A fibrilação atrial (FA) é a arritmia sustentada mais comum na prática clínica e uma de suas complicações é o acidente vascular cerebral (ACV) cardioembólico, que pode ser prevenido com a utilização de anticoagulantes orais, sendo os anticoagulantes orais diretos (DOAC) os de escolha.
Uma das complicações desta classe de medicação é o sangramento e para os pacientes que não podem utilizar DOAC por longos períodos pode-se optar pela oclusão do apêndice atrial esquerdo (OAAE). Porém, este tipo de procedimento não foi bem estudado na população de pacientes candidatos a medicação.
Assim, está sendo realizado o estudo CHAMPION-AF, com objetivo de determinar se a OAAE é uma alternativa razoável à anticoagulação oral em pacientes elegíveis para este tipo de tratamento. Neste congresso do American College of Cardiology foram apresentados os resultados de três anos de seguimento.
Métodos do estudo e população envolvida
Este é um estudo ainda em andamento, prospectivo, internacional e randomizado e patrocinado pelo fabricante do dispositivo de fechamento do apêndice atrial esquerdo.
Foram incluídos pacientes com FA e risco aumentado para AVC (CHA2DS2-VASc ≥ 2 para homens e ≥ 3 para mulheres), que foram randomizados para receber o dispositivo Watchman Flx em até 14 dias ou DOAC. O risco de sangramento era avaliado pelo escore HAS-BLED.
Após o implante do dispositivo os pacientes recebiam DOAC e aspirina, DOAC apenas ou dupla antiagregação plaquetária (DAPT) por 3 meses, seguido de aspirina ou inibidor de P2Y12.
O desfecho primário de eficácia era composto por morte por causas cardiovasculares, AVC isquêmico ou hemorrágico ou embolia sistêmica em 3 anos de seguimento. O desfecho primário de segurança era sangramento não relacionado ao procedimento em 3 anos. Desfechos adicionais serão avaliados com 5 anos de seguimento.
Resultados
Foram randomizados 3000 pacientes em 141 centros de 16 países, sendo 1499 para o grupo do dispositivo (desses, 1386 receberam efetivamente o dispositivo), e 1501 para o grupo anticoagulação.
A idade média dos pacientes era 71,7 anos e 31,9% eram mulheres. Do total, 68,9% tinham FA paroxística e 47,8% já haviam feito ablação. O CHA2DS2-VASc médio era 3,5 e o HAS-BLED médio era 1,3.
No grupo dispositivo, a taxa de sucesso do implante foi de 98,6% e, na alta, 85% receberam DOAC e 12,6% DAPT. A aderência a medicação neste grupo foi de 76% e no grupo DOAC de 87%.
No grupo dispositivo, 87,1% completaram o seguimento, o desfecho primário ocorreu em 3,8% dos pacientes que não completaram o seguimento e 1,8% morreram antes dos 3 anos. No grupo anticoagulação 86,9% completaram o seguimento, 4,3% tiveram um desfecho primário e não completaram o seguimento e 1,6% morreram antes do período de 3 anos. Houve cross-over de 206 pacientes do grupo anticoagulação para o grupo dispositivo.
Em três anos, morte por doença cardiovascular, AVC ou embolia sistêmica ocorreu em 81 pacientes do grupo dispositivo e 65 pacientes do grupo anticoagulação. Esse resultado foi significativo para não inferioridade. Morte ocorreu em 38 e 36 pacientes, AVC em 50 e 33 pacientes e embolia sistêmica em 0 e 2 pacientes respectivamente.
Sangramento não relacionado ao procedimento ocorreu em 154 pacientes do grupo dispositivo e 260 do grupo anticoagulação, com HR 0,55 (IC95% 0,45-0,67).
Comentários e conclusão
Neste estudo, que avaliou a OAAE com dispositivo específico comparado a anticoagulação em pacientes com FA e indicação de anticoagulação, o dispositivo foi não inferior a medicação em relação a ocorrência de morte por causa cardiovascular, AVC e embolia sistêmica no seguimento de 3 anos, com a vantagem de ocorrência menor de sangramento.
Algumas limitações são que a ocorrência de eventos foi baixa em ambos os grupos, apenas um tipo de dispositivo foi utilizado e os pacientes tinham CHA2DS2-VASc entre 3 e 4, ou seja, a população de maior risco foi pouco representada.
Os resultados de cinco anos serão ainda avaliados, porém parece que o uso do dispositivo pode ser uma alternativa a anticoagulação oral com base em uma decisão clínica compartilhada entre equipe médica e paciente.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora médica de Cardiologia da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica pela UNIFESP ⦁ Residência em Cardiologia pelo Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) ⦁ Graduação em Medicina pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) ⦁ Atua nas áreas de terapia intensiva, cardiologia ambulatorial, enfermaria e em ensino médico.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.