Intervenção coronária percutânea (ICP) para tratar oclusão total crônica (OTC) da coronária é realizada com objetivo de aliviar angina e melhorar a qualidade de vida dos pacientes, mesmo na ausência de estudos randomizados que comprovem esse benefício. A evidência disponível vem de estudos observacionais e abertos que apresentam resultados conflitantes.
O estudo ORBITA mostrou efeito placebo importante da ICP em pacientes com síndromes coronárias crônicas, enfatizando a necessidade de estudos controlados por placebo para testar a eficácia das intervenções para melhora de sintomas.
Como a ICP em OCT da coronária é mais complexa, com duração mais prolongada, necessidade de mais recursos, menor taxa de sucesso e maiores taxas de complicação, é importante entender se há benefício desse tratamento. Assim, foi realizado o estudo ORBITA-CTO, apresentando no congresso do American College of Cardiology. Abaixo seguem os principais pontos deste estudo.
Métodos do estudo e população envolvida
Foi estudo iniciado pelo investigador, randomizado, duplo cego, controlado por placebo e realizado em dois hospitais do Reino Unido. Os pacientes deveriam ter angina, uma coronária apenas com OTC (definida como oclusão da artéria há mais de 3 meses) ou OTC provável (quando a duração era desconhecida).
Não poderia haver doença significativa nos outros vasos e era necessária documentação de isquemia e viabilidade no território a ser tratado.
Os pacientes respondiam questionários de angina e qualidade de vida no início e tinham o tratamento medicamentoso da angina otimizado. Após 48 horas da otimização eram seguidos por uma semana e caso passassem a ser assintomáticos eram excluídos do estudo.
No dia da internação os pacientes ficavam sem celulares e dispositivos eletrônicos e todos os relógios eram retirados das áreas em que o paciente circulava. O paciente utilizava fones de ouvido que tocavam música e não permitiam ouvir o ambiente, eram sedados para perder a consciência, mas manter drive respiratório.
Na angiografia, a persistência da OTC e ausência de outras lesões significativas eram confirmadas. Os dois especialistas em OTC eram os únicos que sabiam o grupo para o qual o paciente tinha sido randomizado e não tinham mais contato após o procedimento, assim como os demais pesquisadores presentes na randomização.
As estratégias de recanalização eram definidas pelos especialistas e sucesso era definido quando havia fluxo TIMI 2-3 com < 30% de estenose residual. Avaliação fisiológica com adenosina era realizada após a ICP.
No grupo placebo os cateteres eram removidos após a randomização, os acessos eram mantidos e o paciente permanecia sedado por 60 minutos. Todos eram transferidos para a área cardiológica e lá permaneciam por uma noite. Na alta todos recebiam dupla antiagregação plaquetária e se houvesse complicação com necessidade de divulgar o grupo do paciente ele era retirado do estudo.
No dia do procedimento as medicações antianginosas eram suspensas e o paciente era seguido por 24 semanas. Após esse período repetiam os questionários e passavam a saber a que grupo pertenciam, sendo então seguidos por mais 2 semanas. Caso fossem do grupo placebo e mantivessem sintomas, poderiam realizar o procedimento de ICP.
O desfecho primário de eficácia era o escore de angina, baseado no número de episódios de angina em um dia e o número de medicações antianginosas. Desfechos secundários incluíam desfechos de relato de angina, medidas de qualidade de vida e gravidade da angina avaliada pelo médico.
Resultados
Foram randomizados 50 pacientes, sendo 25 para cada grupo. Um paciente do grupo intervenção foi excluído por complicação do procedimento com necessidade de saber a que grupo pertencia. Não houve morte, infarto ou angina intratável e tampouco cross-over entre os grupos. O seguimento médio foi de 174 dias.
A maioria dos pacientes eram homens (74%), com mediana de idade de 64 anos. A maioria já tinha ICP previa (58%) e a maioria tinha angina CCS II ou III (94%) e NYHA II ou III (84%). A maioria das intervenções foi na coronária direita (60%), seguida da artéria descendente anterior (32%) e circunflexa (8%). A carga isquêmica médica era de 18% e a fração de ejeção do ventrículo esquerdo 55%.
No grupo intervenção a taxa de sucesso foi alta e imagem intravascular foi usada em 92% dos casos. O grupo intervenção teve maior duração do procedimento (191 x 104 minutos) e maior tempo de fluoroscopia, mais uso de contraste e maior exposição a radiação.
Antes da randomização a frequência média de angina foi menor e o uso de medicações antianginosas maior no grupo intervenção. Assim, o escore de angina foi semelhante entre os grupos.
Em seis meses, o grupo intervenção teve maior melhora do escore de angina com redução significativa dos episódios diários de angina e menor quantidade de medicações antianginosas. No geral, este grupo apresentou 30 dias livres de angina a mais que o placebo. Também tiveram melhora na frequência de angina, na limitação física e na qualidade de vida.
Comentários e conclusão
Este foi o primeiro estudo controlado por placebo que avaliou a eficácia da ICP na OTC para alívio de sintomas anginosos e mostrou que a intervenção foi superior ao placebo na melhora do desfecho primário de episódios de angina. Esse resultado confirma que a intervenção é efetiva para melhora dos sintomas neste grupo complexo de pacientes.
Assim, caso o sintoma seja atribuível a uma OTC da coronária e haja probabilidade alta de sucesso com risco aceitável, esta estratégia pode ser uma opção para os pacientes.
Autoria

Isabela Abud Manta
Editora médica de Cardiologia da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica pela UNIFESP ⦁ Residência em Cardiologia pelo Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) ⦁ Graduação em Medicina pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) ⦁ Atua nas áreas de terapia intensiva, cardiologia ambulatorial, enfermaria e em ensino médico.
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