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Cardiologia22 julho 2026

Anticoagulação profilática após infarto anterior previne trombo no VE?

Metanálise atualizada comparou a terapia tripla com a dupla antiagregação para prevenção de trombo no VE após infarto.
Por Juliana Avelar

O trombo ventricular esquerdo permanece uma complicação relevante do infarto agudo do miocárdio. Embora sua incidência tenha diminuído com a reperfusão precoce, a angioplastia primária e a terapia antitrombótica contemporânea, o problema não desapareceu. Em pacientes de maior risco — como aqueles com infarto anterior extenso, disfunção ventricular grave, acinesia ou discinesia apical e reperfusão tardia ou malsucedida — estudos contemporâneos ainda apontam incidência de trombo ventricular esquerdo entre aproximadamente 6% e 19%. 

A formação do trombo decorre da combinação entre estase sanguínea em segmentos acinéticos, lesão endocárdica e estado pró-trombótico associado ao infarto. A principal preocupação clínica é a possibilidade de embolização sistêmica, particularmente acidente vascular cerebral isquêmico. Por esse motivo, considera-se biologicamente plausível adicionar anticoagulação à dupla antiagregação plaquetária em pacientes de alto risco, mesmo antes da documentação do trombo. 

Entretanto, essa estratégia transforma a dupla antiagregação em terapia antitrombótica tripla, aumentando substancialmente a intensidade do tratamento e, potencialmente, o risco hemorrágico. A questão central é saber se a prevenção de tromboembolismo compensa esse aumento de sangramento. 

Uma metanálise atualizada, publicada em 2026 no periódico Clinical and Applied Thrombosis/Hemostasis, procurou responder a essa pergunta comparando terapia tripla — anticoagulante associado à dupla antiagregação — com dupla antiagregação isolada para prevenção primária de trombo ventricular esquerdo após infarto anterior. 

Métodos diagnósticos e tratamento para tromboembolismo pulmonar

Como o estudo foi conduzido? 

Foram incluídos sete estudos, dois randomizados e cinco observacionais, totalizando 2.273 pacientes. Destes, 949 receberam terapia tripla e 1.324 foram tratados sem anticoagulação profilática, geralmente com dupla antiagregação. 

Os anticoagulantes utilizados não foram uniformes. Alguns estudos avaliaram rivaroxabana em baixa dose, enquanto outros utilizaram varfarina ou enoxaparina. Também houve diferenças na duração da anticoagulação, nos esquemas antiplaquetários e nos métodos empregados para diagnosticar trombo ventricular. 

O desfecho primário foi a ocorrência de trombo ventricular esquerdo. Entre os desfechos secundários estavam mortalidade por todas as causas, AVC isquêmico, embolia sistêmica, eventos tromboembólicos combinados, sangramento maior, qualquer sangramento e eventos clínicos adversos líquidos. 

Seis estudos, com 2.017 participantes, forneceram dados para o desfecho primário. A terapia tripla não esteve associada a redução estatisticamente significativa da formação de trombo ventricular esquerdo em comparação com a dupla antiagregação. 

A estimativa pontual sugere uma possível redução relativa de 44%, mas o intervalo de confiança é muito amplo. Os dados são compatíveis tanto com redução importante do risco quanto com possível aumento do trombo ventricular. Portanto, o resultado não permite afirmar que as estratégias sejam equivalentes, mas demonstra que a evidência disponível não comprovou benefício da anticoagulação profilática. 

Os resultados permaneceram sem significância estatística quando os estudos foram separados por anticoagulante — rivaroxabana versus varfarina ou enoxaparina — e por desenho randomizado ou observacional.  

Um ponto importante foi a heterogeneidade na investigação do trombo ventricular. A maior parte dos estudos utilizou ecocardiograma transtorácico, enquanto o ensaio APERITIF adotou rastreamento sistemático por ressonância magnética cardíaca. 

Embora seja o exame inicial mais disponível, o ecocardiograma possui menor sensibilidade para trombos pequenos, murais ou localizados no ápice, especialmente quando não há boa janela acústica ou não se utiliza contraste ecocardiográfico. A ressonância cardíaca com realce tardio apresenta maior acurácia e tende a detectar mais eventos. 

Na metanálise, os estudos com ressonância identificaram maior incidência de trombo. Entretanto, o efeito relativo da terapia tripla em comparação com o grupo controle não diferiu significativamente de acordo com o método de imagem. 

