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Cardiologia26 junho 2026

Benefício incremental das gliflozinas em pacientes com cardiopatia isquêmica

Estudo avalia se a dapagliflozina acrescenta benefícios às estatinas em pacientes com cardiopatia isquêmica e IC.
Por Ivson Braga

Há alguns anos que a terapia com estatinas tem demonstrado redução de desfechos, principalmente em pacientes de alto risco em prevenção secundária. As gliflozinas também têm acrescentado benefícios ao tratamento da insuficiência cardíaca (IC), indepedente da fração de ejeção. Em se tratando de pacientes com cardiopatia isquêmica, a associação da gliflozina oferece benefício incremental ao uso isolado da estatina? O ensaio clínico recentemente publicado no European Journal of Clinical Pharmacology (The Effect of the combination therapy of statin and dapagliflozin, a selective inhibitor of sodium_glucose Co-transporter type 2, in the treatment of Ischemic heart disease with heart failure: A randomized controlled trial | European Journal of Clinical Pharmacology | Springer Nature Link), buscou responder essa questão. 

 Partindo de dados de um único centro no Egito, avaliou os efeitos da dapagliflozina, das estatinas e da combinação entre ambas em pacientes com cardiopatia isquêmica. Foram incluídos 81 pacientes distribuídos de forma aleatória em três grupos: Dapagliflozina 10 mg uma vez ao dia (n=26), estatina de alta intensidade – atorvastatina ou rosuvastatina (n=34) e combinação entre as duas terapias (n=21). Todos mantiveram tratamento com as medicações habituais indicadas para doença aterosclerótica coronária (DAC) e IC por 12 semanas. Os grupos apresentaram características demográficas semelhantes, a idade média variou de 61,4 a 64,5 anos, sem diferenças em relação à idade e sexo. Após três meses de acompanhamento, foram coletadas amostras de sangue e realizado ecocardiograma para avaliação da fração de ejeção ventricular esquerda (FEVE).  

Na análise da função ventricular, observou-se melhora estatisticamente significativa da fração de ejeção nos grupos que receberam dapagliflozina. Entre os pacientes tratados exclusivamente com o inibidor de SGLT2, a fração de ejeção aumentou de 33,9% para 39,7%. Resultado semelhante foi observado no grupo que utilizou a combinação dapagliflozina-estatina, cuja fração de ejeção passou de 32,2% para 37,9%. Em contraste, os pacientes tratados apenas com estatinas não apresentaram mudança significativa, mantendo valores próximos de FEVE de 59% antes e após o tratamento. Melhora importante da FEVE (aumento > 10%) foi observada em 61,5% dos pacientes tratados apenas com dapagliflozina e em 61,9% daqueles que receberam a terapia combinada, sem diferença significativa entre os grupos (p=0,99). 

Também foi realizada análise farmacocinética. Os níveis médios de dapagliflozina permaneceram semelhantes quando utilizada isoladamente ou em associação à estatina (p=0,66), independente da estatina utilizada. Os parâmetros hematológicos passaram por modificações. No grupo dapagliflozina observou-se aumento de hemácias, hemoglobina, hematócrito e redução de leucócitos e plaquetas. Nos grupos que receberam estatinas, isoladamente ou em combinação, houve discreta redução de hemácias, hemoglobina, leucócitos e plaquetas, associada a aumento do hematócrito. O perfil lipídico melhorou significativamente em todos os grupos com redução dos níveis de colesterol total, LDL-colesterol, triglicerídeos e aumento dos níveis de HDL-colesterol. Menores concentrações de colesterol total e LDL foram observadas no grupo tratado apenas com estatinas, embora a terapia combinada também tenha reduzido esses valores. Não foram observadas diferenças significativas entre os grupos em relação ao HDL-colesterol.  

Em relação ao peso corporal, apenas os pacientes que receberam a combinação dapagliflozina-estatina apresentaram redução significativa após as 12 semanas de acompanhamento (58,4 ± 8,9 kg para 57,4 ± 9,0 kg; p<0,001). Os grupos que utilizaram apenas uma das medicações não demonstraram alterações estatisticamente relevantes em relação ao peso.  

Durante o período de acompanhamento, não foram registrados eventos adversos importantes relacionados à combinação terapêutica.  

Apesar de ter sido feito em um único centro com um número de participantes pequeno, os resultados desse estudo estão de acordo com os benefícios clínicos obtidos na literatura. Em resumo, o estudo mostrou que a associação entre as medicações é segura em pacientes com insuficiência cardíaca de etiologia isquêmica, sem evidências de interação farmacocinética. A combinação também mostrou potencial para melhora da função sistólica ventricular, redução do peso corporal e otimização do perfil lipídico, somando benefícios metabólicos aos cardiovasculares. 

Autoria

Foto de Ivson Braga

Ivson Braga

Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Residência em Cardiologia pela Universidade de Pernambuco (UPE). Professor universitário e coordenador da Residência em Cardiologia.

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