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Cardiologia29 abril 2026

Alta no mesmo dia após ablação e implante de dispositivos: consenso EHRA 2026

Consenso EHRA 2026 orienta alta no mesmo dia após ablação e colocação de dispositivos cardíacos eletrônicos implantáveis.

Relevância clínica. A alta no mesmo dia após procedimentos de eletrofisiologia, como ablação de arritmias e colocação de dispositivos cardíacos eletrônicos implantáveis (DCEI) tem ganhado relevância pelo aumento da segurança relacionada aos procedimentos, eficiência assistencial e por gerar maior rotatividade de leitos. Estudos mais recentes sugerem que as taxas de complicações e reinternação são semelhantes à quando o paciente permanece por uma noite no hospital, mas a adoção dessa prática ainda é heterogênea na Europa, o que motivou um documento prático da European Heart Rhythm Association (EHRA) em conjunto com a Association of Cardiovascular Nursing & Allied Professions (ACNAP). 

Escopo e método. Trata-se de um consenso clínico com foco na prática do dia a dia, com orientações de como a equipe deve proceder para possibilitar alta no mesmo dia com segurança. As recomendações foram discutidas em reuniões presenciais e virtuais e foi realizada votação formal, sendo apenas orientações com pelo menos 70% de concordância do grupo mantidas. 

Alta no mesmo dia foi definida como o cenário onde o paciente é internado para um procedimento de ablação ou implante de DCEI de forma eletiva, passa pela intervenção, completa o monitoramento pós-operatório e recebe alta para casa no mesmo dia, sem permanência no hospital durante a noite.  

Principais recomendações. A implementação de protocolos que possibilitam alta no mesmo deve seguir alguns cuidados, como seleção adequada de pacientes candidatos e definição prévia de critérios sociais para garantir um seguimento seguro e confiável. Algumas arritmias são mais seguras para tratar, como ablação de taquicardias supraventriculares (TSV) ou flutter atípico, já a ablação de fibrilação atrial (FA) precisa de uma avaliação mais rigorosa pela maior chance de complicações tardias.  

Em relação aos DCEI, os procedimentos ideais para alta no mesmo dia são o implante de marcapasso e troca de gerador. Já o implante de cardioversor desfibrilador implantável (CDI) e extração de cabos necessitam de uma avaliação mais criteriosa a depender do paciente. 

O paciente deve estar estável em relação a suas comorbidades e algumas características costumam aumentar a chance de complicações e devem ser levadas em conta, como presença de apneia do sono grave, obesidade importante, o fato de morar longe do hospital, presença de fragilidade e falta de suporte em casa. Porém, os benefícios são relevantes, mesmo para idosos, com redução de ocorrência de delirium por exemplo. 

O paciente que recebe alta no mesmo dia do procedimento deve passar as próximas 24 horas acompanhado e estar em um local com tempo de transporte até o hospital de até 60-90 minutos, caso ocorra necessidade de avaliação de urgência. 

Na avaliação pré-procedimento, não há necessidade de exames de rotina para pacientes de baixo risco e exames laboratoriais estarão indicados a depender da avaliação individual de cada paciente. O paciente deve realizar eletrocardiograma (ECG) e exames de imagem como ecocardiograma (eco) e ultrassom (US) vascular podem auxiliar na antecipação de risco. A reconciliação medicamentosa é importantíssima, assim como as orientações ao paciente, esclarecimento de dúvidas e consentimento informado. 

Em relação ao procedimento, existem considerações quanto ao tipo de anestesia, duração e complexidade do procedimento, acesso vascular e hemostasia, anticoagulação e o reconhecimento precoce de complicações. 

O implante de DCEI, ablação de TSV e extrassístoles ventriculares podem ser realizadas com anestesia local, sedação consciente ou sedação profunda, no último caso idealmente com auxílio de anestesista. A escolha deve ser baseada em protocolos locais, experiência do centro e demanda do paciente. 

A ablação de TSV é menos complexa que de FA ou arritmias ventriculares e procedimentos do lado esquerdo, que necessitam anticoagulação e acesso aórtico retrógrado ou trans septal, geralmente são mais demorados e associados a maior risco. 

Independente do tipo de arritmia, os cuidados em relação a segurança do paciente são os mesmos e os eventos vasculares são as complicações mais comuns, sendo essenciais a otimização vascular e o manejo da hemostasia. Dentre as complicações temos punção arterial inadvertida, fístulas arteriovenosas, pseudoaneurismas, hematomas, sangramento retroperitoneal e infecção. 

A utilização de US para guiar o acesso reduz complicações, assim como compressão manual ou por dispositivo, técnicas específicas de sutura e dispositivos de fechamento vascular. 

Em relação ao implante de DCEI, a maioria pode ser feita com alta no mesmo dia, exceto a remoção de cabos por via transvenosa, o procedimento mais complexo e de maior risco entre os DCEI. 

Outros cuidados envolvem detecção precoce e manejo de complicações relacionadas a sedação e analgesia, como depressão respiratória, obstrução de vias aéreas, reações alérgicas, hipotensão, alucinações, náuseas e vômitos pós-operatório. Um período mínimo de observação de 30 minutos pós procedimento é recomendado.  

Em caso de hipotensão, taquicardia sinusal inexplicada ou dor torácica, deve-se realizar ECG e eco transtorácico. Tamponamento é uma complicação grave e ocorre mais após ablação de FA ou taquicardia ventricular e deve ser tratada imediatamente. Outras complicações graves são pneumotórax, perfuração cardíaca, derrame pericárdico, tamponamento, hematoma na loja do gerador infecção e deslocamento de cabos e a maioria delas pode ser identificada em até 6 horas após o procedimento. 

O tempo mínimo de observação recomendado varia de acordo com o procedimento realizado, podendo ser de 1-2 horas para troca de gerador até 12 horas para colocação de CDI ou ressincronizador.  

Para receber alta o paciente deve estar com ritmo cardíaco e sinais vitais estáveis, sem sinais de complicações vasculares e sem sintomas. Devem estar completamente acordados, tolerando ingestão oral e com diurese espontânea. 

O paciente e um acompanhante devem receber informações e orientações claras e a equipe deve entrar em contato com o paciente nas primeiras 24 a 72 horas para checar sobre sintomas e orientar caso necessário. O paciente deve passar por uma consulta de seguimento em alguns dias, porém não há consenso sobre quando é o melhor momento.  Além disso, a equipe deve estar disponível caso o paciente necessite de orientações. A utilização de telemedicina e monitoramento remoto pode ser de grande auxilio nesta situação e pode otimizar o processo do seguimento precoce. 

O ideal é que o serviço de saúde implemente os protocolos, com seleção adequada dos pacientes candidatos a alta no mesmo dia, utilização de check-lists para auxiliar na redução de riscos e detecção precoce de complicações. A infraestrutura e coordenação devem criar fluxos e logística adequada para este tipo de tratamento. 

Impacto prático. Este documento sugere adotar a alta no mesmo dia com a utilização de protocolos, check-lists e fluxos adequados, com retaguarda disponível em caso de complicações. A alta precoce pode ser segura quando aplicada ao paciente adequado, seguindo o protocolo indicado, já que não depende tanto do tipo de procedimento, mas sim das características do paciente, estabilidade pós procedimento e hemostasia adequada.  

Autoria

Foto de Isabela Abud Manta

Isabela Abud Manta

Editora médica de Cardiologia da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica pela UNIFESP ⦁ Residência em Cardiologia pelo Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) ⦁ Graduação em Medicina pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) ⦁ Atua nas áreas de terapia intensiva, cardiologia ambulatorial, enfermaria e em ensino médico.

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