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Cardiologia23 julho 2026

Consenso AHA determina associação entre cafeína e doenças cardiovasculares

Recentemente a American Heart Association publicou um consenso sobre cafeína e sua relação com as doenças cardiovasculares (DCV).

A cafeína é uma das drogas mais consumidas no mundo e sua relação com a saúde é complicada pelo fato de não ser apenas consumida em sua forma pura, mas também em alimentos e bebidas diferentes, o que torna difícil diferenciar seus efeitos dos efeitos dos outros componentes desses alimentos.  

A maioria dos estudos se trata de estudos observacionais, com fatores confundidores, e acaba focando na avaliação do café e não da cafeína propriamente dita. Recentemente a American Heart Association publicou um consenso sobre cafeína e sua relação com as doenças cardiovasculares (DCV). Abaixo segue, as principais informações desse consenso.  

Mecanismos e farmacologia 

A cafeína é a substância estimulante e psicoativa mais popular, utilizada desde 2737 antes de Cristo. Atualmente existem mais de 60 espécies de plantas que naturalmente contêm cafeína, porém também pode ser encontrada em forma de medicamentos e outros produtos comercializados.  

Sua biodisponibilidade oral é de 100% e é altamente hidrofílica, sendo dissolvida rapidamente, com pico em 1 hora após absorção. Seu metabolismo de primeira passagem é mínimo, sendo o perfil farmacocinético linear, o que significa que doses maiores levam a níveis séricos maiores. Sua metabolização é pelo citocromo P450 e sua eliminação é urinária, sendo que altas concentrações tem eliminação mais lenta. O consumo de alimentos ricos em gordura e fibras pode diminuir o pico de concentração por lentificação do esvaziamento gástrico.  

Seu efeito ocorre por diversos mecanismos, como antagonismo do receptor de adenosina, inibição da enzima fosfodiesterase, liberação de cálcio dos depósitos intracelulares e antagonismo dos receptores GABAA. 

Também existem variantes genéticas relacionadas ao metabolismo da cafeína, o que torna os efeitos psicoestimulantes extremamente variáveis e alguns polimorfismos parecem ter relação com preferências e padrões de consumo.  

Relação com fatores de risco cardiovasculares 

– Pressão arterial (PA): a relação entre café e PA é complexa. Homens hipertensos tem aumento da PA sistólica e diastólica após consumo de 250mg comparado a não hipertensos. Algumas coortes mostraram uma associação inversa em forma de J, com o aumento do risco de hipertensão com consumo de 1 a 3 xícaras por dia, porém com tendência a redução do risco com maior consumo. O efeito no longo prazo não é claro, mas parece ser mínimo.  

Ao contrário, energéticos com altas concentrações de cafeína parecem levar a aumento da PA, já o café verde parece reduzi-la. Bebidas energéticas antes do exercício aumentam a PA sistólica em pessoas saudáveis e o risco pode ser maior para os hipertensos.  

– Diabetes: estudos sugerem que a cafeína reduz a sensibilidade a insulina no curto prazo, mas a maioria deles mostrou efeitos benéficos. O consumo habitual de café mostrou associação consistente com redução de diabetes tipo 2, sendo que uma revisão mostrou redução de risco de  20% e 30% com consumo de 3,5 e 5 xícaras por dia.  

Outros estudos observacionais também mostraram resultados semelhantes, porém é possível que possa haver efeito de outras substâncias do café que não a cafeína. Já os estudos randomizados não encontraram diferença em quem consome ou não café.  

– Lípides: o consumo de café aumentou a concentração de colesterol e um estudo que randomizou pacientes para receber cafestol, um componente do café, não cafeína, levou a aumento de LDL. Porém, esse componente não está presente na maioria dos cafés coados e instantâneos.  

– Arritmias: Estudos observacionais e metanálises mostraram que cafeína e café têm associação com menor risco de fibrilação atrial (FA) ou resultados neutros, principalmente com consumo regular e moderado da substância. Poucos estudos avaliaram chá verde e também encontraram menor ocorrência de FA e atualmente não se deve recomendar suspensão de cafeína para reduzir risco de FA.  

– Doença aterosclerótica coronária (DAC): estudos mais recentes mostraram que não há associação com maior risco de DAC alguns mostraram que o consumo leve a moderado (até 3,5 xícaras ao dia) reduziu esse risco em 10%. Assim, parece que o consumo em quantidades habituais não afeta o risco de DAC e pode até reduzi-lo.  

– Insuficiência cardíaca (IC): a associação entre cafeína e IC não foi avaliada de forma randomizada e as evidências vem de estudos observacionais limitados. Os resultados são controversos, mas algumas análises sugerem menor risco de IC com consumo diário moderado de café.  

– Acidente vascular cerebral (AVC): alguns estudos encontraram menor risco de AVC, principalmente isquêmico, em quem consumia café comparado aos que não consumiam. Um estudo mostrou que o menor risco parece ser dos que consomem quantidades moderadas (3-4 xícaras) e parece não haver benefício do café descafeinado.  

Comentários e conclusão 

Essa revisão mostrou que o consumo moderado de cafeína ou café (400mg/dia de cafeína ou 3-5 xícaras de café) é seguro para a maioria dos adultos e leva a redução de risco cardiovascular, incluindo DAC, AVC, IC e FA, assim como hipertensão e diabetes. Geralmente há associação inversa entre consumo habitual e mortalidade por todas as causas em diferentes populações. 

Essa associação geralmente não é linear, com a menor mortalidade nos pacientes com consumo moderado, e essas relações costumam ocorrer tanto para cafés cafeinados quanto não cafeinados, o que reforça os efeitos de outros componentes do café. Os dados em relação a bebidas energéticas são limitados e os estudos disponíveis geralmente sugerem dano cardiovascular. 

Autoria

Foto de Isabela Abud Manta

Isabela Abud Manta

Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.

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