As cardiopatias congênitas cianóticas ocorrem em aproximadamente 0,2% dos nascidos vivos nos Estados Unidos. Tetralogia de Fallot, transposição das grandes artérias em D-loop e cardiopatias com circulação univentricular respondem por cerca de 80% dos casos.
O avanço das técnicas cirúrgicas modificou profundamente a história natural dessas doenças. Cerca de 90% dos pacientes com tetralogia de Fallot sobrevivem por mais de 30 anos após o reparo. Na transposição das grandes artérias, a troca arterial proporciona sobrevida de 93% a 97% em 30 anos. Após a operação de Fontan, a sobrevida aos 40 a 50 anos varia de 50% a 80%.
Esse ganho de sobrevida, no entanto, trouxe um novo desafio clínico. O paciente chega à vida adulta depois de uma cirurgia bem-sucedida, muitas vezes sem cianose e com boa capacidade funcional, mas continua exposto às consequências da anatomia original e das modificações realizadas durante o reparo. O risco está em interpretar a correção prévia como ausência de doença cardiovascular ativa.
Objetivo da revisão
Os autores revisaram as principais complicações cardiovasculares tardias observadas em adultos com tetralogia de Fallot, transposição das grandes artérias em D-loop e circulação univentricular.
O artigo procura relacionar a anatomia congênita e a operação realizada ao risco de insuficiência cardíaca, disfunção valvar, arritmias, morte súbita e comprometimento de outros órgãos. Também são discutidas estratégias de acompanhamento, tratamento medicamentoso, intervenções valvares, ablação de arritmias, dispositivos cardíacos, suporte circulatório mecânico e transplante.
Métodos e população avaliada
Trata-se de uma revisão narrativa baseada em busca no PubMed por artigos em inglês publicados entre janeiro de 2015 e dezembro de 2025. Os termos de pesquisa incluíram tetralogia de Fallot, transposição das grandes artérias, circulação de Fontan, insuficiência cardíaca na cardiopatia congênita do adulto, falência do ventrículo direito sistêmico e transplante cardíaco.
Dos 10.949 artigos identificados, 113 foram selecionados. A amostra reuniu 74 estudos observacionais, seis ensaios clínicos randomizados, cinco metanálises, quatro diretrizes, cinco documentos de consenso, duas revisões sistemáticas, nove revisões narrativas e oito relatos de caso.
Não houve uma única população estudada. Os autores reuniram dados de diferentes coortes de crianças, adolescentes e adultos, submetidos a técnicas cirúrgicas distintas e acompanhados por períodos variáveis. Essa heterogeneidade precisa ser considerada na interpretação dos resultados.
Principais achados
Tetralogia de Fallot
Na tetralogia de Fallot, o reparo do trato de saída do ventrículo direito pode exigir a colocação de um remendo transanular. A consequência tardia mais frequente é a regurgitação pulmonar crônica, que leva a sobrecarga volumétrica, dilatação progressiva do ventrículo direito, fibrose e deterioração funcional.
Quase todos os pacientes submetidos a esse tipo de reparo desenvolverão sobrecarga do ventrículo direito ao longo da vida. A repercussão, contudo, não permanece limitada ao lado direito. A dilatação ventricular pode prejudicar o enchimento do ventrículo esquerdo e contribuir para disfunção sistólica e diastólica. Para cada redução de 5% na fração de ejeção do ventrículo esquerdo, foi descrito aumento de 30% no risco de morte ou taquicardia ventricular sustentada.
Arritmias atriais ocorrem em aproximadamente 20% a 45% dos pacientes até os 45 anos. A taquicardia ventricular monomórfica afeta cerca de 15% dos adultos e costuma decorrer de circuitos de macroreentrada ao redor das cicatrizes cirúrgicas. Mais de 90% dessas taquicardias apresentam um mecanismo potencialmente tratável por ablação por cateter.
Nos pacientes com regurgitação pulmonar grave e sintomas importantes de insuficiência cardíaca, a substituição da valva pulmonar foi associada a maior sobrevida livre de morte ou taquicardia ventricular sustentada em dez anos. A decisão de intervir, porém, não deve depender apenas dos sintomas. Volumes ventriculares, função biventricular, duração do QRS, extensão da fibrose miocárdica e capacidade funcional também precisam ser considerados.
Transposição das grandes artérias
Na transposição das grandes artérias, conhecer a cirurgia realizada é essencial para compreender a anatomia atual. Após a troca arterial, o ventrículo esquerdo permanece responsável pela circulação sistêmica. Nesse grupo, as principais complicações tardias envolvem dilatação da raiz neoaórtica, regurgitação valvar, estenoses supravalvares e alterações das coronárias reimplantadas.
A dilatação da raiz neoaórtica foi observada em 66% a 75% dos pacientes avaliados em séries com acompanhamento de até 25 anos. Defeitos de perfusão miocárdica assintomáticos podem ocorrer em até 10%, relacionados a estreitamento, angulação ou tortuosidade das artérias coronárias reimplantadas. Portanto, a ausência de dor torácica não exclui isquemia.
O cenário é diferente após as operações atriais de Mustard ou Senning. Nesses pacientes, o ventrículo direito permanece responsável pela circulação sistêmica. Entre 30% e 50% desenvolvem disfunção moderada ou grave desse ventrículo em 25 anos. Taquicardia atrial ocorre em 48% a 63%, disfunção do nó sinusal em 50% a 65% e morte súbita em até 15%.
