros, com visitas domiciliares e suporte telefônico, mostraram excelentes resultados, com redução de 27% no desfecho composto de morte, reinternação ou atendimento em emergência. Na perspectiva da saúde suplementar, o programa foi considerado dominante, ou seja, mais eficaz e menos custoso que o cuidado convencional.

A terapia de ressincronização cardíaca (TRC) isoladamente apresentou excelente custo-efetividade em pacientes selecionados com FE < 35%, classe funcional NYHA II-IV e bloqueio de ramo esquerdo, com RCEI de Int$ 15.723/QALY. O upgrade para associação com cardiodesfibrilador implantável (CDI) aumentou bastante o custo, exigindo seleção mais criteriosa de pacientes.

Quanto ao CDI na prevenção primária ampla, não foi custo-efetivo, com RCEI de Int$ 50.345/QALY. Em subgrupos de maior risco arrítmico, como FE < 25%, taquicardia ventricular não sustentada ou síncope, o dispositivo passou a apresentar perfil custo-efetivo.

A oxigenação por membrana extracorpórea venoarterial (VA-ECMO) apresentou RCEI de aproximadamente Int$ 37.491/QALY em choque cardiogênico refratário. Apesar do elevado custo, os autores ressaltam que pacientes em risco iminente de morte podem justificar limiares de custo-efetividade mais flexíveis.

O transplante cardíaco apresentou custo médio de Int$ 107.390 por paciente, valor significativamente superior ao reembolso do SUS na época analisada.

O que os resultados indicam para a prática clínica?

De forma resumida, a revisão sistemática demonstrou que diversas terapias contemporâneas para ICFEr apresentam excelente relação custo-benefício no Brasil. Espironolactona, eplerenona, dapagliflozina, sacubitril/valsartana e TRC foram as intervenções com maior valor em saúde.

A análise não permitiu avaliar a custo-efetividade no cenário de ICFEp e em tecnologias mais recentes.

Mensagem prática

Para cardiologistas clínicos, o grande mérito do trabalho foi demonstrar que a prescrição do “quarteto fantástico” não reduz apenas mortalidade, mas também apresenta perfil de custo-efetividade favorável no cenário brasileiro.

Autoria

Foto de Ivson Braga

Ivson Braga

Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Residência em Cardiologia pela Universidade de Pernambuco (UPE). Professor universitário e coordenador da Residência em Cardiologia.

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