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Cardiologia30 março 2026

ACC 2026: Devemos suspender betabloqueadores após infarto agudo do miocárdio?

Confira os resultados interessantes deste estudo aberto, multicêntrico, randomizado, de não inferioridade, realizado em 25 centros da Coreia do Sul. 

O papel dos betabloqueadores (BB) após infarto agudo do miocárdio (IAM) tem sido rediscutido nos últimos anos. Nos pacientes que evoluem com insuficiência cardíaca (IC) com fração de ejeção reduzida (FER), ou seja, menor que 40%, os BB permanecem como tratamento fundamental.  

Porém, vários estudos têm mostrado que nos pacientes que mantém fração de ejeção preservada (FEP), maior ou igual a 50%, não parece haver benefício da medicação. Na fração de ejeção levemente reduzida (40% a 49%) parece haver algum benefício. 

Apesar disso, muitos pacientes continuam a receber BB apenas pelo fato de terem tido um IAM e existe dúvida se deve ser mantido no longo prazo.  Assim, foi realizado o estudo SMART-DECISION, apresentado no American College of Cardiology, com objetivo de determinar se a descontinuação do BB em pacientes estáveis e sem IC após IAM seria não inferior a sua manutenção em relação a desfechos clínicos maiores. 

Métodos do estudo e população envolvida 

Foi estudo aberto, multicêntrico, randomizado, de não inferioridade, realizado em 25 centros da Coreia do Sul. Os pacientes incluídos eram pacientes estáveis com IAM prévio, que utilizaram BB por pelo menos um ano e que não tiveram outro evento. Paciente com ICFER eram excluídos, assim como os que tinham contraindicação a BB e FA. 

Os pacientes eram randomizados para descontinuar ou manter o tratamento com BB e os desfecho primário era composto por morte por qualquer causa, recorrência de IAM ou internação por IC. 

Resultados 

Foram randomizados 2540 pacientes, sendo 1246 para o grupo que descontinuou e 1294 para o que manteve o BB. A idade média dos pacientes era 63 anos e 12,8% eram mulheres. Do total, 56,8% tiveram IAM com supra de ST e 98% foi revascularizado no evento inicial. 

A mediana de tempo do IAM até a randomização foi de 4,7 anos e a maioria estava em uso de carvedilol (47,6%), seguido de bisoprolol (32,3%) e nebivolol (19,9%). Quase 90% dos pacientes tinham fração de ejeção maior que 50% 

No seguimento de 3,1 anos o desfecho primário ocorreu em 7,2% no grupo que descontinuou e em 9% no grupo que manteve o BB, com significância estatística para não inferioridade (HR 0,8, IC95% 0,57-1,13, p=0,001). Morte por qualquer causa ocorreu em 2,4% e 3,4%, recorrência de IAM em 2,3% e 2,6% e internação por IC em 2,2% e 2,1% respectivamente nos grupos sem e com BB. 

Comentários e conclusão 

Neste estudo, que avaliou a suspensão de BB após pelo menos um ano do IAM em pacientes estáveis e sem IC, a suspensão da medicação foi não inferior à sua manutenção, ou seja, os eventos foram semelhantes nos dois grupos. Também não foi vista alteração na fração de ejeção e na qualidade de vida dos pacientes. Isso está de acordo com achados de outros estudos que viram que, inclusive, a não introdução de BB na fase precoce do IAM não levou a melhores desfechos.  

Muitos pacientes ainda recebem BB após IAM e o mantem por longos períodos. Este estudo mostrou que sua suspensão pode ser realizada com segurança. Muito provavelmente isso é decorrente do melhor tratamento disponível atualmente para o IAM, com disponibilidade de intervenção e medicações cada vez melhores. 

Algumas limitações importantes são que o estudo foi aberto, incluiu apenas pacientes da Coreia do Sul, não incluiu pacientes com fibrilação atrial e poucos tinham doença arterial periférica. Além disso, a taxa de eventos foi menor que a esperada, o que reduziu a precisão para excluir aumento importante do risco. 

Apesar disso, os resultados mostraram que a suspensão do BB em pacientes estáveis com IAM há mais de um ano é segura e pode ser considerada para este grupo de pacientes. 

Autoria

Foto de Isabela Abud Manta

Isabela Abud Manta

Editora médica de Cardiologia da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica pela UNIFESP ⦁ Residência em Cardiologia pelo Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) ⦁ Graduação em Medicina pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) ⦁ Atua nas áreas de terapia intensiva, cardiologia ambulatorial, enfermaria e em ensino médico.

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