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Cardiologia1 julho 2026

Anti-hipertensivos tem papel protetor na cardiotoxicidade por quimioterápicos?

Umbrella review avalia se betabloqueadores, IECA e BRA protegem contra cardiotoxicidade induzida por quimioterapia.

A cardiotoxicidade induzida por quimioterápicos é uma complicação crescente que contribui para a morbidade dos pacientes que sobrevivem a um tratamento de câncer. Diversos tipos de tratamento podem levar à disfunção do ventrículo esquerdo (VE), insuficiência cardíaca (IC), arritmias e consequente suspensão do tratamento.  

Com objetivo de reduzir essas complicações, diversos anti-hipertensivos tem sido propostos e alguns ensaios clínicos randomizados (ECR) já foram realizados, porém as evidências seguem inconsistentes. 

Assim, recentemente foi publicada uma umbrela review, que consiste em uma revisão de estudos de revisão e metanálises de ECR que avaliaram os efeitos cardioprotetores do tratamento anti-hipertensivo durante a quimioterapia. O objetivo desse estudo foi esclarecer a força, consistência e certeza da evidência disponível para ajudar na decisão em relação a prevenção de disfunção induzida por quimioterapia. 

anti-hipertensivos e cardiotoxicidade

Métodos do estudo e população envolvida 

Foi estudo terciário, chamado umbrela review, que incluiu revisões sistemáticas e metanálises de ECR que avaliaram o papel do tratamento anti-hipertensivo na redução do risco cardíaco até maio de 2025. 

Os desfechos primários eram qualquer desfecho que refletisse a saúde cardíaca ou função cardíaca relatados em pelo menos dois estudos originais incluídos na análise. Os desfechos secundários eram eventos clínicos e adversos. 

Resultados 

Do total de artigos pesquisados, 35 tinham os critérios de inclusão, com 108 associações meta-analíticas. Em relação a qualidade, 7 tinham qualidade alta, 1 moderada, 10 baixa e 16 muito baixa. Na média, cada metanálise teve 13 estudos e 1508 pacientes. 

Das 108 associações meta-analíticas, 56 tiveram associação significativa entre tratamento anti-hipertensivo e desfechos. Desses, 45 foram em estudos com qualidade baixa ou muito baixa. A maior parte dos estudos avaliou betabloqueadores (BB), com 78 associações, e as medicações menos estudadas foram os bloqueadores do receptor de angiotensina II (BRA), com 36 associações. O desfecho mais estudado foi a fração de ejeção do VE (FEVE), com 42 associações meta-analíticas. 

A análise combinada mostrou manutenção da FEVE com inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) e BB, que tiveram diferença média (DM) de 4,22 (IC95% 1,56-6,88) com certeza muito baixa e 2,77 (IC95% 1,40-4,14) com certeza baixa comparado ao controle, respectivamente. Também houve manutenção do pico de strain sistólico (SS) com BB (DM 3,24; IC95% 1,28-5,21) comparado ao placebo. Não houve relação dos tratamentos anti-hipertensivos com outros parâmetros de função sistólica do VE. 

Em relação a função diastólica, os BB mostraram benefício na prevenção da relação das velocidades E/A em comparação ao controle (DM 0,07, IC95% 0,01 – 0,13) com certeza moderada. Porém, não houve diferença nos benefícios de BB e IECA na preservação de outros parâmetros de função diastólica. 

Também não houve diferença nos desfechos de avaliação dos diâmetros ventriculares e do átrio esquerdo, nos desfechos dos marcadores como strain global longitudinal, BNP e troponina e na mortalidade por todas as causas. Uma análise de 9 estudos mostrou menor ocorrência de IC com BB (RR 0,29, IC95% 0,26-0,34) e IECA (RR 0,34; IC95% 0,18-0,66). Os BB reduziram risco de cardiotoxicidade (RR 0,44; IC95% 0,26-0,75) e FEVE reduzida (RR 0,42; IC95% 0,22-0,79) com certeza baixa. 

Comentários e conclusão  

Essa revisão apresenta diversas limitações. A maioria dos estudos incluiu metanálises com metodologia de qualidade baixa ou muito baixa, boa parte dos estudos era pequeno, unicêntrico e com esquemas variados de quimioterapia, definições de cardiotoxicidade, seguimento e início da medicação. 

Das 108 associações encontradas, IECA, BRA e BB foram frequentemente estudados, mas a certeza da evidência corroborando seus benefícios geralmente foi baixa ou muito baixa. 

Apesar de os resultados mostrarem mudanças significativas na FEVE, essas diferenças foram pequenas e sua relevância clínica é incerta. Uma exceção foram os estudos com evidência de certeza moderada, que testaram a função diastólica com BB. A ausência de efeito na mortalidade já era esperada, pois os estudos são pequenos e relativamente curtos. 

Os resultados de manutenção da FEVE e melhora no SS com IECA e BB são consistentes com metanálises prévias. Esses resultados, mesmo com certeza limitada, corroboram a utilização dessas medicações, que são baratas, bem toleradas e com mecanismo cardioprotetor plausível, para pacientes de alto risco recebendo antraciclinas e anti-HER2 ou outros agentes quimioterápicos cardiotóxicos.  

Autoria

Foto de Isabela Abud Manta

Isabela Abud Manta

Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.

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