O estudo recentemente publicado, o SCOUT-HCM (Mavacamten in Adolescents with Obstructive Hypertrophic Cardiomyopathy | New England Journal of Medicine) avaliou o uso do mavacamten (inibidor seletivo da miosina cardíaca) em adolescentes com cardiomiopatia hipertrófica (CMH) obstrutiva sintomática. Sabe-se que a CMH na população pediátrica, apesar de menos prevalente, apresenta um curso de pior prognóstico com maior risco de eventos adversos graves. Em relação ao tratamento, as opções são limitadas e evidências para uso são extrapoladas de estudos realizados com adultos. Afinal, os benefícios do mavacamten se estendem para adolescentes?
O SCOUT-HCM foi um ensaio clínico de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo; foram incluídos 44 pacientes entre 12 e 18 anos, maioria destes em uso de betabloqueadores. O desfecho primário foi a variação do gradiente da via de saída do ventrículo esquerdo (VSVE) induzido pela manobra de Valsalva ao longo de 28 semanas.
Os resultados mostraram uma redução significativa do gradiente no grupo tratado com mavacamten, com uma diminuição média de −48,5 mmHg (IC 95%: −63,0 a −34,0), em contraste com uma variação no grupo placebo de −0,5 mmHg (IC 95%: −18,7 a 17,6). A diferença entre os grupos foi de −48,0 mmHg (IC 95%: −67,7 a −28,3; p<0,001).
Esse benefício foi consistente nos desfechos secundários avaliados. Observou-se ainda redução adicional dos gradientes em repouso (diferença de −47,0 mmHg; IC 95%: −62,7 a −31,4) e após exercício (−41,7 mmHg; IC 95%: −59,7 a −23,7), diminuição da espessura ventricular esquerda (−1,8 mm; IC 95%: −3,4 a −0,2) e melhora de parâmetros de função diastólica, como a razão E/e’ média (−3,4; IC 95%: −5,1 a −1,6).
O efeito sobre biomarcadores também foi avaliado. Houve redução significativa de marcadores de estresse e de lesão miocárdica, com razões geométricas entre grupos de 0,23 (IC 95%: 0,14 a 0,37) para NT-proBNP, 0,37 (IC 95%: 0,23 a 0,60) para troponina I ultrasensível e 0,55 (IC 95%: 0,38 a 0,79) para troponina T.
Em relação aos desfechos clínicos, houve uma tendência favorável para o mavacamten. Houve melhora da classe funcional da New York Heart Association em parte dos pacientes, uma maior proporção de pacientes com aumento do consumo máximo de oxigênio (73% vs. 44%), correspondendo a uma diferença absoluta de 29,6 pontos percentuais (IC 95%: −5,7 a 58,3). Essa melhora não foi vista de forma consistente nos sintomas autorreferidos de dispneia (avaliados pelo escore HCMSQ) cuja diferença entre os grupos foi de −0,3 pontos (IC 95%: −2,0 a 1,5), sem significância estatística.
Na questão segurança, a intervenção foi segura com baixa incidência de eventos graves e não houve diferenças entre os grupos (78% no grupo mavacamten vs. 81% no placebo). Também não houve redução da fração de ejeção abaixo de 50% nem óbitos durante o seguimento.
Quais as principais mensagens do trabalho? O estudo mostrou que o mavacamten foi eficaz na redução da obstrução da via de saída do ventrículo esquerdo em adolescentes com CMH obstrutiva, com efeitos consistentes também na melhora de parâmetros estruturais, funcionais e de biomarcadores, além de apresentar um perfil de segurança favorável. Como perspectivas futuras, espera-se que os próximos estudos avaliem seu impacto em desfechos clínicos maiores, contribuindo para definir seu papel e apoiar sua recomendação nas diretrizes clínicas.
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