Esse achado é relevante porque o ensaio APERITIF, que utilizou ressonância sistemática e, portanto, reduziu o risco de subdiagnóstico, também não demonstrou benefício significativo da anticoagulação intensificada. Ainda assim, como apenas dois estudos randomizados estavam disponíveis, o resultado não encerra definitivamente a questão. 

A ausência de benefício não se restringiu ao diagnóstico de trombo ventricular. A terapia tripla também não reduziu significativamente os desfechos clínicos como AVC isquêmico. 

Também não houve diferença significativa na mortalidade por todas as causas. 

Enquanto o benefício isquêmico permaneceu incerto, o dano hemorrágico foi mais evidente. A terapia tripla esteve associada ao aumento significativo de sangramento maior. Nas análises por tipo de anticoagulante ou desenho do estudo, não foi identificada diferença significativa entre os subgrupos. Dessa forma, o aumento do sangramento parece estar relacionado à própria intensificação antitrombótica, e não exclusivamente ao uso de varfarina ou a um estudo específico. 

Há, entretanto, uma ressalva. Quando o estudo de Le May e colaboradores foi retirado da análise de sangramento maior, a associação foi atenuada e perdeu significância estatística, embora a estimativa continuasse apontando para maior risco hemorrágico. Nesse estudo, a varfarina foi empregada por aproximadamente seis meses, período mais prolongado do que em outras coortes, e os pacientes anticoagulados apresentavam pior função ventricular basal. Esses fatores podem ter amplificado tanto o risco de sangramento quanto a influência de confundimento por indicação. 

Ainda assim, o resultado está alinhado à literatura sobre pacientes submetidos à intervenção coronária que também apresentam indicação de anticoagulação: quanto maior a exposição simultânea a anticoagulante e dois antiplaquetários, maior o risco hemorrágico.  

A principal mensagem é que a anticoagulação não deve ser utilizada rotineiramente em todos os pacientes com infarto anterior. 

Os resultados sustentam a posição cautelosa das diretrizes norte-americanas de síndrome coronariana aguda de 2025. A anticoagulação profilática pode ser considerada em pacientes selecionados com infarto anterior e acinesia ou discinesia apical, mas essa é uma recomendação classe IIb, baseada em baixo nível de evidência. Em outras palavras, trata-se de uma possibilidade individualizada, não de uma conduta sistemática. 

Em pacientes de alto risco para trombo ventricular, uma estratégia potencialmente mais racional pode ser intensificar o rastreamento por imagem em vez de instituir anticoagulação empírica indiscriminadamente. O ecocardiograma permanece como exame inicial, mas o uso de contraste ou ressonância cardíaca deve ser considerado quando houver forte suspeita clínica, alterações apicais relevantes ou resultado ecocardiográfico inconclusivo. 

Principais limitações 

A primeira limitação é a predominância de evidência observacional: cinco dos sete estudos não foram randomizados. Pacientes que receberam anticoagulação podem ter apresentado, desde o início, infartos mais extensos, pior função ventricular ou maior risco estimado de trombose, caracterizando confundimento por indicação. 

Em segundo lugar, houve grande diversidade dos tratamentos. 

Também houve heterogeneidade nos critérios de seleção e na definição dos desfechos. Nem todos os estudos incluíram exatamente a mesma população de pacientes com infarto anterior contemporaneamente tratado, e algumas comparações não corresponderam de maneira uniforme à definição estrita de dupla antiagregação versus terapia tripla. 

A utilização predominante do ecocardiograma pode ter subestimado a incidência de trombo ventricular. Além disso, a baixa frequência de AVC e embolia sistêmica produziu intervalos de confiança muito amplos, impedindo conclusões definitivas sobre esses desfechos. 

Conclusão 

Nesta metanálise, a adição de anticoagulação à dupla antiagregação após infarto anterior não reduziu significativamente a formação de trombo ventricular esquerdo, AVC, embolia sistêmica, mortalidade ou eventos clínicos adversos líquidos. Em contrapartida, aumentou aproximadamente três vezes o risco de sangramento maior e mais que duplicou a ocorrência de qualquer sangramento. 

Os resultados não demonstram definitivamente que a anticoagulação seja ineficaz em todos os pacientes de alto risco, porque a evidência disponível é limitada. No entanto, eles afastam a ideia de terapia tripla profilática como estratégia de rotina. 

Na prática, a decisão deve ser individualizada, reservando-se eventual anticoagulação empírica para situações de risco trombótico particularmente elevado e baixo risco hemorrágico.

Autoria

Foto de Juliana Avelar

Juliana Avelar

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição (2021). Residência em Cardiologia pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (IDPC). Além de atuação na Afya, também atua em hospitais e em consultório particular.

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