Sacubitril/valsartana e inibidores do cotransportador de sódio-glicose tipo 2 apresentaram resultados favoráveis em parâmetros funcionais e biomarcadores em estudos observacionais. Ainda não há, entretanto, demonstração consistente de redução de mortalidade. A condução não deve se limitar ao ajuste farmacológico. Regurgitação tricúspide sistêmica, arritmias e o momento de encaminhamento para transplante também influenciam o prognóstico.
Circulação de Fontan
A operação de Fontan direciona o retorno venoso sistêmico às artérias pulmonares sem a presença de um ventrículo subpulmonar. Essa configuração depende de baixa resistência vascular pulmonar, limita a pré-carga do ventrículo sistêmico e mantém pressão venosa sistêmica elevada.
A preservação da função ventricular não exclui falência da circulação. Ascite refratária, enteropatia perdedora de proteínas, bronquite plástica, cianose progressiva, trombose ou intolerância ao esforço podem ser as principais manifestações. O risco acumulado de falência do Fontan aproxima-se de 40% após 35 anos de acompanhamento.
A doença hepática associada ao Fontan também é progressiva. Aproximadamente 40% dos pacientes apresentam fibrose em ponte dez anos após a cirurgia. Nódulos hepáticos hipervasculares ocorrem em 20% a 30%, e parte dessas lesões pode evoluir para carcinoma hepatocelular.
O tratamento medicamentoso continua cercado de incerteza. O carvedilol não melhorou o desempenho ao exercício em um pequeno ensaio cruzado. Inibidores de SGLT2 parecem ser bem tolerados, mas ainda não demonstraram melhora funcional definitiva. Vasodilatadores pulmonares não são recomendados de rotina diante da inconsistência dos resultados.
Limitações do trabalho
A revisão pode não ter identificado todos os estudos relevantes e não realizou uma avaliação sistemática formal da qualidade da evidência. Além disso, 74 dos 113 trabalhos incluídos eram observacionais, enquanto apenas seis eram ensaios clínicos randomizados.
As populações, as técnicas cirúrgicas e as estratégias de acompanhamento também foram heterogêneas. Muitos resultados terapêuticos se baseiam em desfechos intermediários, como biomarcadores, parâmetros ecocardiográficos e capacidade funcional. Esses resultados não significam, necessariamente, redução de mortalidade.
Os autores ressaltam ainda que o cuidado varia conforme a experiência local, o acesso a centros especializados e as condições regionais. Por isso, a aplicabilidade das recomendações depende da estrutura disponível.
Impacto clínico na vida dos pacientes
As consequências dessas cardiopatias não se resumem à sobrevida. Arritmias, intolerância ao exercício, hospitalizações, novas cirurgias, ascite, enteropatia perdedora de proteínas e comprometimento hepático interferem na autonomia, na capacidade de trabalho e na qualidade de vida.
Em uma pesquisa internacional com 3.815 adultos com cardiopatia congênita, 18,3% apresentaram sintomas de ansiedade, 2,9% de depressão e 8,9% apresentaram simultaneamente sintomas de ansiedade e depressão. Piores escores nessas avaliações estiveram associados a menor qualidade de vida e pior percepção do estado de saúde.
Mulheres em idade fértil também necessitam de aconselhamento pré-concepcional e estratificação especializada. Gestação, anestesia e procedimentos não cardíacos podem produzir repercussões muito diferentes conforme a anatomia e a operação prévia.
O que muda na prática?
O primeiro passo é reconstruir a anatomia atual. O cardiologista precisa conhecer a anatomia original, a técnica cirúrgica realizada, a presença de próteses, condutos, remendos ou comunicações residuais e identificar qual ventrículo sustenta a circulação sistêmica.
Na tetralogia de Fallot, o acompanhamento deve considerar a regurgitação pulmonar, os volumes e a função do ventrículo direito, a função ventricular esquerda, a duração do QRS e o aparecimento de arritmias. Aguardar sintomas avançados pode significar intervir quando parte do remodelamento já se tornou menos reversível.
Na transposição das grandes artérias, a troca arterial exige vigilância da raiz neoaórtica, da valva, das artérias pulmonares e das coronárias reimplantadas. Após Mustard ou Senning, a prioridade passa a ser a avaliação do ventrículo direito sistêmico, da regurgitação tricúspide, da função do nó sinusal e das taquiarritmias.
No paciente submetido ao Fontan, a fração de ejeção preservada não encerra a avaliação. O seguimento deve incluir estado funcional, saturação, arritmias, eventos trombóticos, função renal, alterações hematológicas, complicações linfáticas e doença hepática. Exames laboratoriais, ultrassonografia, elastografia e vigilância oncológica fazem parte desse cuidado.
A terapia utilizada na insuficiência cardíaca adquirida não deve ser simplesmente reproduzida em todas as anatomias congênitas. O tratamento precisa ser orientado pelo mecanismo predominante e conduzido em conjunto com centros especializados em cardiopatia congênita do adulto, eletrofisiologia, cirurgia congênita, transplante e hepatologia.
Conclusão
A cirurgia realizada na infância modifica a sobrevida, mas não elimina a doença. Cada reparo cria uma nova anatomia e, com ela, riscos tardios específicos.
O adulto operado por cardiopatia congênita cianótica precisa de acompanhamento por toda a vida. A anatomia original e a técnica cirúrgica determinam quais complicações devem ser procuradas. Reconhecê-las antes do surgimento de insuficiência cardíaca avançada, arritmias sustentadas ou lesão extracardíaca é o ponto central do seguimento.
Autoria

Daniela Cristina Cardoso Lima Estrella
Possui graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Clínica Médica, Dermatologia Sanitária e Cirúrgica e Medicina de Emergência.
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