O citrato de clomifeno é um modulador seletivo do receptor estrogênico, ou SERM (Selective Estrogen Receptor Modulator), com ação variável conforme o tecido. Em algumas regiões, atua como agonista estrogênico; em outras, como antagonista.
No eixo hipotalâmico-hipofisário, o clomifeno exerce ação antagônica ao estradiol, reduzindo o efeito do feedback negativo sobre a secreção de gonadotrofinas. Com isso, pode aumentar a liberação de LH e FSH, estimulando a produção testicular de testosterona e a espermatogênese.
Por esse mecanismo, o clomifeno pode ser considerado em situações específicas de hipogonadismo masculino, especialmente quando há interesse em preservar a fertilidade.

Em quais tipos de hipogonadismo o clomifeno pode ser considerado?
O uso do clomifeno no tratamento do hipogonadismo masculino faz mais sentido em duas situações específicas:
- Hipogonadismo hipogonadotrófico: nesse caso, o problema primário é a baixa secreção de FSH e LH;
- Hipogonadismo de causa funcional: na ausência de lesão estrutural, o bloqueio do feedback negativo pode estimular as células hipofisárias e aumentar a secreção de gonadotrofinas.
Na presença de lesão estrutural, entretanto, o bloqueio do feedback negativo sobre células hipofisárias destruídas tende a não produzir efeito.
O uso de clomifeno no homem é off label?
Do ponto de vista teórico, a maior utilidade do clomifeno ocorre no hipogonadismo hipogonadotrófico funcional. Embora exista plausibilidade biológica para esse uso e estudos já tenham demonstrado benefício em algumas situações, essa indicação ainda não consta em bula.
Por isso, o uso do clomifeno no tratamento do hipogonadismo masculino permanece off label.
A principal preocupação está relacionada à segurança em longo prazo, já que a maioria dos estudos avaliou o tratamento por apenas alguns meses. Ainda assim, há pelo menos um estudo que demonstrou segurança com o uso do clomifeno por um período de sete anos.
Quando considerar o clomifeno na prática clínica?
Preservação da fertilidade
O clomifeno pode ser considerado em homens com hipogonadismo hipogonadotrófico comprovado que desejam preservar a fertilidade no curto prazo.
Nesses casos, a terapia de reposição de testosterona pode ser inadequada, pois tende a suprimir ainda mais a espermatogênese. O clomifeno, por outro lado, aumenta a secreção hipofisária de gonadotrofinas, estimulando os testículos a produzirem testosterona intratesticular e favorecendo a espermatogênese.
Essa possibilidade é mencionada pela diretriz da Endocrine Society sobre o manejo do hipogonadismo masculino. No entanto, o clomifeno dificilmente terá sucesso quando houver lesão estrutural central.
Recuperação após uso de esteroides anabolizantes
A recuperação do eixo gonadotrófico após o uso de esteroides anabolizantes é uma das principais situações clínicas em que o clomifeno pode ser considerado.
Após a suspensão dos esteroides, o homem pode desenvolver hipogonadismo hipogonadotrófico funcional. Nesses casos, o uso de clomifeno por alguns meses pode estimular novamente a secreção de gonadotrofinas e contribuir para a reversão do quadro.
Hipogonadismo persistente após tratamento do prolactinoma
A hiperprolactinemia é uma causa funcional de hipogonadismo hipogonadotrófico e, por isso, o quadro costuma ser reversível após a normalização dos níveis de prolactina.
No entanto, em alguns casos de prolactinoma, o homem permanece hipogonádico mesmo após resposta adequada ao tratamento com cabergolina.
Nessa situação, podem ser consideradas duas possibilidades: iniciar terapia de reposição de testosterona ou utilizar clomifeno, especialmente quando a preservação da fertilidade é uma preocupação.
Hipogonadismo associado à obesidade
O uso de clomifeno no hipogonadismo associado à obesidade é uma das indicações mais discutíveis, devido à maior limitação das evidências disponíveis.
Ainda assim, algumas publicações consideram seu uso em situações específicas. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, por exemplo, afirma que o citrato de clomifeno pode ser considerado em indivíduos com diabetes mellitus tipo 2, síndrome metabólica ou obesidade, principalmente quando há interesse em preservar a fertilidade.
É importante lembrar, porém, que a principal abordagem nesses casos é a perda de peso, que, por si só, pode levar à resolução do hipogonadismo.
Quais são as limitações do uso de clomifeno?
Quando bem indicado, o citrato de clomifeno pode ter utilidade em situações específicas de hipogonadismo masculino, especialmente em pacientes que desejam preservar a fertilidade.
Entretanto, a segurança do tratamento em longo prazo ainda é motivo de preocupação, pois são necessários mais estudos com períodos prolongados de acompanhamento para validar seu uso nesses cenários clínicos.
Por isso, a indicação deve considerar individualmente os riscos e os benefícios. O paciente também deve ser informado de que o uso de clomifeno para o tratamento do hipogonadismo masculino permanece off label.
*Este conteúdo foi atualizado em: 20/07/2026 pela equipe editorial do Portal Afya.
Autoria

Erik Trovão
Redator em Endopapers. Formado em Medicina pela UFCG. Residência em Clínica Médica pelo HBL-SUS/PE. Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo HAM-SUS/PE. Titulo de especialista em Endocrinologia e Metabologia pela SBEM Mestre em neurociências pela UFPE. Preceptor da Residência de Endocrinologia do HC/UFPE.
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