A cafeína é uma das drogas mais consumidas no mundo e sua relação com a saúde é complicada pelo fato de não ser apenas consumida em sua forma pura, mas também em alimentos e bebidas diferentes, o que torna difícil diferenciar seus efeitos dos efeitos dos outros componentes desses alimentos.
A maioria dos estudos se trata de estudos observacionais, com fatores confundidores, e acaba focando na avaliação do café e não da cafeína propriamente dita. Recentemente a American Heart Association publicou um consenso sobre cafeína e sua relação com as doenças cardiovasculares (DCV). Abaixo segue, as principais informações desse consenso.

Mecanismos e farmacologia
A cafeína é a substância estimulante e psicoativa mais popular, utilizada desde 2737 antes de Cristo. Atualmente existem mais de 60 espécies de plantas que naturalmente contêm cafeína, porém também pode ser encontrada em forma de medicamentos e outros produtos comercializados.
Sua biodisponibilidade oral é de 100% e é altamente hidrofílica, sendo dissolvida rapidamente, com pico em 1 hora após absorção. Seu metabolismo de primeira passagem é mínimo, sendo o perfil farmacocinético linear, o que significa que doses maiores levam a níveis séricos maiores. Sua metabolização é pelo citocromo P450 e sua eliminação é urinária, sendo que altas concentrações tem eliminação mais lenta. O consumo de alimentos ricos em gordura e fibras pode diminuir o pico de concentração por lentificação do esvaziamento gástrico.
Seu efeito ocorre por diversos mecanismos, como antagonismo do receptor de adenosina, inibição da enzima fosfodiesterase, liberação de cálcio dos depósitos intracelulares e antagonismo dos receptores GABAA.
Também existem variantes genéticas relacionadas ao metabolismo da cafeína, o que torna os efeitos psicoestimulantes extremamente variáveis e alguns polimorfismos parecem ter relação com preferências e padrões de consumo.
Relação com fatores de risco cardiovasculares
– Pressão arterial (PA): a relação entre café e PA é complexa. Homens hipertensos tem aumento da PA sistólica e diastólica após consumo de 250mg comparado a não hipertensos. Algumas coortes mostraram uma associação inversa em forma de J, com o aumento do risco de hipertensão com consumo de 1 a 3 xícaras por dia, porém com tendência a redução do risco com maior consumo. O efeito no longo prazo não é claro, mas parece ser mínimo.
Ao contrário, energéticos com altas concentrações de cafeína parecem levar a aumento da PA, já o café verde parece reduzi-la. Bebidas energéticas antes do exercício aumentam a PA sistólica em pessoas saudáveis e o risco pode ser maior para os hipertensos.
– Diabetes: estudos sugerem que a cafeína reduz a sensibilidade a insulina no curto prazo, mas a maioria deles mostrou efeitos benéficos. O consumo habitual de café mostrou associação consistente com redução de diabetes tipo 2, sendo que uma revisão mostrou redução de risco de 20% e 30% com consumo de 3,5 e 5 xícaras por dia.
Outros estudos observacionais também mostraram resultados semelhantes, porém é possível que possa haver efeito de outras substâncias do café que não a cafeína. Já os estudos randomizados não encontraram diferença em quem consome ou não café.
– Lípides: o consumo de café aumentou a concentração de colesterol e um estudo que randomizou pacientes para receber cafestol, um componente do café, não cafeína, levou a aumento de LDL. Porém, esse componente não está presente na maioria dos cafés coados e instantâneos.
– Arritmias: Estudos observacionais e metanálises mostraram que cafeína e café têm associação com menor risco de fibrilação atrial (FA) ou resultados neutros, principalmente com consumo regular e moderado da substância. Poucos estudos avaliaram chá verde e também encontraram menor ocorrência de FA e atualmente não se deve recomendar suspensão de cafeína para reduzir risco de FA.
– Doença aterosclerótica coronária (DAC): estudos mais recentes mostraram que não há associação com maior risco de DAC alguns mostraram que o consumo leve a moderado (até 3,5 xícaras ao dia) reduziu esse risco em 10%. Assim, parece que o consumo em quantidades habituais não afeta o risco de DAC e pode até reduzi-lo.
– Insuficiência cardíaca (IC): a associação entre cafeína e IC não foi avaliada de forma randomizada e as evidências vem de estudos observacionais limitados. Os resultados são controversos, mas algumas análises sugerem menor risco de IC com consumo diário moderado de café.
– Acidente vascular cerebral (AVC): alguns estudos encontraram menor risco de AVC, principalmente isquêmico, em quem consumia café comparado aos que não consumiam. Um estudo mostrou que o menor risco parece ser dos que consomem quantidades moderadas (3-4 xícaras) e parece não haver benefício do café descafeinado.
Comentários e conclusão
Essa revisão mostrou que o consumo moderado de cafeína ou café (400mg/dia de cafeína ou 3-5 xícaras de café) é seguro para a maioria dos adultos e leva a redução de risco cardiovascular, incluindo DAC, AVC, IC e FA, assim como hipertensão e diabetes. Geralmente há associação inversa entre consumo habitual e mortalidade por todas as causas em diferentes populações.
Essa associação geralmente não é linear, com a menor mortalidade nos pacientes com consumo moderado, e essas relações costumam ocorrer tanto para cafés cafeinados quanto não cafeinados, o que reforça os efeitos de outros componentes do café. Os dados em relação a bebidas energéticas são limitados e os estudos disponíveis geralmente sugerem dano cardiovascular.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
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