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Cardiologia5 agosto 2026

Aptidão física em adolescentes reduz risco cardiovascular?

Estudo avaliou aptidão física em adolescentes, fibrilação atrial e risco cardiovascular em coorte sueca com análise entre irmãos.
Por Ivson Braga

Evidências anteriores mostraram a existência de uma relação inversa entre aptidão cardiorrespiratória (ACR) e risco cardiovascular, de maneira que, para cada aumento de um equivalente metabólico (MET) na capacidade aeróbica, há redução de 15% a 17% de eventos cardiovasculares.

Apesar desses resultados, outros trabalhos sugeriram que atividade física de alto volume e intensidade pode aumentar o risco de fibrilação atrial (FA) e de mortalidade por todas as causas.

Todo esse contexto envolve também indivíduos mais jovens, como adolescentes. Como tanto a ACR quanto a FA estão relacionadas com fatores hereditários, ambientais e comportamentais comuns, existe dúvida sobre a presença de um efeito causal na associação entre ACR elevada e risco de FA ou risco cardiovascular.

Como foi conduzido o estudo?

O estudo “Adolescent Cardiorespiratory Fitness and the Trade-Off Between Atrial Fibrillation Risk and Cardiovascular Benefits: A Nationwide Sibling-Controlled Cohort Study” investigou a influência, ao longo do tempo, da aptidão cardiorrespiratória em adolescentes no risco de FA e de outras doenças cardiovasculares.

A coorte sueca incluiu homens submetidos ao alistamento militar obrigatório entre 1972 e 1995.

Os dados de aptidão cardiorrespiratória foram obtidos durante a avaliação médica, que incluía teste máximo em bicicleta ergométrica.

Foram incluídos na coorte populacional 1.124.049 homens. Entre os participantes, 477.453 pertenciam a famílias com irmãos biológicos completos, possibilitando a realização de uma análise comparativa entre irmãos para minimizar o efeito de fatores familiares compartilhados.

Quem foram os participantes?

A idade média foi de 18,3 ± 0,7 anos.

A maioria dos participantes, 81,3%, apresentava índice de massa corporal dentro da faixa de normalidade, com IMC médio de 21,8 ± 2,9 kg/m².

Além disso, 26,6% possuíam pais com ensino superior e 34,1% pertenciam ao estrato de maior renda parental.

Para a análise controlada por comparação entre irmãos, foram incluídos 477.453 homens pertencentes a 219.304 famílias, cujas características basais foram semelhantes às observadas na coorte total.

Quais desfechos foram avaliados?

Os participantes foram acompanhados até 31 de dezembro de 2023 por meio dos registros nacionais suecos de internações, atendimento ambulatorial e mortalidade.

Os desfechos coprimários foram a ocorrência de fibrilação atrial e de doença cardiovascular não relacionada à FA, incluindo acidente vascular cerebral e doença isquêmica do coração.

As associações foram estimadas por modelos paramétricos flexíveis de sobrevivência, ajustados para idade, ano do recrutamento, índice de massa corporal, escolaridade e renda parental.

Os resultados foram expressos como diferenças absolutas de risco ao longo da vida.

Quais foram os principais resultados?

Durante o seguimento, 45.179 participantes, ou 4,0%, apresentaram um primeiro episódio de fibrilação atrial, com idade mediana de 54,8 anos.

Além disso, 96.404 indivíduos, ou 8,6%, desenvolveram doença cardiovascular não relacionada à FA, com idade mediana de 54,4 anos.

Na análise populacional, indivíduos pertencentes ao decil mais elevado de aptidão cardiorrespiratória apresentaram maior risco de fibrilação atrial e menor risco de doença cardiovascular não relacionada à FA quando comparados ao decil de menor aptidão.

Entre 30 e 40 anos de idade, o pequeno aumento absoluto no risco de FA superou a redução de eventos cardiovasculares.

Aos 30 anos, a diferença absoluta de risco para FA foi de 0,10% (IC 95%: 0,08–0,12), enquanto para doença cardiovascular não relacionada à FA foi de −0,001% (IC 95%: −0,02 a 0,02).

Aos 40 anos, essas diferenças passaram para 0,43% (IC 95%: 0,38–0,47) e −0,26% (IC 95%: −0,32 a −0,21), respectivamente.

Entretanto, a partir dos 45 anos, os benefícios cardiovasculares tornaram-se superiores ao aumento do risco de FA.

Nessa idade, a diferença absoluta de risco foi de 0,70% (IC 95%: 0,63–0,78) para fibrilação atrial e de −0,84% (IC 95%: −0,94 a −0,75) para doença cardiovascular não relacionada à FA.

Aos 65 anos, essa diferença tornou-se ainda mais evidente, com aumento absoluto de 3,42% (IC 95%: 2,80–4,03) para FA, contrastando com redução de 8,11% (IC 95%: −8,80 a −7,42) para doença cardiovascular não relacionada à FA.

O que mostrou a análise entre irmãos?

Na análise entre irmãos, este aparente equilíbrio entre risco e benefício não foi demonstrado.

Embora permanecesse discreto aumento do risco de fibrilação atrial, a redução do risco cardiovascular foi superior desde idades mais precoces.

Aos 35 anos, a redução absoluta do risco de doença cardiovascular não relacionada à FA foi de −0,11% (IC 95%: −0,21 a −0,01), enquanto o excesso de risco de FA foi de apenas 0,06% (IC 95%: −0,01 a 0,12).

Aos 65 anos, a diferença absoluta de risco foi de −3,91% (IC 95%: −5,40 a −2,42) para doença cardiovascular não relacionada à FA e de 2,30% (IC 95%: 1,15–3,45) para fibrilação atrial.

As análises de sensibilidade confirmaram a robustez dos resultados após ajuste adicional para força muscular e pressão arterial.

Além disso, a elevada aptidão cardiorrespiratória não esteve associada ao aumento da mortalidade relacionada à fibrilação atrial.

Nas análises de subgrupo, observou-se associação apenas com maior ocorrência de fibrilação atrial paroxística, sem aumento do risco de fibrilação atrial permanente.

Mensagem prática

O principal achado do estudo foi que, apesar do discreto aumento no risco de fibrilação atrial durante o início da vida adulta entre adolescentes do sexo masculino com elevada aptidão cardiorrespiratória, esse efeito foi compensado por maior redução no risco de doença cardiovascular não relacionada à fibrilação atrial.

Na análise entre irmãos, a redução do risco cardiovascular superou o excesso de risco de FA desde idades mais precoces, sugerindo que fatores familiares compartilhados podem influenciar parte da associação observada na análise populacional.

Ao que as evidências apontam, ter excelente aptidão física na adolescência parece seguro e oferece benefícios na redução do risco cardiovascular ao longo do tempo.

Autoria

Foto de Ivson Braga

Ivson Braga

Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Residência em Cardiologia pela Universidade de Pernambuco (UPE). Professor universitário e coordenador da Residência em Cardiologia.

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